Índia desiste de sediar a COP33 e abandona protagonismo no debate climático global

Ilustração editorial sobre Índia desiste de sediar a COP33 e abandona protagonismo no debate climático global. (Ilustração: Cafezinho / Flux Pro)

O governo da Índia anunciou oficialmente que não irá mais sediar a 33ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP33), prevista para 2028. A decisão foi comunicada pelo Ministério das Relações Exteriores indiano e surpreendeu observadores internacionais, já que o próprio primeiro-ministro Narendra Modi havia apresentado pessoalmente a candidatura do país.

Com mais de 1,4 bilhão de habitantes e sendo o terceiro maior emissor de gases de efeito estufa do planeta, a Índia era vista como candidata de peso para liderar o debate climático entre as economias emergentes. Conforme reportagem da Rádio França Internacional (RFI), a desistência ocorreu sem explicações oficiais, acendendo questionamentos sobre o compromisso ambiental do governo Modi.

O simbolismo da candidatura era considerável, especialmente porque 2028 marcará o segundo grande balanço global do Acordo de Paris — o chamado Global Stocktake, realizado a cada cinco anos para avaliar o progresso das nações na redução de emissões. O primeiro ciclo desse balanço ocorreu em 2023, durante a COP28, e incluiu pela primeira vez a necessidade de uma transição mundial para além dos combustíveis fósseis.

Ao abrir mão de sediar a COP33, a Índia renuncia à posição de condutora de uma discussão central sobre o futuro energético global. A decisão gerou preocupação entre ambientalistas e diplomatas que esperavam ver o país exercendo influência direta sobre as negociações do segundo balanço do Acordo de Paris.

Apesar de investir fortemente em energia solar e eólica, o país ainda depende majoritariamente do carvão para sustentar sua matriz elétrica. Essa contradição expõe os desafios de conciliar crescimento econômico acelerado com metas de descarbonização em um contexto de desigualdade social profunda e demanda crescente por energia.

O primeiro-ministro Modi, que não participou das duas últimas conferências climáticas, vinha sendo cobrado por maior engajamento internacional no tema. Seu governo também apresentou com mais de um ano de atraso o novo plano climático nacional — documento obrigatório no âmbito do Acordo de Paris —, o que reforça as dúvidas sobre a prioridade real dada à agenda ambiental em Nova Délhi.

Analistas apontam que a decisão pode ter motivações políticas e econômicas internas, ligadas à necessidade de concentrar investimentos domésticos em infraestrutura e segurança energética. Outros especialistas observam que a Índia busca equilibrar suas relações com potências ocidentais e com parceiros estratégicos como a China, dentro de uma política externa que prioriza autonomia e não alinhamento automático.

O abandono da candidatura abre espaço para que outros países disputem a sede da conferência, com Brasil e África do Sul figurando entre os nomes mais citados nos bastidores diplomáticos. Ambos têm defendido ativamente uma transição energética justa, que reconheça as responsabilidades históricas dos países desenvolvidos nas emissões acumuladas de carbono ao longo dos séculos.

Para o sistema multilateral de clima, a ausência da Índia como anfitriã da COP33 expõe as dificuldades crescentes de manter coesão global em torno das metas ambientais em um mundo cada vez mais fragmentado. O desafio de conciliar desenvolvimento econômico e descarbonização segue sem resposta clara nas economias emergentes que mais crescem no planeta.


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