Milhares de sudaneses que fugiram da guerra civil enfrentam agora um novo impasse no norte da África, encurralados entre as fronteiras da Argélia e do Marrocos por barreiras policiais e uma burocracia que os impede de obter proteção efetiva, conforme revelou o Al Jazeera.
O jovem Amir Ali, de 17 anos, ilustra o drama vivido por essa nova leva de refugiados. Após perder a família em ataques em El-Fasher, no Sudão, ele atravessou desertos, foi sequestrado na Líbia e espancado por forças paramilitares antes de chegar à fronteira marroquina. Mesmo com um documento de solicitante de asilo emitido pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), Ali continua vulnerável e teme ser deportado para o sul do país.
Desde o início do conflito entre as Forças Armadas do Sudão e as Forças de Apoio Rápido (RSF), em abril de 2023, o número de sudaneses registrados no Marrocos cresceu rapidamente. Até o fim de 2025, o ACNUR contabilizava 22.370 refugiados e solicitantes de asilo de 67 países, sendo 5.290 do Sudão. A ausência de uma lei nacional de asilo, prometida desde 2013, mantém milhares em situação de incerteza jurídica e social.
O governo marroquino é signatário da Convenção de 1951 sobre Refugiados, mas ainda não implementou um sistema próprio de reconhecimento e integração. Na prática, o ACNUR realiza o registro e a determinação do status de refugiado, enquanto o Estado concede autorizações de residência limitadas. Essa lacuna legal deixa muitos sem acesso a moradia, emprego formal e cuidados médicos especializados.
De acordo com Muriel Juramie, representante interina do ACNUR no Marrocos, a adoção de uma lei de asilo traria previsibilidade e garantias de direitos. Ela ressaltou que o país enfrenta uma crise de financiamento humanitário, o que reduziu a capacidade de atendimento em 2025, afetando especialmente os recém-chegados do Sudão. A falta de recursos compromete o registro, o apoio psicológico e o acompanhamento de menores desacompanhados.
Organizações locais, como a Fondation Orient-Occident, tentam suprir parte das lacunas deixadas pelo Estado. A entidade, sediada em Rabat, oferece abrigo, orientação jurídica e atendimento psicológico a refugiados de toda a África. Sua presidente, Yasmina Filali, descreve a comunidade sudanesa como uma das mais fragilizadas que já atendeu, marcada por traumas de guerra, tortura e exploração.
A psicóloga Hind Benminoum, que atua na mesma fundação, relata que muitos refugiados chegam com ferimentos graves e sofrimento emocional intenso. Os relatos de violência e escravidão durante a travessia pela Líbia e pela Argélia são frequentes. A assistência médica gratuita cobre apenas cuidados primários, e tratamentos especializados — como o que Amir Ali necessita para o coração — estão fora do alcance da maioria.
O ativista Rachid Chakri, também da Fondation Orient-Occident, critica o que chama de sistema improvisado de proteção. Para ele, o Marrocos delega de fato ao ACNUR uma função essencial de soberania, sem um arcabouço legal que assegure direitos de longo prazo. Isso faz com que refugiados permaneçam registrados, mas invisíveis, vivendo sob risco constante de remoção forçada.
Além da fragilidade institucional, a política migratória europeia influencia diretamente a situação. Organizações de direitos humanos denunciam que a União Europeia e a Espanha financiam programas de controle migratório no norte da África, resultando em empurrões de refugiados para zonas desérticas e em detenções arbitrárias. Essa externalização das fronteiras europeias transforma o Marrocos em uma barreira de contenção para quem busca asilo no continente.
Para jovens como Ali, o futuro segue incerto. Sem recursos para tentar a travessia do Mediterrâneo e com a saúde debilitada, ele aguarda uma possível realocação humanitária, embora saiba que as vagas são escassas. Sobrevive de pequenos trabalhos informais e do apoio de voluntários, em um limbo que mistura esperança e exaustão. “O único que posso fazer é esperar”, disse ele, resumindo o sentimento de milhares de compatriotas presos entre fronteiras e burocracias.
Com informações de Al Jazeera.
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