Caverna sob castelo galês revela 120 mil anos de história com fósseis de espécies extintas e vestígios de neandertais

Ilustração editorial sobre Caverna sob castelo galês revela 120 mil anos de história com fósseis de espécies extintas e vestígios de neandertais. (Ilustração: Cafezinho / Flux Pro)

Sob as muralhas centenárias do Castelo de Pembroke, no sudoeste do País de Gales, uma caverna esquecida pelo tempo revelou segredos que desafiam as narrativas estabelecidas sobre a pré-história europeia. A Wogan Cavern, redescoberta após ser descartada como estéril por exploradores vitorianos no século XIX, guarda sedimentos intactos, fósseis de animais extintos e ferramentas de pedra que remontam a 120 mil anos.

A equipe liderada pelo arqueólogo Dr. Richard Bates, da Universidade de Aberdeen, descreveu o sítio como uma cápsula do tempo geológica, onde camadas estratigráficas registram a alternância entre eras glaciais e interglaciais com precisão rara. Os pesquisadores destacam que a caverna oferece uma continuidade de registros comparável às renomadas cavernas de Altamira, na Espanha, e Chauvet, na França, mas com a vantagem de preservar vestígios de ocupação humana e animal em sequência ininterrupta.

Entre os achados mais intrigantes estão ossadas de hipopótamos, mamutes-lanosos e rinocerontes peludos, espécies que habitaram a região em períodos climáticos radicalmente distintos. Os restos de hipopótamos, datados de aproximadamente 120 mil anos, pertencem ao último interglacial, quando o País de Gales desfrutava de um clima subtropical, desafiando as projeções anteriores sobre os limites das zonas temperadas na Europa pré-histórica.

Ferramentas de pedra encontradas no local sugerem a presença tanto de humanos modernos (Homo sapiens) quanto de neandertais, indicando uma possível sobreposição entre as duas espécies. Vestígios com cerca de 45 mil anos coincidem com a chegada dos primeiros Homo sapiens à Grã-Bretanha, enquanto materiais mais antigos podem ser atribuídos a neandertais, transformando a Wogan Cavern em um laboratório natural para o estudo das transições populacionais no continente.

A análise de DNA ambiental, técnica que identifica material genético preservado no solo, promete revolucionar a compreensão dos ecossistemas passados. Diferentemente de fósseis tradicionais, que nem sempre resistem à degradação, o DNA ambiental permite detectar espécies que deixaram poucos vestígios físicos, como plantas e pequenos animais, reconstruindo ambientes com riqueza de detalhes inédita.

Os sedimentos da caverna também revelam como humanos e fauna se adaptaram a mudanças climáticas abruptas. Camadas contendo restos de renas e cavalos selvagens correspondem a períodos de resfriamento intenso, enquanto a presença de hipopótamos reflete fases de aquecimento extremo. Essa alternância, preservada de forma quase ininterrupta, oferece um retrato detalhado das pressões ambientais enfrentadas por nossos ancestrais ao longo de milênios.

Um novo ciclo de escavações, financiado pela Calleva Foundation e pelo Pembroke Castle Trust, terá início em 2026 e se estenderá por cinco anos. O projeto aplicará técnicas de datação de alta resolução e análises genéticas avançadas para mapear com precisão as transições entre neandertais e humanos modernos, além de investigar como grupos de caçadores-coletores sobreviveram às oscilações climáticas do final da última Era Glacial.

A conexão física entre a caverna e o castelo medieval acima dela adiciona uma dimensão simbólica à descoberta. Uma escadaria em espiral, esculpida nas muralhas do século XII, desce diretamente para o interior da Wogan Cavern, unindo dois marcos históricos separados por dezenas de milênios. Essa proximidade sugere que o local foi um refúgio estratégico ao longo dos tempos, abrigando desde neandertais até nobres medievais.

Para tornar os achados acessíveis ao público, a Universidade de Aberdeen e o Museu Nacional do País de Gales planejam lançar uma coleção digital interativa, permitindo que visitantes explorem virtualmente as camadas da caverna. A iniciativa não apenas democratiza o acesso ao conhecimento científico, mas também transforma fósseis e sedimentos em ferramentas educacionais, reforçando a importância da preservação de sítios arqueológicos. Segundo apontou o portal especializado em ciência, a Wogan Cavern pode se consolidar como um dos principais sítios para o estudo da pré-história europeia.

A descoberta reforça a capacidade da arqueologia de reescrever capítulos esquecidos da história humana. Os pesquisadores envolvidos no projeto destacam que cada camada da caverna oferece pistas valiosas sobre como nossos ancestrais enfrentaram transformações ambientais drásticas, fornecendo insights cruciais para compreender os desafios ecológicos do passado.


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