Um objeto brilhante e dourado, encontrado a mais de três quilômetros de profundidade no Oceano Pacífico, próximo ao Alasca, deixou cientistas perplexos por dois anos e meio. A descoberta, feita durante a expedição Seascape Alaska 5 em 2023, desafiou explicações convencionais e alimentou teorias que iam desde cápsulas de ovos desconhecidos até formações microbianas exóticas.
A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) liderou a investigação, utilizando um veículo operado remotamente para coletar o artefato, firmemente aderido a uma rocha. Allen Collins, zoólogo do Museu Nacional de História Natural do Smithsonian em Washington, D.C., descreveu a reação inicial da equipe como de puro espanto. ‘Todos ficaram tipo, Que diabos? O que é isso?‘, relatou Collins, que coordenou os estudos subsequentes para desvendar o mistério.
Análises preliminares a bordo do navio Okeanos Explorer não revelaram estruturas anatômicas típicas, como bocas ou músculos, aumentando o enigma. A ausência de características reconhecíveis sugeria que o objeto poderia pertencer a uma categoria biológica ainda não documentada, ou talvez fosse um vestígio de algo maior e desconhecido. A equipe, então, recorreu a técnicas mais avançadas para desvendar sua origem.
Sob a lente de um microscópio, os pesquisadores identificaram a presença de nematocistos, células urticantes características do filo Cnidaria. Essas células, no entanto, eram do tipo espirócisto, exclusivas da classe Hexacorallia, que inclui cerca de quatro mil espécies de invertebrados marinhos, como anêmonas e corais. A descoberta estreitou o campo de investigação, mas ainda não esclarecia completamente a natureza do objeto dourado.
Testes genéticos subsequentes detectaram DNA de micróbios e de um organismo semelhante a uma anêmona, o Relicanthus daphneae. Estefanía Rodríguez, curadora de invertebrados marinhos do Museu Americano de História Natural em Nova York, reconheceu imediatamente o tecido como uma cutícula, uma estrutura secretada por anêmonas para se fixar em rochas. Segundo Rodríguez, o ‘ovo dourado’ era, na verdade, um vestígio dessa secreção, abandonada após a migração do animal.
Os resultados da pesquisa foram publicados no servidor de pré-prints bioRxiv e, conforme apontou o portal Live Science, ainda aguardam revisão por pares. A descoberta, no entanto, já oferece insights valiosos sobre a vida nas profundezas oceânicas, um ambiente ainda pouco explorado e repleto de mistérios.
Tammy Horton, taxonomista de águas profundas do Centro Nacional de Oceanografia de Southampton, no Reino Unido, elogiou a capacidade dos autores em reunir evidências suficientes para identificar o objeto, mesmo sendo apenas um fragmento. ‘É maravilhoso que tenham conseguido identificar a amostra, ainda que não fosse um espécime completo’, afirmou Horton, destacando a importância de combinar técnicas de DNA com coleta de amostras físicas para confirmar a identidade de espécies marinhas pouco conhecidas.
Jon Copley, ecologista marinho da Universidade de Southampton, também no Reino Unido, ressaltou que a descoberta reforça o quão surpreendente pode ser a vida nas profundezas oceânicas. ‘Pela aparência, ninguém imaginaria que se tratava dos restos de um animal semelhante a uma anêmona’, admitiu Copley, reforçando a necessidade de mais estudos para compreender a biodiversidade desses ecossistemas extremos.
A classificação exata do R. daphneae, no entanto, ainda divide os cientistas. Enquanto dados genéticos de um estudo de 2019 sugerem que a espécie não se encaixa nos grupos taxonômicos existentes, ocupando uma posição ‘irmã’ das verdadeiras anêmonas, Rodríguez insiste que, morfologicamente, trata-se de uma anêmona legítima. ‘Morfologicamente, é uma anêmona, e eu realmente acredito que seja uma anêmona’, afirmou a pesquisadora.
Rodríguez acredita que o R. daphneae pode pertencer a uma linhagem ancestral de anêmonas, o que explicaria a dificuldade em classificá-lo. ‘Simplesmente não temos amostras suficientes para provar isso ainda’, admitiu. Collins, por sua vez, explicou que o animal provavelmente secreta a cutícula para se fixar em rochas, podendo se desprender e se mover para novos locais, onde cria uma nova estrutura de ancoragem.
O ‘ovo dourado’ encontrado no Alasca seria, portanto, uma cutícula abandonada após a migração do animal. ‘Em alguns vídeos, é possível ver cutículas nas rochas próximas ao local onde a anêmona está’, detalhou Collins. ‘Em um caso, há um longo rastro ao longo de uma rocha, sugerindo que o animal secretou várias cutículas antes de se estabelecer definitivamente’.
O R. daphneae é comumente observado próximo a fontes hidrotermais nos oceanos Pacífico, Atlântico Sul e Índico, mas Copley suspeita que sua distribuição possa ser mais ampla. ‘Cientistas tendem a explorar mais frequentemente essas regiões, o que pode limitar nosso conhecimento sobre a real distribuição dessas espécies’, explicou. A descoberta do ‘ovo dourado’ abre novas perspectivas para mapear a presença desses organismos enigmáticos em áreas menos exploradas do fundo do mar.
A pesquisa, intitulada The Curious Case of the Golden Orb – Relict of Relicanthus daphneae (Cnidaria, Anthozoa, Hexacorallia), a deep sea anemone, foi liderada por uma equipe internacional e destaca a importância de estudos contínuos para desvendar os mistérios das profundezas oceânicas. Agora que se sabe que esses organismos deixam vestígios brilhantes, pesquisadores poderão identificar sua ocorrência em regiões ainda não exploradas, ampliando o conhecimento sobre a biodiversidade marinha.
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