A França e o Reino Unido lideram uma articulação diplomática e militar para criar uma missão de segurança no estreito de Ormuz, ponto nevrálgico do comércio global de energia por onde passa cerca de um quinto do petróleo consumido no planeta.
A iniciativa foi discutida em uma reunião que reuniu representantes de aproximadamente quarenta países, convocada em meio ao anúncio do governo iraniano sobre a reabertura do corredor marítimo, fechado durante o recente conflito entre o Irã e os Estados Unidos.
Durante o encontro, o presidente francês Emmanuel Macron e o primeiro-ministro britânico Keir Starmer receberam uma mensagem do ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, declarando a passagem de todos os navios comerciais totalmente aberta enquanto durar o cessar-fogo vigente. Macron considerou o gesto positivo, mas manifestou reservas quanto às condições impostas por Teerã e à manutenção da presença militar norte-americana na área.
A proposta francesa busca consolidar a estabilidade regional após o encerramento das hostilidades. A ideia central é que a missão opere de forma neutra e independente, com foco em escoltar embarcações civis e garantir a livre navegação, sem envolvimento direto dos países que participaram do conflito.
Além dos europeus, participaram da reunião representantes da Coreia do Sul, China, Japão, Arábia Saudita e Qatar, demonstrando o alcance global da iniciativa. O chanceler alemão Friedrich Merz defendeu a inclusão dos Estados Unidos na coalizão, mas Macron rejeitou a proposta, argumentando que a presença de uma parte diretamente envolvida na guerra comprometeria a neutralidade da operação.
Merz afirmou que a Alemanha está disposta a contribuir com operações de desminagem e reconhecimento marítimo, ressaltando que Berlim participará das discussões militares previstas para ocorrer em Londres. Starmer confirmou que uma nova rodada de negociações definirá os contornos operacionais da missão, incluindo comando político e divisão de responsabilidades entre os países participantes.
O ex-oficial francês Guillaume Ancel, autor do blog “Ne pas subir”, avaliou que a iniciativa tem utilidade prática limitada. Para ele, um acordo direto entre Washington e Teerã seria suficiente para restabelecer a navegação normal, sem necessidade de uma força internacional de escolta. Ancel argumentou que, encerrado o confronto, não haveria ameaça concreta à circulação de navios comerciais na região.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, reagiu de forma ambígua em sua rede Truth Social. Em algumas postagens, elogiou a reabertura do estreito e chegou a agradecer ao Irã pela medida, mas ao mesmo tempo sinalizou a manutenção da presença militar norte-americana na área. Em tom provocativo, Trump afirmou ter recusado apoio da OTAN, ironizando que a aliança só se interessaria em “encher seus navios de petróleo”.
O estreito de Ormuz é uma das rotas marítimas mais estratégicas do planeta, separando o Irã da Península Arábica e conectando o Golfo Pérsico ao oceano Índico. Qualquer interrupção nesse corredor afeta diretamente os preços internacionais de energia e o equilíbrio econômico de países exportadores e importadores em todo o mundo.
Para Paris e Londres, a criação de uma missão internacional serviria também como instrumento diplomático para reduzir tensões entre o Irã e as potências ocidentais, reforçando a presença europeia em uma região onde Washington historicamente dita as regras. A proposta sinaliza o esforço europeu de afirmar autonomia estratégica em um momento em que a credibilidade dos EUA como árbitro neutro está corroída pelo próprio envolvimento no conflito.
A próxima reunião em Londres deverá detalhar capacidades navais, financiamento e estrutura de comando da operação, que poderá reunir até quarenta países. O resultado dessas negociações dirá se a Europa conseguirá transformar a iniciativa em um mecanismo concreto de estabilidade no Golfo, ou se Washington e Teerã resolverão o impasse bilateralmente, esvaziando a coalizão antes mesmo de ela zarpar.
Leia mais sobre o assunto na RFI.
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