Um estudo inédito da USP mostra como um conjunto de genes associados a sinapses pode participar do sistema imune. Os resultados abrem possibilidades para diagnosticar tipos de depressão e também desenvolver novos tratamentos.
Em pessoas com depressão, os leucócitos — células de defesa do organismo — e os neurônios estão desregulados, ou seja, funcionam incorretamente e podem causar doenças como câncer ou distúrbios neurobiológicos. Isso é o que mostra uma pesquisa realizada pela USP e publicada na revista Scientific Reports. O estudo, que tem como primeira autora Anny Silva Adri, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da USP, demonstrou como um conjunto de genes tradicionalmente associados a neurônios pode participar de processos relacionados ao sistema imunológico. A descoberta abre possibilidades para identificar biomarcadores que auxiliem no diagnóstico do tipo e do grau do Transtorno Depressivo Maior (TDM).
Para chegar a esses resultados, os cientistas analisaram o transcriptoma — conjunto de moléculas expressas por um genoma em um organismo, tecido ou célula específica — de 3.072 pessoas, com dados provenientes de bancos públicos dos Estados Unidos, da Alemanha e da França.
Em uma primeira investigação, foram identificados 1.383 genes com funções alteradas em leucócitos, incluindo 73 relacionados à sinapse (zonas de comunicação entre neurônios ou entre neurônios e outras células). Deste total, 18 genes distinguiram pacientes com TDM de controles saudáveis com alto grau de precisão.
Os pesquisadores também realizaram uma análise de consenso para identificar genes aumentados ou diminuídos. Sete genes relacionados à sinapse (BCR, NSMF, PICK1, MX1, MDGA1, MYLK e GNB3) apresentaram alterações consistentes. Além disso, a análise da rede do “diseasoma” — estudo das conexões entre doenças humanas e seus genes associados — revelou associações relevantes desses sete genes.
“Antes do nosso trabalho, não havia nenhuma base de dados que caracterizasse, de forma sistêmica, essas moléculas do neuroimunoma (o conjunto de genes presentes nos sistemas imunológico e nervoso)”, afirmou Otávio Cabral Marques, professor da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e orientador do estudo.
Entendendo o TDM
O transtorno depressivo maior (depressão) é caracterizado por humor deprimido ou perda de prazer em atividades por longos períodos. Ele pode afetar todos os aspectos da vida, incluindo relacionamentos familiares e sociais. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 4% da população mundial sofre de depressão, incluindo 5,7% dos adultos (4,6% dos homens e 6,9% das mulheres) e 5,9% dos idosos com mais de 70 anos — aproximadamente 332 milhões de pessoas no mundo.
Anny Silva Adri explicou ao Jornal da USP que a maioria dos estudos sobre a patologia investiga o cérebro e o sistema imunológico separadamente. “Temos artigos que mostram uma hiperinflamação em pacientes com transtorno depressivo, mas ainda não havíamos visto nenhum trabalho que fizesse essa conexão entre sistema imunológico e sistema nervoso.”
Otávio Cabral Marques resume que a pesquisa mostra, em essência, que o sistema imune possui uma maquinaria sináptica. “O que afeta o cérebro afeta também o sistema imune, intrinsecamente. Não porque o sistema nervoso mandou uma mensagem ao sistema imunológico, mas porque o sistema imunológico é intimamente conectado com as redes moleculares do sistema nervoso.”
Futuro
A pesquisadora destaca que o trabalho, além de fornecer dados para a descoberta de biomarcadores, também abre novas perspectivas para o desenvolvimento de medicamentos. “O número de pessoas que não respondem aos antidepressivos é alto, sendo importante investigar o estado inflamatório dos pacientes com depressão para desenvolver novas abordagens terapêuticas. Seria interessante olharmos de forma integrada para o cérebro e o sistema imune para, quem sabe, desenvolver novos medicamentos e explorar mais abordagens não medicamentosas (psicoterapia, meditação etc.) que reduzam a inflamação também”, afirmou Anny.
Atualmente, Anny Adri prepara uma nova etapa em sua pesquisa. De mudança para o Canadá, onde realizará doutorado sanduíche, ela pretende estudar com mais profundidade os genes das células cerebrais identificadas no estudo. “Estou indo para a Universidade Health Network, em Toronto. Quero ver como esses genes estão refletidos nessas populações cerebrais, aplicando algumas técnicas de integração de dados que eles utilizam.”
Já Otávio Cabral Marques espera que a depressão passe a ser vista como uma doença sistêmica. “A depressão atinge não só o cérebro, mas afeta o corpo inteiro e aumenta a suscetibilidade a doenças. Precisamos cuidar da nossa saúde mental urgentemente.”
O artigo Systems-level transcriptomic analysis reveals synapse-related gene dysregulation in peripheral leukocytes of MDD patients pode ser lido aqui.
Mais informações: annyadri@usp.br, com Anny Silva Adri; otavio.cmarques@usp.br, com Otávio Cabral Marques.
Fonte: Jornal da USP