O estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quinto do petróleo consumido no mundo, voltou ao centro das tensões entre Washington e Teerã, reacendendo o temor de uma nova escalada militar e de um choque energético de proporções globais.
O presidente dos EUA, Donald Trump, acusou o Irã de violar o cessar-fogo em vigor e anunciou o envio de negociadores para buscar um acordo. Em publicação na rede Truth Social, ele afirmou que Washington não será “chantageado” e ameaçou destruir infraestrutura iraniana caso Teerã não aceite o que chamou de “oferta justa”.
O governo iraniano respondeu reforçando o controle sobre o estreito em reação ao bloqueio americano de seus portos, iniciado em meados de abril. O Ministério das Relações Exteriores do Irã havia anunciado que a passagem seria aberta a embarcações comerciais durante a trégua, mas a Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) reverteu a decisão, denunciando “atos de pirataria” praticados pelos EUA.
Em comunicado divulgado pela emissora IRIB, o comando conjunto da IRGC declarou que o estreito permanecerá sob “gestão e controle rigoroso” até que Washington restabeleça a plena liberdade de navegação para navios iranianos. O presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, que lidera as negociações com os EUA, classificou o bloqueio americano como “ignorante” e “insensato”, afirmando que nenhuma embarcação cruzará o estreito sem o consentimento de Teerã.
Do lado americano, Trump manteve o tom de confronto ao mesmo tempo em que insistiu que as conversas com o Irã estariam “indo bem”. Ele reiterou que não encerrará o bloqueio até que um acordo seja finalizado, reforçando a pressão sobre a economia iraniana e sobre o fluxo global de petróleo.
Empresas de monitoramento marítimo, como a Lloyd’s List, relataram que o tráfego no estreito foi praticamente interrompido após os disparos iranianos contra navios na região. A agência britânica de Operações de Comércio Marítimo confirmou o ataque a um petroleiro por duas lanchas associadas à Guarda Revolucionária, enquanto a Índia convocou o embaixador iraniano para protestar após dois navios com bandeira indiana terem sido atingidos.
Analistas em Teerã, como Abas Aslani, do Centro de Estudos Estratégicos do Oriente Médio, avaliam que ambas as partes estão usando retórica de guerra para aumentar a pressão antes de qualquer acordo. Aslani advertiu que mesmo ataques limitados dos EUA poderiam gerar uma resposta iraniana de grande escala, ampliando o risco de um conflito regional de difícil contenção.
Entre os pontos mais sensíveis das negociações está o programa nuclear iraniano. Trump declarou que pretende recuperar o urânio enriquecido iraniano, chamando-o de “pó nuclear”, e disse que os EUA “escavariam com grandes máquinas” para obtê-lo. O presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, reagiu afirmando que Washington não tem autoridade para negar ao país o direito de desenvolver energia nuclear para fins civis.
O Irã sustenta que cumpre o Tratado de Não Proliferação e que seu programa tem caráter exclusivamente pacífico. A própria diretora de Inteligência Nacional dos EUA, Tulsi Gabbard, declarou ao Congresso que o Irã não retomou um programa de armas nucleares desde 2003 — declaração que contradiz frontalmente a narrativa belicista que Trump usa para justificar o bloqueio.
Outro ponto de tensão envolve o Líbano, onde uma trégua frágil entre Israel e o Hezbollah foi uma das condições impostas por Teerã para aceitar o cessar-fogo temporário. Mesmo assim, Israel continuou realizando ataques e criando zonas de segurança no território libanês, levando o Hezbollah a manter suas forças em alerta e a denunciar o acordo como “insulto” à soberania do Líbano.
O Hezbollah, aliado estratégico do Irã, integra o chamado eixo da resistência, que reúne forças apoiadas por Teerã em países como Iêmen e Iraque. A intensificação das operações militares americanas e israelenses na região elevou ainda mais a percepção de que o conflito pode se expandir para além das fronteiras do estreito.
Com o estreito de Ormuz novamente paralisado, o risco de um colapso energético global cresce a cada dia sem acordo. O impasse entre Washington e Teerã reflete a disputa mais ampla pelo controle das rotas estratégicas e pela soberania dos países do Oriente Médio diante da pressão militar e econômica dos EUA e de Israel.
Leia mais sobre o assunto na aljazeera.com.
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