A Comissão Nacional de Direitos Humanos da Indonésia abriu uma investigação sobre a morte de 12 civis durante uma operação militar no vilarejo de Kembru, na província da Papuásia.
O episódio reacendeu as tensões históricas entre o Exército indonésio e os grupos separatistas papuanos, que reivindicam independência desde a década de 1960.
A presidente da Comissão, Anis Hidayah, afirmou que há fortes indícios de responsabilidade de soldados indonésios nas mortes. Ela declarou à RFI que a entidade conduz uma apuração independente para esclarecer as circunstâncias do ataque e garantir justiça às vítimas.
O porta-voz das Forças Armadas, Aulia Dwi Nasrullah, declarou que a operação teve como alvo combatentes do grupo separatista TPNPB-OPM. Ele informou que quatro insurgentes foram neutralizados e negou qualquer envolvimento das tropas na morte de civis.
Nasrullah acrescentou que o Exército também investiga relatos sobre uma criança morta em outro vilarejo da região. As declarações buscam rebater as acusações de abusos contra a população civil local.
A Papuásia, localizada no extremo leste do arquipélago indonésio, é uma das áreas mais ricas em recursos minerais do país. A região abriga algumas das maiores reservas de ouro e cobre do planeta e responde por cerca de metade da produção mineral da Indonésia.
Essa abundância contrasta com a pobreza e a exclusão social enfrentadas pela população local, majoritariamente negra e cristã, em um país de maioria muçulmana. A Indonésia assumiu o controle administrativo da região em 1963, enquanto o referendo conhecido como Ato de Livre Escolha ocorreu em 1969 e foi amplamente contestado.
O movimento independentista papuásio enfrenta pressão militar desde então. Durante o governo de Suharto, que se estendeu até 1998, centenas de milhares de papuanos morreram em confrontos e operações de segurança.
A redemocratização e os programas de modernização implementados nas últimas décadas não eliminaram a desigualdade social na Papuásia. O índice de pobreza local continua muito acima da média nacional, enquanto os confrontos entre forças do Estado e grupos separatistas seguem frequentes.
O governo indonésio justifica a presença militar como necessária para combater insurgências e proteger projetos estratégicos de mineração. Organizações de direitos humanos denunciam um padrão de abusos sistemáticos, com execuções extrajudiciais, prisões arbitrárias e restrições à liberdade de imprensa na região.
O caso de Kembru, agora sob investigação, simboliza os desafios de reconciliação entre o Estado indonésio e o povo papuásio. A Comissão Nacional de Direitos Humanos promete divulgar suas conclusões assim que as equipes de campo finalizarem a coleta de depoimentos e provas.
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