Uma equipe internacional de astrônomos anunciou a identificação de mais de 10 mil novos candidatos a planetas em dados do telescópio da NASA, o Transiting Exoplanet Survey Satellite (TESS). O estudo, liderado por Joshua Roth, pesquisador da Universidade de Princeton, amplia de forma expressiva o catálogo de possíveis mundos fora do Sistema Solar, embora apenas uma fração deles deva ser confirmada como planetas reais.
Lançado em 2018, o TESS tem como missão observar estrelas em todo o céu em busca de exoplanetas – corpos que orbitam outros sóis. O telescópio detecta esses objetos por meio de pequenas variações no brilho das estrelas, sinais que podem indicar o trânsito de um planeta entre a estrela e a Terra.
Até recentemente, o TESS havia confirmado mais de 750 exoplanetas, mas os dados brutos guardavam muito mais informações. Ao reprocessar o primeiro ano de observações, Roth e sua equipe identificaram 11.554 possíveis novos candidatos, dos quais 10.091 não constavam em registros anteriores.
O avanço foi possível ao combinar imagens e ampliar a sensibilidade do telescópio a estrelas mais fracas e distantes. Essa técnica permitiu sondar regiões até 6.800 anos-luz da Terra, dobrando o alcance anterior e expandindo o campo de estudo para zonas mais profundas da Via Láctea.
Mais de 90% dos novos candidatos pertencem à categoria dos chamados Júpiteres quentes – gigantes gasosos que orbitam muito próximos de suas estrelas e completam uma revolução em poucos dias. O TESS é particularmente eficaz na detecção desse tipo de corpo, cuja presença altera de modo perceptível o brilho estelar observado.
Outros candidatos incluem Netunos e super-Terras, tipos de planetas que despertam grande interesse por sua variedade de composições e tamanhos. No entanto, cada sinal precisa ser cuidadosamente verificado, pois muitos podem ser falsos positivos causados por fenômenos estelares ou ruído instrumental.
Roth explicou que a taxa de falsos positivos do TESS é de aproximadamente 50%, o que significa que cerca de metade dos novos candidatos pode não ser um planeta verdadeiro. “No máximo, 5 mil desses sinais correspondem a planetas reais, e talvez apenas 3 mil”, afirmou o pesquisador, destacando a necessidade de confirmações independentes por outros telescópios.
Mesmo com essa margem, o levantamento representa um salto considerável na base de dados de exoplanetas conhecidos. Jessie Christiansen, chefe científica do Instituto de Ciência de Exoplanetas da NASA, afirmou que o novo conjunto de candidatos oferece material sem precedentes para compreender onde e como os planetas se formam.
“Quero o maior número possível de exoplanetas para poder começar a fatiar e analisar”, declarou Christiansen, ao comentar a importância de reunir uma amostra ampla para comparar diferentes tipos de sistemas estelares. Segundo ela, cada novo candidato ajuda a revelar padrões na formação planetária e a testar teorias sobre a evolução das estrelas e de seus companheiros orbitais.
Christiansen observou ainda que há cerca de 8 mil outros candidatos à espera de análise nos dados do TESS, o que pode elevar o total futuro de confirmações. Esse volume crescente reforça a necessidade de ferramentas automatizadas e inteligência artificial para processar o enorme fluxo de informações geradas pelo telescópio.
O New Scientist destacou que o estudo marca uma nova fase na astronomia observacional, em que a quantidade de dados supera a capacidade humana de interpretação manual. A integração entre algoritmos e observatórios terrestres será essencial para validar os sinais e distinguir planetas genuínos de artefatos de medição.
O TESS, sucessor do telescópio Kepler, opera com quatro câmeras que monitoram amplas faixas do céu em intervalos de 27 dias. Essa estratégia permite registrar variações luminosas sutis em milhões de estrelas, gerando um banco de dados que se tornou referência mundial para o estudo de exoplanetas.
Segundo Roth, o método de reanálise aplicado pela equipe combina aprendizado de máquina e calibração refinada dos sensores. Isso permite identificar padrões antes despercebidos e reduzir o risco de interpretações equivocadas, um desafio constante em missões que lidam com volumes massivos de informação cósmica.
O projeto também demonstra a importância da colaboração entre universidades e centros espaciais de diferentes países. Instituições dos Estados Unidos, Reino Unido e Austrália participaram do trabalho, que envolveu o cruzamento de dados fotométricos com observações do telescópio espacial Gaia, da Agência Espacial Europeia (ESA).
Os pesquisadores ressaltam que a confirmação de cada candidato exigirá observações complementares, muitas delas realizadas por telescópios em solo, como o Observatório Keck, no Havaí, e o Very Large Telescope, no Chile. Essas medições são fundamentais para determinar a massa e a densidade dos objetos, parâmetros que confirmam se são planetas ou fenômenos estelares.
O estudo reforça a ideia de que a galáxia está repleta de mundos ainda não observados, mas também mostra que a validação científica é um processo lento e rigoroso. Cada candidato confirmado amplia a compreensão sobre a diversidade de sistemas planetários e ajuda a situar o próprio Sistema Solar em um contexto mais amplo.
Para Roth e Christiansen, o trabalho do TESS está longe de terminar. A missão continua a registrar dados e deve gerar novas rodadas de descobertas que, com o tempo, permitirão mapear com mais precisão a vizinhança cósmica da Terra.
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