Ministério do Meio Ambiente da Alemanha critica duramente planos da União Europeia para miniusinas nucleares

Ilustração editorial sobre Ministério do Meio Ambiente da Alemanha critica duramente planos da União Europeia para miniusinas nucleares. (Ilustração: Cafezinho / Flux Pro)

Um documento interno do Ministério do Meio Ambiente da Alemanha revelou críticas contundentes à estratégia da União Europeia para o uso de pequenos reatores nucleares modulares, conhecidos como SMR. O texto, obtido pela emissora SWR e divulgado pelo portal Tagesschau, mostra que especialistas do governo alemão consideram a proposta da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, cara, insegura e ineficaz para os objetivos climáticos do bloco.

Segundo o documento, datado de março, a equipe técnica do ministério avalia que a redução de tamanho dos reatores não elimina os riscos fundamentais da energia nuclear. Para alcançar a mesma potência de uma usina convencional, seriam necessários vários reatores menores, cada um deles sujeito a exigências rigorosas de segurança, o que elevaria os custos em vez de reduzi-los.

O plano europeu foi apresentado por Von der Leyen durante o segundo Nuclear Energy Summit, realizado em Paris, e prevê a integração dos SMR ao mix energético europeu. A proposta busca diversificar as fontes e garantir segurança no abastecimento, mas o parecer alemão alerta que a tecnologia ainda está distante de maturidade comercial e não chegaria a tempo de contribuir para a transição energética em curso.

O relatório também destaca que, sem subsídios maciços, não há mercado viável para os SMR. A promessa de economia pela produção em série só se concretizaria com uma escala industrial inexistente no momento.

Os recursos públicos necessários desviariam verbas de outras políticas climáticas mais eficazes. Para os técnicos, a aposta nos mini-reatores atrasaria investimentos em energias renováveis e armazenamento.

O ministro do Meio Ambiente da Alemanha, Carsten Schneider, integrante do Partido Social-Democrata (SPD), tem se posicionado contra qualquer retorno à energia nuclear. Já o chanceler alemão Friedrich Merz e o líder da União Social-Cristã (CSU), Markus Söder, defendem reavaliar o abandono da tecnologia, o que expõe divisões dentro da coalizão de governo.

O Ministério da Economia, controlado pela União Democrata-Cristã (CDU), reconhece que o acordo de coalizão não prevê reabertura do setor, mas argumenta que a Alemanha não deve descartar os SMR como opção futura.

Os especialistas do Meio Ambiente, porém, sustentam que nem mesmo os custos projetados justificam a aposta. O documento cita o projeto canadense de Darlington, em Ontário, que prevê quatro reatores modulares a um custo total de 13,3 bilhões de euros.

Com potência reduzida, o preço por megawatt instalado supera o das grandes usinas tradicionais, e os supostos ganhos de modularidade ainda não foram comprovados empiricamente. Estudos independentes reforçam essa conclusão.

Pesquisadores da Universidade Técnica de Berlim e do Instituto Alemão de Pesquisa Econômica estimaram que a energia gerada por SMR custaria entre 18 e 50 centavos de euro por quilowatt-hora, enquanto a eólica varia de 4 a 9 centavos. Além disso, análises do órgão federal responsável pela segurança do descarte nuclear indicam que os mini-reatores poderiam produzir mais resíduos radioativos por unidade de energia do que os modelos convencionais.

O parecer do ministério conclui que a tecnologia não deverá atingir viabilidade comercial nem merece apoio público neste momento. Para os técnicos, insistir nessa rota significaria apostar em uma solução cara e tardia, desviando o foco da transição energética baseada em fontes renováveis e sustentáveis.


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