Ruínas de 2.400 anos emergem na Turquia após rompimento de barragem

Ilustração editorial sobre Ruínas de 2.400 anos emergem na Turquia após rompimento de barragem. (Ilustração: Cafezinho / Flux Pro)

O rompimento parcial de uma comporta na barragem de Dicle, no sudeste da Turquia, baixou o nível da água em cerca de 10 metros e revelou ruínas submersas há mais de duas décadas. As estruturas, com aproximadamente 2.400 anos, foram identificadas no distrito de Eğil, província de Diyarbakır, e incluem túmulos escavados na rocha, uma mesquita, uma madrasa e vestígios de antigas habitações.

As fortes chuvas que antecederam o incidente descarregaram cerca de 270 milhões de metros cúbicos de água, forçando a abertura de comportas e expondo o que restava da antiga localidade de Çarıkören, inundada em 1997. Segundo a agência turca Anadolu, o professor İrfan Yıldız, da Universidade de Dicle, afirmou que as construções mantiveram surpreendente integridade, mesmo após décadas submersas.

Mergulhadores da Gendarmaria registraram imagens do local durante exercícios de treinamento. As gravações mostram 78 casas, uma mesquita e um banho público ainda reconhecíveis sob a superfície. O ex-morador Abdurrahman Kılıç contou à imprensa que o povoado era conhecido pela convivência entre diferentes tradições religiosas e pela presença de um santuário dedicado ao profeta Elyesa, cuja tumba foi transferida antes da inundação.

A construção da barragem começou em 1986 e foi concluída onze anos depois, transformando o curso do rio Tigre em um dos maiores reservatórios artificiais do país. O projeto, pensado para irrigação e geração de energia, acabou soterrando povoados e fragmentos de civilizações antigas — entre elas assírios, romanos, bizantinos, seljúcidas e otomanos. Hoje, o lago cobre mais de 24 mil hectares e continua essencial para o abastecimento e a agricultura locais.

De acordo com o portal Postal, as ruínas ficaram conhecidas como a “Nova Atlântida”, símbolo da tensão entre progresso e memória. O apelido reflete tanto o fascínio público por cidades perdidas quanto a crítica ao impacto ambiental e cultural das grandes obras hidráulicas. A redescoberta reacende o debate sobre a necessidade de mapeamento arqueológico prévio em áreas sujeitas a alagamentos planejados.

O professor Yıldız defende que o sítio seja incluído em programas de arqueologia subaquática para documentar as estruturas e proteger o patrimônio ainda preservado. Ele alerta que, sempre que o nível da água desce, o material fica vulnerável à erosão e à movimentação de sedimentos, o que acelera a degradação. A região, segundo ele, é um verdadeiro mosaico histórico que testemunha a passagem de impérios e culturas ao longo de milênios.

O distrito de Eğil, a cerca de 50 quilômetros de Diyarbakır, é reconhecido como uma das zonas de povoamento mais antigas da Turquia. Além das ruínas submersas, há registros de um castelo, grutas e túmulos reais atribuídos a antigos reis assírios. Documentos municipais mencionam também vestígios urartianos, medos, persas e romanos, compondo um dos mais ricos palimpsestos arqueológicos da Anatólia.

O caso reforça a importância de políticas públicas que conciliem desenvolvimento energético e preservação histórica, um desafio recorrente em países com vasto patrimônio cultural. A Turquia, que abriga mais de 13 mil sítios arqueológicos catalogados, enfrenta o dilema de proteger esse legado enquanto amplia sua infraestrutura hídrica e energética. A experiência de Eğil serve de alerta para outras nações que apostam em megabarragens sem mapear o que pode ser perdido sob as águas.

A reemergência da “Nova Atlântida” turca é um lembrete de que o passado, mesmo submerso, encontra formas de voltar à superfície. Entre pedras, sedimentos e memórias, ele força o presente a encarar a pergunta essencial: quanto da nossa história estamos dispostos a afogar em nome do progresso?


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