Crise de crédito ou crédito é motivo de crise?

Não há negócio de empréstimo e financiamento que sobreviva a longo prazo com este nível escorchante de taxa de juros / Agência Brasil

Se a infraestrutura condiciona a estrutura; se a economia condiciona a política;o inverso também é verdadeiro, porque o fenômeno é dialético…

Por Rodrigo Botelho Campos 

No contexto histórico da polarização política/ideológica não dá para subestimar o papel da narrativa da história, de sonhos e perspectivas de futuro. Neste particular, o ideário da ampliação da sociedade de consumo de massas, da sociedade de “classe média”, que o PT defende historicamente esbarra nos limites reais dos orçamentos familiares e pessoais. Atualmente as pessoas não estão dando conta de pagar suas dívidas do dia a dia.

Olhe dentro de casa, na família, ao seu redor…está insuportável com este patamar de juros. O país tem uma inflação anual ao redor de 5% e o cartão de crédito correção anual na casa dos 400/500%.

Há que ter uma mudança cultural na economia, no rentismo, porque não há negócio de empréstimo e financiamento que sobreviva a longo prazo com este nível escorchante de taxa de juros no crediário.

Quando que os bancos e financeiras vão deixar de ganhar na taxa e passar a ganhar no volume? Pois até agiota informal cobra menos.

O volume de crédito ao consumidor no Brasil, como bem dito numa matéria jornalística acima, é menor que na maioria dos países.

Se a taxa de juros do crédito cai, a tendência do tomador de crédito é ser mais adimplente. As pessoas sabem o custo do não pagar. O consumidor deve porque tem necessidades materiais e imateriais, seduzidos pelo marketing que cria moda, status, necessidades e frivolidades 24h por dia. Invade a vida de todos pela tela do celular…

Quando a curva histórica da SELIC inflexiona para baixo as taxas de juros aos consumidores acompanham? Acompanham. E daí? Caí de 400% ao ano para 300% ao ano, o que continua sendo um escárnio.

O capitalismo precisa do crédito; o crédito é um negócio em si; os bancos públicos agem da mesma forma que os bancos privados; ou seja, é um sistema financeiro e como tal, se não houver uma mudança cultural estrutural e sistêmica no modo de lidar com o crédito ao consumidor, não há cidadão que dê conta de pagar suas dívidas a não ser com o sacrifício de patrimônio que é para ser de seus herdeiros; diminuição de consumo que gera queda da taxa de crescimento da economia e desemprego; para não falar no limite tétrico disto: o suicidio físico com dívidas estorvando corações e mentes.

Quanto da rentabilidade dos bancos se dá pelo contributo da rentabilidade do crédito ao consumidor em suas modalidades limite de cheque especial e cartão de crédito? Quanto da rentabilidade dos bancos se dá pelo ganho na cobrança de tarifas?

Os liberais só falam de cortar gasto público. Não me venham com o argumento de ajuste fiscal, pois há geração de superávit primário no Brasil.

Estamos andando no fio da navalha: de um lado temos um pouco de superávit primário; de outro uma SELIC que agrada os rentistas; mas qual o outro lado da história? Quem está pagando o preço desta articulação tácita? O tomador de crédito final, o consumidor, que somos 100% da população. Uns mais, outros menos, nestes incluídos os do “andar de cima”, que não usam crédito ao consumidor!

É preciso lembrar que diversos países já tiveram “lei de usura”, pois a ganância dos que emprestam não tem limite. É preciso mais do que mudanças econômicas, é preciso uma revolução cultural, um freio de arrumação no mercado do crédito, pois como está é insustentável.

Vamos adiante, lutando!

Rodrigo Botelho Campos é economista*

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