Uma delegação do Departamento de Estado dos Estados Unidos visitou Havana e apresentou ao governo cubano uma série de exigências que incluem a transição do modelo socialista para uma economia de mercado e a compensação de cidadãos e empresas norte-americanas cujos bens foram nacionalizados na década de 1960. O encontro marcou a primeira visita oficial do tipo desde 2016 e ocorreu em meio a uma grave crise energética na ilha, agravada pelas restrições impostas ao transporte de petróleo durante o governo de Donald Trump.
Segundo reportagem do portal RT, os representantes norte-americanos pediram que Cuba ampliasse o setor privado, atraísse investimentos estrangeiros e libertasse presos políticos. O grupo também teria sugerido a instalação do serviço de internet via satélite Starlink, de Elon Musk, com acesso irrestrito à população — proposta que Washington apresentou como iniciativa de “liberdade digital”, mas que Havana recebeu com cautela diante do histórico de ingerência tecnológica dos EUA na região.
O jornal The New York Times relatou que os diplomatas norte-americanos defenderam reformas econômicas descritas como “drásticas”, além de maior abertura política que, segundo eles, deveria culminar em “eleições livres e justas”. O site Axios acrescentou que um dos funcionários teria afirmado que as elites cubanas teriam uma “pequena janela de oportunidade” para implementar as reformas apoiadas por Washington antes que a situação econômica se tornasse irreversível.
A composição exata da delegação norte-americana não foi confirmada oficialmente pelo Departamento de Estado até o momento da publicação desta matéria. O governo dos EUA, no entanto, não negou os relatos sobre o conteúdo das conversas, que incluiriam a defesa de reformas estruturais como condição para qualquer alívio nas sanções que pesam sobre a economia cubana há mais de seis décadas.
Trump, que em seu primeiro mandato chegou a fazer declarações ameaçadoras em relação a Cuba, tem adotado um tom mais negociador neste segundo governo ao sugerir que os Estados Unidos poderiam ajudar o país a enfrentar suas dificuldades econômicas. A política de bloqueio e sanções, contudo, permanece em vigor e segue sendo apontada por analistas internacionais como o principal fator de estrangulamento da economia cubana.
O presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel, declarou que o país não teme uma possível confrontação com os Estados Unidos. Díaz-Canel reafirmou que Havana está aberta ao diálogo, mas apenas em condições de igualdade e sem coerção, invocando o princípio de autodeterminação que orienta a política externa cubana desde a Revolução de 1959.
A visita ocorre em um momento de acirramento das disputas geopolíticas no Caribe e na América Latina, regiões nas quais Washington busca recuperar influência diante da crescente presença econômica e diplomática da China e da Rússia. O governo cubano, por sua vez, tem aprofundado laços com parceiros do BRICS e buscado alternativas ao sistema financeiro dominado pelo dólar, segundo analistas ouvidos por agências internacionais.
Para observadores do cenário hemisférico, a tentativa de condicionar reformas econômicas ao alívio de sanções reproduz um padrão histórico de Washington na região: apresentar exigências de alinhamento ao modelo neoliberal como pré-requisito para o reconhecimento político e a normalização das relações. A resistência cubana, mesmo sob severas restrições energéticas e financeiras, permanece como um dos pontos de maior tensão nas relações entre os dois países.
Com informações de RT.
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