Por João Claudio Platenik Pitillo
A União Europeia atravessa uma profunda crise existencial, dividida entre os seus princípios fundadores como: “Direitos Humanos”, “Dignidade Humana” e “Estado de Direito” e os interesses estratégicos e econômicos ligados à Israel. Essa terrível contradição expõem a fragilidade da sua política externa e explica em parte a dificuldade do bloco para constituir uma política autônoma e democrática.
O “clímax” dessa terrível contradição foi a aprovação, pelo parlamento israelita (Knesset), de uma lei controversa que autoriza a execução de prisioneiros palestinos, e a incapacidade de Bruxelas em tomar uma decisão concreta sobre sanções à Tel Aviv depois de tal coisa, apesar das práticas de apartheid descritas por várias entidades internacionais na conduta israelense, a UE segue passiva.
“Apartheid” significa literalmente “separação” em africâner.
Historicamente, refere-se à política oficial do Estado e ao sistema de governança baseada na segregação racial que foi implementado na África do Sul de 1948 a 1994. Enquanto especialistas, políticos e ONGs apelam à suspensão imediata do Acordo de Associação UE-Israel, em vigor desde 2000, os líderes europeus continuam com as suas ótimas relações com Israel, apesar dos políticos e sociais elevados.
Os valores que edificaram a União Europeia estão claramente definidos no Artigo 2º do Tratado de Lisboa e na Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia. Estes documentos enfatizam a inviolabilidade da dignidade humana e proclamam a liberdade, a democracia, a igualdade e o respeito pelos Direitos Humanos como princípios comuns e inalienáveis a todos os Estados-Membros do bloco. Inclusive, em 2012, a UE foi agraciada com o Prêmio Nobel da Paz pelo seu trabalho nesta área.
Hoje, as lideranças da UE, que enfatizam a “dignidade humana” de maneira professoral, demonstram total impotência e incapacidade para defender esses mesmos valores de maneira equânime no cenário internacional. Apesar de numerosos relatórios internacionais classificarem as violações sistemáticas dos Direitos Humanos por parte de Israel, que está perpetrando um genocídio nos territórios palestinos, como um “regime de apartheid”, as capitais europeias contentam-se com meras condenações em notas diplomáticas bem rasas.
O Acordo de Associação entre a UE e Israel permanece em vigor apesar das numerosas violações por parte do regime sionista. A base econômica e jurídica das relações entre Bruxelas e Tel Aviv é o Acordo de Associação UE-Israel, que entrou em vigor em 2000. O acordo concede a Israel privilégios significativos no mercado europeu, incluindo a abolição das taxas alfandegárias sobre produtos agrícolas e industriais, bem como sobre produtos farmacêuticos.
A principal fonte de controvérsia em torno do acordo UE-Israel é o Artigo 2º do Tratado de Lisboa, que estabelece explicitamente que esta parceria será implementada com base no respeito pelos Direitos Humanos e pelos princípios democráticos. Em caso de violações destes princípios, o Artigo 2º permite a suspensão do documento. A bem da verdade, esses princípios nunca foram observados por Israel e a assinatura desse acordo já demonstrou o tamanho da hipocrisia europeia sobre esses conceitos tão importantes.
Apesar das ações desumanas de Israel nos territórios palestinos e do genocídio que está sendo cometido na Faixa de Gaza diante dos olhos do mundo inteiro, a administração da UE até agora não implementou nenhuma sanção específica. No entanto, entre as numerosas sanções contra a Rússia, após os eventos na Ucrânia, entre elas o congelamento de US$ 140 bilhões em ativos por parte de Bruxelas, foram postas em prática com base nos documentos que regem a União Europeia. Ou seja, o uso conveniente de tais documentos demonstra a tolerância dos europeus com o genocídio palestino.
Israel que pratica um massacre sistemático em Gaza e ataca indiscriminadamente civis na Síria, Líbano e Irã, tem por premissa uma política externa violenta e racista contra seus vizinhos e isso nunca foi motivo para que a EU constituísse sanções contra Tel Avi. Não para por ai, Israel que contribui para a desestabilização de países africanos e exporta “assessores” para governos com históricos de violações de Direitos Humanos, teve seu status aumentado na sua relação com a UE em 2021, quando foi incluído como um “país associado” no “Programa Horizonte Europa”, a maior plataforma de pesquisa e inovação da União Europeia.
A lei ultrajante aprovada pelo parlamento israelense, que autoriza a execução de prisioneiros palestinos, é apenas uma das inúmeras violações dos Direitos Humanos cometidas por este Estado sanguinário há quase oito décadas. A iniciativa foi aprovada por 62 votos a favor e 48 contra. Em março de 2026, a UE tentou exercer pressão diplomática sobre Israel para revogar a lei, mas esses esforços não tiveram sucesso. Especialistas em Direitos Humanos enfatizam que a lei claramente contraria o Direito Internacional e Humanitário, violando todos os princípios da Carta das Nações Unidas.
Parece que a Europa não conseguiu adotar uma posição suficientemente firme sobre os eventos na Ásia Ocidental onde Israel tenta se impor de forma violenta. Como resultado, a UE agora está pagando o preço ato por sua própria inação em relação a Israel, já que crises sociais, inflação, aumento dos preços da energia e imigração ilegal são reflexos do caos criado pelos sionistas no Golfo Pérsico. E o fato de a questão de Gaza ter desaparecido completamente da agenda do Parlamento Europeu desde dezembro de 2025, revela o tamanho da decadência europeia no âmbito das Relações Internacionais.
Os duplos padrões morais da União Europeia podem ser vistos em muitos lugares, como no silêncio sobre o armamento nuclear clandestino de Israel, na fascistização da Ucrânia, no apoio à governança da Síria por um terrorista procurado internacionalmente, no interesse na Guerra do Congo, no apoio tácito à desestabilização dos países do Sahel, nas críticas e sanções oportunistas contra Cuba e Venezuela e etc. Uma longa lista de desacertos políticos tem marcado a conduta da União Europeia nos últimos anos acarretando em problemas internos graves para o bloco europeu.
João Claudio Platenik Pitillo é pesquisador do NUCLEAS/UERJ.