ONU alerta que mineração de lítio e cobalto repete injustiças da era do petróleo

Ilustração editorial sobre ONU alerta que mineração de lítio e cobalto repete injustiças da era do petróleo. (Ilustração: Cafezinho / Flux Pro)

Um novo relatório do Instituto das Nações Unidas para Água, Meio Ambiente e Saúde (UNU-INWEH) alerta que a corrida global por minerais críticos, como lítio e cobalto, está reproduzindo as mesmas desigualdades e danos ambientais que marcaram a exploração do petróleo no século XX.

O estudo mostra que os custos humanos e ecológicos da transição energética recaem de forma desproporcional sobre comunidades pobres e indígenas, enquanto os benefícios se concentram em países ricos e corporações tecnológicas.

O diretor do UNU-INWEH, Kaveh Madani, afirmou que não se pode chamar de verde ou justa uma transição que apenas transfere os impactos ambientais dos ricos para os pobres. Ele destacou que a mineração de minerais essenciais para baterias, painéis solares e sistemas de inteligência artificial consome volumes colossais de água e gera resíduos tóxicos em escala planetária, agravando crises de saúde e escassez hídrica em regiões vulneráveis.

O relatório, intitulado “Critical Minerals, Water Insecurity and Injustice” e detalhado pelo portal Phys.org, revela que a produção global de lítio em 2024, estimada em 240 mil toneladas, consumiu cerca de 456 bilhões de litros de água. Esse volume equivale às necessidades domésticas anuais de 62 milhões de pessoas na África Subsaariana.

No deserto chileno do Salar de Atacama, a extração de lítio responde por até 65% do uso regional de água, provocando o rebaixamento de aquíferos em até nove metros entre 1990 e 2015. Em regiões como Uyuni, na Bolívia, comunidades relatam dificuldades crescentes para cultivar quinoa, base de sua economia e alimentação.

Globalmente, 16% das reservas de minerais críticos estão em áreas de alto estresse hídrico, e 54% dos projetos de energia limpa incidem sobre territórios indígenas. Para cada tonelada de terras raras extraída, são geradas duas mil toneladas de resíduos tóxicos, o que resultou em 707 milhões de toneladas de rejeitos em 2024.

O estudo adverte que a busca por descarbonização pode criar uma nova forma de colonialismo ambiental, caso não haja mecanismos de controle e redistribuição justa dos benefícios. Madani, que recebeu o Prêmio da Água de Estocolmo em 2026, afirmou que as metas climáticas não podem ser alcançadas à custa da saúde e da dignidade de comunidades que pouco contribuíram para a crise climática.

Na República Democrática do Congo, responsável por mais de 60% da produção mundial de cobalto, 72% dos moradores próximos a minas relataram doenças de pele, e mais da metade das mulheres e meninas apresentaram problemas ginecológicos. O estudo também documenta taxas elevadas de malformações congênitas e a presença de metais pesados no sangue de recém-nascidos, além do uso de trabalho infantil em cerca de 30% dos locais de extração.

O cientista Abraham Nunbogu, principal autor do relatório, afirmou que a transição energética corre o risco de repetir as injustiças da economia fóssil. Ele ressaltou que, sem governança global e transparência nos dados de uso de água e poluição, o mundo pode construir uma economia limpa sustentada por sacrifícios invisíveis.

O relatório também cita impactos em países do Norte Global, como o projeto Thacker Pass, em Nevada, que desviará até 3,5 bilhões de litros de água por ano de comunidades agrícolas. No Canadá, o desastre da mina Mount Polley, em 2014, liberou 25 milhões de metros cúbicos de rejeitos tóxicos, contaminando rios e terras indígenas — casos que demonstram que a injustiça ambiental é um problema estrutural de toda a cadeia mineral.

Entre as recomendações, o documento propõe padrões internacionais obrigatórios de diligência e transparência, controle rigoroso de poluição e investimento em tecnologias de extração com baixo consumo de água, como a extração direta de lítio (DLE). Também defende acordos legais de repartição de benefícios e o respeito ao consentimento livre, prévio e informado das comunidades afetadas.

O relatório conclui que a demanda por minerais críticos triplicou entre 2010 e 2023 e pode quadruplicar até 2050, com o lítio, o cobalto e o grafite crescendo até 500% em relação aos níveis de 2020. Sem uma mudança profunda na governança global, a transição energética corre o risco de perpetuar o mesmo modelo extrativista e desigual que definiu a era do petróleo.


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