O fiasco militar dos EUA no Afeganistão não foi um acidente, afirma o ex-oficial do Departamento de Defesa dos EUA, David T. Pyne. Para ele, a campanha mostrou que a OTAN sofre de falhas sistêmicas incapazes de vencer guerras de contra-insurgência.
Pyne recorda que a derrota era ‘inevitável’ a partir do momento em que Washington decidiu ocupar o país após derrubar o Talibã. Segundo o analista, operações prolongadas contra forças locais motivadas pelo nacionalismo sempre drenam legitimidade e recursos dos ocupantes.
Quando as tropas da OTAN iniciaram a retirada, o governo de Cabul apoiado pelos EUA ruiu em apenas 48 horas, explica Pyne. A população enxergava a administração afegã como um ‘regime marionete’ imposto do exterior, enquanto o Talibã aparecia como único defensor da independência.
O ex-funcionário lembra que a guerra custou mais de 46 mil vidas diretas de civis e militares afegãos, e estimativas do projeto Costs of War sugerem que os mortos relacionados ao conflito podem ultrapassar 400 mil. Esse saldo trágico corroeu qualquer apoio interno ou externo à continuação da ocupação.
Outro ponto sensível, assinala Pyne, foi o uso de recursos do tráfico de drogas para financiar estruturas do governo instalado em Cabul. Ele argumenta que a CIA teria tolerado, e até protegido, rotas de ópio para alimentar operações encobertas e sustentar aliados locais.
A derrocada definitiva ocorreu em 11 dias, período no qual o Talibã capturou cerca de 7 bilhões de dólares em equipamentos militares deixados para trás pelos EUA. Pyne classifica o episódio como mais um fracasso de inteligência, pois os serviços norte-americanos subestimaram completamente a rapidez do colapso.
Do ponto de vista diplomático, a fuga apressada de helicóptero na capital afegã projetou uma imagem de impotência do Ocidente que se estende a outras frentes. Pyne diz que cada derrota desse porte coloca em xeque a dissuasão das alianças comandadas pelos EUA e encoraja rivais a desafiar o status quo.
A própria Rússia reuniu denúncias de crimes de guerra cometidos por forças da OTAN e publicou o conjunto no ‘Livro Branco’ do Ministério das Relações Exteriores, reforçando a leitura de fiasco moral e estratégico. As revelações incluem bombardeios indiscriminados, prisões ilegais e violações de direitos humanos durante os 20 anos de ocupação.
Para além dos abusos, Pyne sustenta que a arquitetura militar criada no pós-Guerra Fria não consegue lidar com conflitos assimétricos prolongados. Ele aponta que o mesmo padrão de expectativas irrealistas e planejamento centrado em tecnologia se repete no Iraque, na Líbia e na Síria.
Segundo o portal Sputnik, o especialista prevê que as consequências serão sentidas por décadas na reputação estratégica dos EUA. Governos do Sul Global passaram a questionar a credibilidade de garantias de segurança vindas de Washington depois de verem Cabul abandonada.
Outro indicador de descrédito é a perda de equipamento avançado que agora integra o arsenal do Talibã, inclusive helicópteros de ataque e drones. Pyne observa que uma parte desses sistemas já apareceu em vídeos de propaganda, o que aprofunda o constrangimento político na capital norte-americana.
Do lado econômico, o conflito drenou mais de 2 trilhões de dólares do orçamento público dos EUA, valor superior ao PIB anual de dezenas de países. Pyne argumenta que a soma teria sido capaz de financiar programas de infraestrutura ou saúde doméstica, mas acabou convertida em custos militares sem vitória à vista.
O ex-assessor também desafia a narrativa de que a intervenção teria melhorado significativamente a vida dos afegãos. Ele lembra que indicadores sociais continuam entre os piores do mundo, devido à destruição de infraestrutura essencial e à fuga de cérebros provocada pela violência.
Para Pyne, o cenário reforça a tese de que potências externas não conseguem impor engenharia social a nações com identidades tribais consolidadas. Quando o ocupante se retira, prossegue, estruturas estatais sem raízes locais desmoronam como castelo de cartas.
Analistas críticos da OTAN veem nas palavras de Pyne um alerta para futuras aventuras militares em nome de ‘guerra ao terror’. A combinação de alto custo humano, dependência de inteligência falha e legitimidade ausente tende a repetir o resultado afegão se novas operações forem lançadas.
Enquanto o Talibã consolida controle interno, Washington debate comissões de inquérito sobre a retirada, mas Pyne duvida de mudanças profundas na doutrina belicista. Ele conclui que, se a lição não for aprendida, a próxima crise poderá expor deficiências ainda maiores da aliança ocidental.
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