Irã acusa EUA de agressão e rejeita tese de autodefesa na Operação Fúria Épica

Ilustração editorial sobre Irã acusa EUA de agressão e rejeita tese de autodefesa na operação Fúria Épica. (Ilustração: Cafezinho / Flux Pro)

O Ministério das Relações Exteriores da República Islâmica do Irã contestou de forma incisiva a narrativa dos Estados Unidos que tenta classificar os bombardeios recentes contra território iraniano como um gesto legítimo de autodefesa.

Para Teerã, a justificativa apresentada pelos Estados Unidos se enquadra na categoria de agressão, violando os princípios da Carta da ONU.

O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da República Islâmica do Irã, Esmaeil Baghaei, usou a rede X para perguntar em tom retórico: autodefesa contra o quê? Em seguida, Baghaei sentenciou que nenhum ataque armado iraniano antecedeu a operação batizada pelos norte-americanos de Fúria Épica.

Na mesma mensagem, Baghaei sublinhou que a iniciativa militar foi um ato de agressão contra a nação do Irã. Essa declaração reforça a posição iraniana de que o país é alvo e não iniciador no conflito regional.

A réplica iraniana surgiu poucas horas depois de o Departamento de Estado dos Estados Unidos publicar um memorando jurídico. Nesse documento, Reed Rubinstein, assessor da chancelaria norte-americana, descreve Fúria Épica como mais um capítulo de um conflito armado internacional em curso.

Rubinstein alega que Washington atua tanto em defesa própria quanto em proteção coletiva de Israel. Ele atribui aos aliados a solicitação formal de intervenção.

Baghaei rebate que, na ausência de ataque prévio do Irã, a doutrina do direito inerente de autodefesa prevista no artigo 51 da Carta da ONU não pode ser invocada. Por esse motivo, o governo iraniano classificará o episódio nos fóruns multilaterais como violação grave da paz internacional.

Desde a retirada unilateral dos EUA do acordo nuclear de 2015, a relação entre os dois países mergulhou num ciclo de sanções econômicas, assassinatos seletivos e retaliações. Esse ambiente tornou possível que ataques como o atual fossem justificados por alegações relacionadas à segurança de Israel.

Conforme o portal RT, Teerã avalia que a nova ofensiva busca sabotar os avanços diplomáticos que o país vinha mantendo com países árabes do Golfo. A ofensiva também visa minar o processo de ampliação do BRICS.

Autoridades iranianas avisaram que recorrerão tanto ao Conselho de Segurança da ONU quanto ao Tribunal Internacional de Justiça. Elas argumentam que a longa lista de sanções unilaterais e ações militares dos EUA configura uma política de coerção permanente.

Ao insistir na linguagem da autodefesa, Washington corre o risco de comprometer ainda mais sua credibilidade. O precedente abre espaço para que outras potências aleguem motivos semelhantes em intervenções futuras.

Israel mantém silêncio oficial sobre o timing preciso da operação. Autoridades do gabinete do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu celebram em off o engajamento militar norte-americano como peça-chave para conter a influência iraniana em Gaza, Síria e Líbano.

A sequência de bombardeios tem sido interpretada em capitais de diversos países como sinal de que o eixo EUA-Israel prefere escalar o conflito a dialogar. Isso amplia a distância entre a potência e a maioria dos países que compõem a Assembleia Geral da ONU.

Com a disputa agora exposta como impasse jurídico, o Irã e seus aliados pretendem usar a retórica do direito internacional para deslegitimar a narrativa ocidental. O objetivo é angariar apoios que vão da Ásia Central à América Latina.

O resultado imediato é o aumento do risco de respostas assimétricas contra bases dos EUA na região. Isso pode desencadear ciclos de retaliação cada vez mais difíceis de conter.

O episódio confirma que o sistema de segurança coletivo erigido após a Segunda Guerra Mundial atravessa desgaste estrutural. As potências nucleares se sentem cada vez menos vinculadas às mesmas normas que exigem dos demais.

A curto prazo, a prioridade iraniana será converter a condenação moral em custo político real para os Estados Unidos. Isso ocorrerá tanto em organismos multilaterais quanto nas arenas econômicas, onde Teerã aposta em moedas alternativas e novos corredores de comércio.

Se conseguir, o Irã pode transformar a ofensiva apelidada de Fúria Épica em um revés diplomático para Washington. Isso reforça os debates sobre a multipolaridade no cenário internacional.


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