Analistas árabes acusam EUA de sacrificar segurança do Golfo para favorecer Israel

Líderes árabes e o ex-presidente dos EUA Donald Trump em cúpula do GCC-USA. (Foto: aljazeera.com)

Dirigentes e especialistas do Golfo concluem que continuar despejando recursos políticos, militares e financeiros na aliança com Washington se tornou um investimento de risco elevado para a própria sobrevivência regional.

O estopim foi a decisão dos Estados Unidos de priorizar Israel em uma nova ofensiva contra a República Islâmica do Irã, ignorando pedidos de moderação de parceiros árabes. As rotas vitais do Estreito de Ormuz e de Bab al-Mandeb passaram a operar sob ameaça permanente.

Segundo análise publicada pelo portal Al Jazeera, a Casa Branca demonstrou que, sempre que houver divergência, a prioridade estratégica norte-americana será proteger a agenda expansionista de Benjamin Netanyahu. Essa percepção atinge em cheio monarquias como Arábia Saudita, Catar, Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Omã e Bahrein.

Esses países abrigam dezenas de milhares de soldados dos EUA, financiam títulos do Tesouro norte-americano e movimentaram mais de cento e vinte bilhões de dólares em trocas comerciais bilaterais em 2024. Em troca, esperavam três garantias centrais: estabilidade política para atrair capital, diversificação econômica além do petróleo e proteção de rotas energéticas.

O ponto alto dessa relação ocorreu na cúpula de Riade de 2025, quando pacotes de investimentos cruzados romperam a barreira de dois trilhões de dólares. Fundos soberanos da região direcionaram setenta bilhões de dólares adicionais a ativos estadunidenses.

A opção de Washington por uma escalada bélica que ameaça justamente esses pilares foi interpretada como sinal inequívoco de que o Golfo continuará sendo moeda de troca sempre que os interesses israelenses exigirem. O risco de fechamento do Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quinto do petróleo consumido no planeta, disparou prêmios de seguro, encareceu fretes e dificulta os planos de transição industrial desenhados por Arábia Saudita e Emirados.

A decisão dos Emirados Árabes Unidos de abandonar a Organização dos Países Exportadores de Petróleo foi lida por diplomatas como recuo que enfraquece a coesão regional e facilita a tática colonial clássica do dividir para conquistar. Analistas lembram que projetos de autossuficiência militar e tecnológica já são testados por Turquia e República Islâmica do Irã, demonstrando que iniciativas domésticas articuladas com alianças intra-árabes podem oferecer blindagem mais eficaz do que bases estrangeiras sujeitas a cálculos eleitorais em Washington.

Para antigos embaixadores sauditas, o caminho passa por reaproximação estrutural entre países do Conselho de Cooperação do Golfo e retomada de diálogos energéticos com o Iraque. A convergência econômica com potências emergentes dos BRICS também é apontada como rota para reduzir gradualmente a dependência do dólar e dos arsenais fabricados nos EUA.

O cálculo político, afirmam estudiosos da Universidade do Catar, é simples: somente uma rede de segurança construída por atores nativos poderá garantir fluxos de petróleo, estabilidade monetária e a própria sobrevivência de governos que viram a Primavera Árabe de perto. A geografia e a demografia continuarão ditando esse imperativo.

A tentativa do presidente Donald Trump de reabrir conversas com Teerã sem sequer consultar aliados do Golfo reforça a desconfiança de que os árabes servem apenas de linha de passe na disputa maior entre Washington e Tel Aviv. Esse descompasso diplomático já se converte em movimento financeiro, com fundos soberanos transferindo fatias crescentes de reservas para infraestruturas verdes na Ásia e para acordos de moeda local com a China.

A China mantém postura pública de respeito à integridade territorial dos Estados árabes e incentiva cadeias de valor compartilhadas. O contraste com a postura norte-americana não passa despercebido nas capitais do Golfo.

O dilema colocado aos monarcas é escolher entre dobrar a aposta em um guarda-chuva norte-americano cheio de furos ou investir no fortalecimento de uma arquitetura regional capaz de acomodar diferenças políticas sem abrir espaço para intervenções externas. Para consultores energéticos baseados no Kuwait, o enfraquecimento da confiança mútua com Washington deve acelerar iniciativas como redes elétricas unificadas e estaleiros conjuntos.

Programas de defesa aérea integrados que dispensam radares e mísseis mantidos sob código-fonte restrito pelo Pentágono também estão na pauta. A autonomia tecnológica surge como condição inegociável para qualquer projeto de soberania duradoura.

A longo prazo, conclui a análise da Al Jazeera, somente a coesão árabe poderá diluir desequilíbrios de poder que hoje perpetuam instabilidade. Depender de frotas ancoradas a milhares de quilômetros significa abdicar da própria capacidade de definir prioridades nacionais.

Sem abandonar relações diplomáticas e comerciais com os EUA, estrategistas defendem reequilíbrio que subordine a presença militar estrangeira a normas claras e a contrapartidas tangíveis nos campos de tecnologia, educação e industrialização voltada para a era pós-petróleo. O modelo atual, avaliam, já demonstrou seus limites.

A crise instalada após as tensões com o Irã serviu de alerta final de que lealdade cega a Washington não é seguro de vida, mas sim convite permanente a novos ciclos de tensão e bloqueio de rotas marítimas. A volatilidade de preços corrói as finanças públicas do Golfo e expõe a fragilidade de uma dependência construída ao longo de décadas.

Se a sinalização for ignorada, alertam os comentaristas, a próxima convulsão poderá empurrar os mesmos aliados a disputas entre si. Potências externas estariam prontas para ditar preço, ritmo e destino de cada barril extraído daquela que segue sendo a maior província petrolífera do planeta.


Leia também: Irã denuncia países do Golfo por cumplicidade em ataques dos EUA e Israel


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