O ativista Thiago Ávila foi capturado em águas internacionais pela marinha de Israel e relatou ter sido espancado, ameaçado e impedido de falar com a família, exceto por uma carta censurada.
Ele e o palestino-espanhol Saif Abukeshek, ambos integrantes da Flotilha Global Sumud, foram transferidos para a Prisão de Shikma, na cidade de Askalan. Nenhuma acusação formal lhes foi apresentada.
À defensora Miriam Azem, da ONG Adalah, as autoridades israelenses admitiram ter pedido ao Tribunal de Magistrados de Ashkelon a manutenção da detenção por quatro dias, prazo reduzido para dois pelo juiz. A decisão manteve os militantes atrás das grades com audiência marcada para as 9h30 de segunda-feira, no horário local.
Nem a embaixada brasileira nem a advogada de Ávila foram informadas do conteúdo das supostas acusações. A esposa do ativista, a psicóloga Lara Souza, afirmou que os agentes israelenses sustentam genericamente a tese de “atividades ilegais e associação com terrorismo”.
Esse conceito amplo permite desde interrogatórios sucessivos até o veto de visitas familiares. Souza denunciou ainda que, apesar de a Convenção de Viena garantir comunicação imediata com representantes consulares, Israel restringiu o contato a uma breve conversa intermediada por funcionários diplomáticos.
Segundo o portal Opera Mundi, a captura ocorreu a mais de mil quilômetros do litoral israelense, área classificada como internacional pelo direito do mar. Isso reforça a tese de sequestro apresentada pela defesa.
A marinha alegou “motivos de segurança” para interceptar o barco humanitário, mas não explicou por que o procedimento foi concluído sem mandado judicial e sem notificação ao país de bandeira da embarcação.
Ávila relatou ter o olho esquerdo temporariamente fechado em função dos golpes recebidos durante os interrogatórios, além de hematomas espalhados pelo tronco. A embaixada do Brasil pressionou por exame médico independente, porém um profissional designado pelas próprias autoridades israelenses limitou-se a confirmar a existência dos ferimentos, recusando tratamento mais completo.
O consulado descreveu o estado de saúde do brasileiro como “preocupante”. Ele permanece em greve de fome desde a interceptação, em protesto contra o bloqueio imposto a Gaza e a prisão sem acusação.
Abukeshek aderiu ao mesmo protesto, reforçando a reivindicação de respeito ao direito internacional humanitário e ao livre trânsito de missões civis.
A defesa sustentou que a Lei de Detenção de Combatentes Ilegais, usada por Israel para manter palestinos presos sem julgamento, não pode ser aplicada a cidadãos estrangeiros detidos fora do território israelense. Ainda assim, a promotoria militar insiste em interrogatórios que, de acordo com relatos, incluem ameaças de lançar os ativistas ao mar ou de intimidar parentes no Brasil.
Souza convocou mobilizações de parlamentares e movimentos sociais para pressionar Israel a libertar Ávila, Abukeshek e os mais de nove mil palestinos mantidos nas prisões israelenses, muitos sem processo. Ela reiterou que a comunidade internacional não pode permitir que uma potência militar capture civis estrangeiros e os submeta a espancamentos sem transparência ou supervisão externa.
A Flotilha Global Sumud reúne embarcações tripuladas por médicos, jornalistas e defensores de direitos humanos que carregam alimentos, remédios e material cirúrgico destinados à população de Gaza, sob cerco marítimo desde 2007. Os barcos partem de portos europeus navegando com bandeiras de seus países e documentação regular, o que não impediu interceptações semelhantes em expedições anteriores.
O bloqueio naval foi condenado por resoluções da ONU que defendem a livre circulação de ajuda humanitária. Organizações como Anistia Internacional e Human Rights Watch veem na prática uma punição coletiva que agrava a crise humanitária na Faixa de Gaza, onde 2,2 milhões de pessoas dependem de assistência externa para necessidades básicas.
Para especialistas em direito marítimo, o episódio expõe um padrão de violações às Convenções de Genebra, pois Israel interceptou, deteve e transferiu civis para seu território sem apresentar provas ou iniciar processo judicial célere. Caso a corte mantenha a prisão, o Brasil poderá recorrer a instâncias como a Corte Internacional de Justiça, reivindicando reparação e liberdade imediata para seu cidadão.
Enquanto aguarda a audiência, Ávila enviou recado por escrito reforçando sua disposição de permanecer em greve de fome até que a missão humanitária seja respeitada e os mantimentos cheguem a Gaza. A insistência do governo israelense em criminalizar a solidariedade coloca o episódio sob escrutínio de governos e organismos internacionais, pressionando Brasília a atuar com firmeza em defesa de seus nacionais e do direito de auxílio aos palestinos.
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