Irã ameaça ação militar sem precedentes e petróleo dispara com risco de bloqueio em Ormuz

O presidente iraniano discursa em evento oficial. (Foto: © AFP PHOTO / PRÉSIDENCE IRANIENNE)

O preço do petróleo tipo Brent disparou cerca de 5% nas primeiras horas do pregão asiático, alcançando cotação próxima de 125 dólares o barril — patamar não registrado desde meados de 2022, quando a guerra na Ucrânia provocou o último grande choque de oferta global.

O movimento foi desencadeado pelo agravamento das tensões entre Washington e Teerã em torno de um possível bloqueio prolongado aos portos iranianos, levantando o espectro de uma interrupção no fluxo de 17 milhões de barris diários que atravessam o estreito de Ormuz.

O presidente da República Islâmica do Irã, Massoud Pezeshkian, reagiu com dureza às ameaças norte-americanas, declarando que qualquer cerco marítimo “é contrário ao direito internacional e está fadado ao fracasso”. Pezeshkian insistiu que medidas de estrangulamento não produzem segurança, mas sim instabilidade duradoura em toda a região.

Diplomatas iranianos foram além e ameaçaram uma “ação militar sem precedentes” caso navios com ligação ao país continuem sendo retidos, segundo cobertura da Radio France Internationale com base em despachos da agência AFP. A ameaça ampliou o receio de que a via marítima, por onde transita um quinto do petróleo consumido no planeta, se torne palco de confronto direto.

No front diplomático, o presidente dos EUA, Donald Trump, pediu às gigantes do setor energético que busquem amortecer o choque nos combustíveis para a população americana. Paralelamente, Trump telefonou ao presidente da Rússia, Vladimir Putin, que alertou para as “consequências danosas” de uma nova ação armada, ressaltando que os efeitos se estenderiam muito além das fronteiras iranianas.

Fontes citadas pelo portal Axios indicam que Trump deve receber um briefing detalhado sobre potenciais operações militares, incluindo a hipótese de uma eventual tomada do estreito de Ormuz com apoio de tropas em solo. Caso esse cenário avançasse, analistas projetam que o prêmio geopolítico da energia atingiria patamares imprevisíveis, com impacto imediato sobre toda a cadeia produtiva global.

Economistas alertam que cada elevação de 10 dólares sustentada no Brent pode subtrair até 0,3 ponto percentual do crescimento mundial. O efeito recai de forma desproporcional sobre países em desenvolvimento já pressionados pela valorização do dólar e por juros restritivos nos mercados centrais.

No Líbano, a aviação israelense manteve bombardeios contra posições do Hezbollah no sul do país mesmo com um cessar-fogo formalmente em vigor, cenário que reforça o risco de alastramento do conflito para todo o Levante. A combinação de frentes abertas — Irã, Líbano e o impasse nuclear — coloca a região diante de sua maior crise desde a guerra do Yom Kippur, em 1973.

Em Paris, o governo da França instou a petroleira TotalEnergies a manter o teto nos preços dos combustíveis enquanto durar a crise, citando o lucro elevado da companhia no primeiro trimestre do ano. A pressão política sobre as grandes empresas de energia se intensifica à medida que os governos europeus tentam blindar consumidores de um novo ciclo inflacionário puxado pelo petróleo.

Analistas observam que as medidas de asfixia financeira impostas por Washington tendem a empurrar Teerã ainda mais para a órbita dos BRICS, bloco que já discute alternativas ao dólar no comércio de energia. Esse movimento reforça a polarização crescente entre o eixo euro-atlântico e os países que buscam soberania monetária no mercado de commodities.

Diplomatas iranianos reiteraram que Teerã permanece aberta ao diálogo, mas condicionam qualquer avanço ao levantamento imediato das sanções e ao fim do bloqueio. O argumento encontra eco em nações asiáticas fortemente dependentes de petróleo barato para sustentar a recuperação econômica do pós-pandemia.

Sem sinal de recuo em Washington nem em Teerã, operadores de commodities ajustam carteiras à espera de novos desdobramentos, cientes de que qualquer escalada no Golfo pode travar o fluxo de energia que abastece metade do planeta. O impasse revela, uma vez mais, como a política de máxima pressão norte-americana produz instabilidade global em vez de capitulação dos adversários.


Leia também: Irã aprova plano para impor pedágios no Estreito de Ormuz


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