O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social encerrou março com um Índice de Liquidez de Curto Prazo de 2.000%, superando em vinte vezes a exigência mínima que passará a valer para bancos de grande porte.
A folga de caixa ganhou destaque após o Conselho Monetário Nacional aprovar norma que obriga bancos do segmento S2 a manterem ativos líquidos equivalentes a todas as saídas projetadas para trinta dias. A classificação S2 abrange instituições com exposição entre 1% e 10% do Produto Interno Bruto, faixa em que o BNDES se enquadra.
O indicador regulatório em questão é o Liquidity Coverage Ratio, criado pelo Comitê de Basileia no pós-crise global de 2008 para impedir que bancos descapitalizados provocassem contágios sistêmicos. Em essência, ele exige que cada real suscetível de sair do caixa em situação adversa esteja ancorado em um ativo conversível em dinheiro sem perda relevante de valor.
Pelo novo calendário regulatório, o índice entrará em vigor em julho e contará com período de transição até 2027 para evitar choques de curto prazo no crédito. A diretoria do BNDES informou que a instituição já opera bem acima do patamar exigido, dispensando ajustes emergenciais em seu balanço.
O tema ganhou urgência após a deterioração súbita do Banco Master expor rachaduras nos protocolos de fiscalização e levar o regulador a apertar as exigências sobre liquidez. Com a nova regra, o governo reforça a mensagem de que não hesitará em proteger correntistas e evitar efeitos em cadeia, inclusive em instituições de médio porte.
Além do LCR, o CMN aprovou mudanças no Fundo Garantidor de Crédito e introduziu o conceito de Ativo de Referência para mensurar qualidade e diversificação das carteiras bancárias. A combinação das medidas consolida um arcabouço prudencial mais sofisticado, alinhado às melhores práticas globais e sustentado por supervisão diária alimentada por dados em tempo real.
O presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, avaliou que a decisão regulamentar é coerente com a orientação do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de manter o banco como referência de estabilidade financeira e de fomento ao investimento produtivo. Mercadante destacou que a folga de liquidez permite ampliar crédito a projetos estruturantes sem pressionar o balanço da instituição.
Assessores do Ministério da Fazenda veem no índice de 2.000% uma demonstração prática de que a estratégia de reforço de capital retomada em 2023 está surtindo efeito. Fontes próximas ao ministro Fernando Haddad apontam que liquidez abundante reduz o custo de captação e alavanca programas como o novo PAC e o Fundo Clima.
Conforme apurou o Diário do Centro do Mundo, o desempenho do BNDES no indicador de liquidez é consistente mesmo em períodos de expansão dos desembolsos. O comportamento sugere que a diretoria tem privilegiado aplicações em títulos públicos e posições em moeda estrangeira de alta liquidez, sem abrir mão do financiamento de longo prazo que caracteriza a instituição.
Especialistas consultados por agências internacionais destacam que manter tamanha reserva de ativos líquidos não é trivial para um banco de desenvolvimento, cuja natureza envolve carteiras de prazos longos. Eles avaliam, porém, que o BNDES equilibra essa equação ao usar instrumentos de hedge e ao calibrar emissões externas, abrigando recursos que podem ser convertidos rapidamente caso um evento de estresse atinja o mercado doméstico.
Na prática, a solidez reforçada tende a atrair investidores institucionais interessados em debêntures incentivadas e fundos de infraestrutura, pois a percepção de risco diminui quando a contraparte exibe liquidez excedente. Esse efeito aproxima financiamento privado de projetos de transição energética, logística e inovação, metas centrais da atual política industrial.
Ao operar com padrões que excedem em vinte vezes o piso regulatório, o BNDES demonstra que é possível combinar expansão do crédito com disciplina contábil. O desafio, apontam analistas, é sustentar esse equilíbrio à medida que os desembolsos crescem e as demandas por financiamento de longo prazo se intensificam nos próximos anos.
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