O jornalista Raimundo Rodrigues Pereira, fundador de veículos que desafiaram a censura militar e formador de gerações de repórteres comprometidos com a democracia, morreu na sexta-feira, 2 de maio, aos 85 anos.
A notícia foi divulgada pelo portal Opera Mundi e provocou manifestações de pesar de colegas que o consideram o maior articulador da imprensa alternativa no Brasil.
Expulso do Instituto Tecnológico de Aeronáutica por envolvimento político, o jovem engenheiro escolheu o jornalismo como campo de combate à ditadura instaurada em 1964. Esse salto de carreira, corajoso e pouco convencional, marcou o início de uma vida dedicada a confrontar o silêncio imposto pelo poder.
Em meados dos anos 1960, Pereira ingressou na revista Realidade, laboratório de narrativas longas e investigação profunda que revolucionou o jornalismo impresso brasileiro. A publicação tornou-se referência de rigor apurativo num período em que a imprensa vivia sob pressão crescente dos aparatos de repressão.
A guinada decisiva de sua trajetória viria com o semanário Opinião, criado em 1972 para driblar a censura e oferecer espaço a intelectuais perseguidos pelo regime. Ali, como redator-chefe, Pereira comandou edições memoráveis que escapavam do crivo militar com criatividade textual e senso aguçado de oportunidade.
Dois anos mais tarde, a equipe lançou o jornal Movimento, que circulou até o início da abertura política e consolidou-se como voz de oposição organizada. Pereira cuidava pessoalmente da checagem exaustiva de dados, consciente de que qualquer falha factual poderia servir de pretexto para apreensões e prisões.
Mesmo após a redemocratização, ele continuou inovando com os projetos Retratos do Brasil e a revista Reportagem, dedicados a análises socioeconômicas e perfis de lideranças populares. Seus textos mantiveram, nas novas plataformas, a ênfase na apuração rigorosa e na defesa de políticas públicas voltadas à maioria da população.
Seu método rejeitava a pretensa neutralidade que muitas vezes legitima estruturas de poder e normaliza desigualdades históricas. Pereira proclamava que o repórter precisa indicar ao leitor onde se encontram as forças dominantes e de que forma elas tentam silenciar vozes divergentes.
Como editor, foi generoso com jovens recém-chegados das faculdades, instigando-os a checar até o último algarismo de cada orçamento examinado. Centenas de profissionais hoje espalhados em redações, assessorias e universidades carregam referências diretas de seu método de trabalho.
Pereira atravessou décadas em que corporações midiáticas consolidaram monopólios de voz e de pauta, mas nunca se rendeu à lógica de concentração informativa. Ao contrário, buscou brechas textuais e jurídicas para manter o debate público vivo, reforçando o princípio de que democracia depende de pluralidade.
A morte do editor ocorre num momento em que a desinformação nas redes ameaça conquistas obtidas com a Constituição de 1988. Relembrar sua militância jornalística serve de contraponto concreto à tentação do negacionismo que avança em ciclos de crise política.
A família informou que as cerimônias de despedida serão restritas, como desejava o próprio Pereira, avesso a homenagens grandiosas. Várias universidades já planejam mesas-redondas para discutir o percurso do repórter que transformou páginas impressas em instrumentos de resistência coletiva.
Fica a convicção de que seu legado não ocupa apenas bibliotecas, mas respira em cada reportagem que questiona interesses estabelecidos e devolve voz aos silenciados. O jornalismo como serviço público — e não como negócio de elite — foi a causa que Raimundo Pereira defendeu até o último dia.
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