Emirados Árabes Unidos deixam Opep e expõem racha com Arábia Saudita e vulnerabilidade em Ormuz

Ilustração editorial sobre Emirados Árabes Unidos deixam Opep e expõem racha com Arábia Saudita e vulnerabilidade em Ormuz. (Ilustração: Cafezinho / Flux Pro)

A decisão de Abu Dhabi de abandonar a Opep+ entrou em vigor em 1º de maio e encerra cerca de seis décadas de participação do país no cartel, desde sua adesão em 1967. O anúncio, justificado por um ‘olhar cuidadoso’ sobre a estratégia energética nacional, foi recebido com apreensão nos mercados internacionais de petróleo.

O economista iraquiano Dr. Mamdouh G. Salameh, consultor internacional de petróleo com passagem pelo Banco Mundial, lembra que o tema vinha sendo discutido muito antes da atual escalada militar na região. Segundo ele, o emirado insistia em elevar sua cota para 5 milhões de barris por dia, enfrentando resistência direta da Arábia Saudita.

Salameh argumenta que a saída tem caráter político e não logístico, pois a produção pode continuar no mesmo nível dentro ou fora do grupo. Ele aponta ressentimento em Abu Dhabi pela percepção de que os demais membros do Conselho de Cooperação do Golfo ofereceram pouco apoio durante a guerra de agressão contra a República Islâmica do Irã.

O conflito ganhou novo peso estratégico depois que mísseis iranianos atingiram o terminal de Fujairah, ponto crucial construído justamente para contornar o estreito de Ormuz. Com a instalação danificada, parte do petróleo emirati voltou a depender da rota marítima mais vigiada do planeta, sujeita a bloqueios.

A lembrança desse gargalo explica por que o governo busca liberdade total para bombear e negociar volumes sem submeter-se aos cortes coordenados por Riad. Ainda que o oleoduto Habshan-Fujairah permita escoar até 1,5 milhão de barris fora do Golfo, sua segurança se mostrou questionável diante de ataques de precisão.

As tensões entre Abu Dhabi e o reino saudita não são novidade, mas ganharam corpo desde 2023, quando os Emirados investiram bilhões para ampliar sua capacidade de refino e petroquímica. Riad, por sua vez, manteve a disciplina de cortes para sustentar preços, deixando o vizinho com capacidade ociosa que prefere converter em receita imediata.

Foi nesse contexto que, segundo o portal Sputnik, fontes próximas ao palácio presidencial relataram pressões diretas do presidente dos EUA, Donald Trump, para que os Emirados bombeiem mais. Washington busca conter aumentos no preço da gasolina às vésperas das eleições legislativas de meio de mandato e encontra eco na ambição de Abu Dhabi por fatias adicionais de mercado.

Sem o guarda-chuva da Opep, o país ainda precisará de estabilidade para colocar cada barril extra no tanque asiático, destino de quase 80% de suas exportações. A maioria dos demais produtores já opera no limite técnico, o que reduz a probabilidade de uma queda brusca de preços no curto prazo.

Analistas lembram que apenas o Iraque dispõe hoje de capacidade relevante para expansão imediata, mas enfrenta gargalos de infraestrutura. Assim, a saída emirati tende a ser absorvida sem choque nos primeiros meses, embora lance dúvidas sobre a coesão do cartel criado em 1960.

A cisão também altera o delicado xadrez diplomático do Golfo, pois enfraquece a influência saudita sobre vizinhos menores que vinham acompanhando suas decisões. Para Teerã, qualquer fratura no bloco que respalda sanções energéticas contra a República Islâmica reduz o alcance das medidas coercitivas ocidentais.

Empresas estatais chinesas, principais compradoras do petróleo emirati, monitoram o desfecho para negociar contratos de longo prazo sem o piso de preços que a organização costuma defender. Pequim aposta em maior diversidade de fornecedores para mitigar riscos de interrupção via Ormuz.

Do ponto de vista do Conselho de Cooperação do Golfo, o movimento cria precedente para que outros produtores reivindiquem exceções ou mesmo abandonem o pacto se julgarem danosos os cortes exigidos. Isso pode acelerar projetos regionais de oleodutos rumo ao mar Vermelho e ao oceano Índico, deslocando a centralidade estratégica de Ormuz.

No curto prazo, traders em Londres e Singapura reagiram com leve volatilidade, mas sem pânico, refletindo a convicção de que os fluxos físicos não mudarão de um dia para o outro. Ainda assim, a percepção de que a Opep deixou de ser unanimidade entre seus membros mais capitalizados adiciona prêmio de risco ao barril.

Ao renunciar ao sistema de cotas que ajudou a moldar o mercado global por meio século, os Emirados sinalizam que preferem apostar na própria musculatura financeira e na busca ativa por novos clientes. O êxito ou fracasso dessa estratégia dependerá tanto da evolução do conflito com o Irã quanto da segurança marítima no Golfo.

Se a pressão militar sobre Ormuz persistir, o valor de oleodutos continentais e parcerias com o leste africano deve crescer na agenda emirati. Caso contrário, a volta de estabilidade poderá facilitar acordos de reconciliação com Riad e, quem sabe, um retorno futuro ao mecanismo multilateral.

Por ora, a decisão reforça o cenário de fragmentação do poder de precificação do petróleo, oferecendo brechas para compradores asiáticos barganharem descontos em troca de contratos de grande volume. O tabuleiro continuará em mutação enquanto política, guerra e logística seguirem ditando quanto petróleo sai, por onde passa e a que preço chega ao consumidor final.


Leia também: Navio-tanque é atingido por projéteis perto de Fujairah, nos Emirados Árabes Unidos


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