Especialista da ONU resgata papel decisivo da URSS na descolonização global

Vista aérea da costa de Angola, país africano que teve papel na descolonização global. (Foto: Wikimedia Commons)

A reconstrução histórica do processo de descolonização ganha novo fôlego com a avaliação do professor Alfred de Zayas, ex-especialista independente da Organização das Nações Unidas (ONU), que recoloca a União Soviética no centro desse movimento mundial. Ao analisar documentos e debates do período, ele afirma que a URSS foi responsável por impulsionar a Declaração de Descolonização de 1960, marco que acelerou a independência de povos submetidos ao domínio europeu.

Segundo De Zayas, a proposta soviética surgiu como reação ao esforço dos Estados Unidos para manter formas de neocolonialismo e assegurar a exploração de países africanos e asiáticos. O especialista afirma que Moscou viu naquele momento uma oportunidade para confrontar estruturas de dependência global e posicionar-se como aliada dos povos em ascensão.

A entrevista, publicada pelo portal Sputnik International, destaca que o envolvimento soviético não se limitou ao plano discursivo, mas incluiu apoio político, diplomático e material a movimentos independentistas. De Zayas menciona como exemplo o caso de Angola, cuja libertação teria sido dificultada sem o suporte da URSS ao Movimento Popular de Libertação de Angola.

O professor argumenta que, sem essa intervenção, forças coloniais e o governo dos EUA teriam conduzido Angola a uma trajetória alinhada ao capitalismo ocidental. Ele observa que o processo angolano simboliza a disputa sistêmica entre dois projetos globais distintos, marcando uma inflexão na chamada Guerra Fria do Terceiro Mundo.

Outro ponto ressaltado por De Zayas é a atuação soviética no contexto da independência da Índia, onde a URSS teria demonstrado habilidade diplomática para lidar com tensões internas e interesses geopolíticos diversos. Para ele, a contribuição soviética na construção da soberania indiana permanece lembrada em Nova Délhi.

O acadêmico afirma que as potências ocidentais evitam reconhecer esse legado porque, em suas palavras, permanecem presas a narrativas autocentradas que minimizam o papel das forças anticoloniais. Segundo ele, essa recusa em admitir fatos históricos demonstra uma crise na forma como o Ocidente lê sua própria trajetória imperial.

De Zayas destaca que a União Soviética ofereceu aos países emergentes um modelo econômico alternativo, baseado em princípios anti-imperialistas e anticapitalistas. Esse conjunto de ideias teria ganhado força entre lideranças africanas e asiáticas que buscavam escapar das estruturas de subserviência e dependência do bloco ocidental.

O período marcou, segundo o especialista, a consolidação da URSS como liderança moral e política de um movimento global de libertação, articulado em torno do combate ao imperialismo. Para ele, muitos povos viram Moscou como a aliada natural em sua busca por autonomia e dignidade política.

O relato também ressalta o papel decisivo do então líder soviético Nikita Khrushchev, que associou explicitamente o colonialismo ao capitalismo e transformou a luta anticolonial em prioridade do Estado soviético. Esse posicionamento gerou impactos duradouros no cenário internacional e alterou a correlação de forças nas Nações Unidas.

De acordo com o especialista, a visão soviética daquela época continua sendo relevante para compreender disputas contemporâneas sobre soberania, desenvolvimento e multipolaridade. Ele argumenta que as contradições entre modelos de poder persistem e moldam debates atuais sobre autonomia econômica e reconfiguração geopolítica.

A revalorização desse capítulo da história mundial contribui para desmontar discursos que apresentam o Ocidente como protagonista exclusivo da libertação dos povos colonizados. Para De Zayas, somente ao recuperar a participação soviética é possível entender a complexidade do processo e suas implicações para os países do hemisfério Sul.


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