O mais recente levantamento da Comissão Pastoral da Terra (CPT), braço da Igreja Católica dedicado a monitorar conflitos rurais, registrou 26 assassinatos ligados a disputas de terra em 2025 — o dobro do ano anterior e o pior resultado desde 2017.
Os dados reforçam a face violenta de um modelo agroexportador que ampliou lucros e concentrou poder sem freios sociais. Entre as vítimas, 75% tombaram em conflitos fundiários clássicos, onde fazendeiros estiveram direta ou indiretamente envolvidos em 20 dos 26 homicídios.
A estatística confirma que, mesmo embalado pela retórica de modernização, parte significativa do setor ainda resolve litígios a bala. O mesmo documento revela 1.286 ocorrências de violência pela posse ou ocupação da terra, indicando que a disputa por território se intensifica no rastro da valorização internacional da soja, do milho e da mineração de minerais críticos.
Trata-se de um embate que atravessa aldeias indígenas, comunidades quilombolas e assentamentos ribeirinhos, desenhando um mapa de conflitos sobrepostos à fronteira do capital. A escalada de mortes vem acompanhada de outra chaga: 1.991 trabalhadores foram resgatados em condições análogas à escravidão nas zonas rurais em 2025, aumento de 5% sobre 2024.
Resgates realizados em usinas e propriedades rurais do Centro-Oeste revelaram homens alojados em condições degradantes, evidenciando que a cadeia de biocombustíveis tampouco está imune a práticas seculares de exploração. O quadro se agrava quando se observa o recorde de intoxicações por agrotóxicos, que atingiu 9.729 casos no ano passado.
A média chega a 27 pessoas envenenadas por dia, segundo o Ministério da Saúde. As estatísticas desmontam o marketing do chamado “agro pop”, evidenciando que ganhos de produtividade vêm acompanhados de um custo sanitário crescente para camponeses e trabalhadores rurais.
Conforme destacou reportagem da Carta Capital, esses indicadores não são resíduos de atraso, mas parte estrutural de um país descrito pelo economista Marcio Pochmann como “fazendão do mundo”. Mais de dois terços das exportações nacionais continuam baseadas em commodities de baixo valor agregado, enquanto a indústria perde espaço e a reprimarização avança.
A liderança nacional na soja ilustra a equação: a safra 2024/2025 superou 169 milhões de toneladas, com o Mato Grosso respondendo sozinho por mais de 50 milhões de toneladas. Nesse ritmo, a pujança agrícola transforma florestas em pastagens e agências fiscais em trincheiras, atormentadas pela pressão de parlamentares ruralistas que buscam afrouxar normas ambientais e trabalhistas.
A ofensiva não se limita ao Congresso. Em fevereiro, o ministro do Trabalho, Luiz Marinho, anulou autos que apontavam a JBS Aves como responsável por condições análogas à escravidão em granjas terceirizadas, contrariando laudos de auditores que citaram jornadas de 16 horas e alimentação à base de frango descartado.
O gesto revelou tensão dentro do próprio governo ao equilibrar diálogo com o agronegócio e compromisso histórico com a classe trabalhadora. Outro atrito emergiu quando a montadora chinesa BYD entrou na lista suja do trabalho escravo e conseguiu retirá-la na Justiça poucos dias depois, segundo reportagens à época.
O episódio foi seguido da exoneração do secretário nacional de Inspeção do Trabalho, levando a Associação Nacional dos Auditores Fiscais a denunciar interferência política e a temer que o cadastro — referência mundial reconhecida pela ONU — vire peça decorativa. Ao mesmo tempo, celebridades sertanejas transformadas em grandes latifundiários também figuraram nesse cadastro.
É o caso do cantor Leonardo, incluído em 2024 por alojar empregados sem água potável e retirado no ano seguinte após acordo de R$ 500 mil em danos coletivos. Em 2026, foi a vez de Amado Batista, reforçando que a cultura agrossertaneja mistura aplausos de palco e violações de direitos básicos.
Pesquisadores começam a decifrar a liga ideológica que sustenta esse sistema, cunhando conceitos como “agrocristianismo” para identificar a fusão entre retórica religiosa, exaltação da propriedade privada e defesa incondicional da ordem. Missas em arenas de rodeio, influenciadores gospel e estética militar convergem para legitimar o avanço sobre terras públicas e neutralizar críticas ambientais.
A militarização fecha o triângulo simbólico: sondagem conduzida por universidades brasileiras e estrangeiras mostra que o desejo de jovens em ingressar nas Forças Armadas saltou de 43,8% para 55,6% entre 2021 e 2025. Esse prestígio combina com o imaginário de um país que exporta grãos, ergue igrejas-show e exalta disciplina castrense como antídoto contra o caos urbano.
Na contramão dessa coalizão, populações indígenas, quilombolas e pequenos agricultores seguem como barreira moral e jurídica à expansão ilimitada de soja, boi e minério. ONGs e o Ministério Público Federal disputam na Justiça cada trecho de floresta remanescente, num embate de liminares, pistoleiros e batalhões da Polícia Militar frequentemente mobilizados para reintegrações de posse em nome do “progresso”.
Se a transição energética ampliar a procura por lítio, nióbio e terras raras, o roteiro tende a repetir-se, agora com a chancela verde de baterias e painéis solares. Sem industrialização doméstica que retenha valor e gere empregos qualificados, o país aprofunda o papel de fornecedor barato enquanto o sangue continua fertilizando o latifúndio moderno.
Não basta celebrar recordes de exportação se o preço interno inclui cadáveres, envenenamento químico e servidão. Romper esse ciclo implica fortalecer a fiscalização trabalhista e ambiental, acelerar a reforma agrária e regular cadeias produtivas — sob pena de deixar a conta humanitária cada vez mais alta para a sociedade.
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