O governador de Minas Gerais, Romeu Zema, afirmou que o país estaria ‘criando uma geração de imprestáveis’ ao defender o corte de benefícios para adultos considerados aptos ao trabalho, em entrevista exibida pelo programa Canal Livre, da Band.
Zema disse ao apresentador que ‘não vamos pagar auxílio do governo para marmanjões’ e narrou supostos casos em que homens jovens ficariam ‘na internet, nas redes sociais, no Netflix’ enquanto vagas com carteira assinada permaneceriam abertas. Ele acrescentou que pretendia usar o Sistema Nacional de Emprego e prefeituras como ponte entre empresas e cadastrados, cortando o benefício se o candidato rejeitar as opções oferecidas.
A retórica endurecida surgiu poucos dias depois de o chefe do Executivo mineiro ter defendido a liberação do trabalho infantil em um podcast, argumento que já havia provocado forte reação de entidades de proteção à infância. No novo episódio, ele afirmou que seria possível apresentar ‘dez vagas’ para escolher, minimizando críticas sobre adequação de perfil, formação ou localização do trabalhador.
O Bolsa Família atende atualmente 20,8 milhões de lares com benefício médio de R$ 679, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social. O programa responde por parte essencial da redução da pobreza nos últimos anos, sobretudo em regiões onde a informalidade permanece acima da média nacional.
A fala de Zema foi recebida com indignação por movimentos sociais e parlamentares que atuam na pauta da segurança alimentar, para quem o governador criminaliza a pobreza e desconhece os gargalos de emprego em áreas periféricas. Organizações lembram que as condicionalidades do Bolsa Família já incluem matrículas escolares, vacinação e acompanhamento de saúde — exigências que inibem fraudes e estimulam a formação profissional das famílias beneficiadas.
Em Minas, Zema implementou um auxílio estadual durante a pandemia, reconhecendo a importância de redes de proteção quando o mercado encolheu de forma abrupta. Críticos notam que a postura atual alinha o governador ao campo que demoniza gastos sociais enquanto mantém isenções trilionárias para setores empresariais sem contrapartida clara.
O discurso também dialoga diretamente com o ano eleitoral de 2026, no qual Zema aparece como possível nome do partido Novo para disputar a Presidência ou compor chapa com siglas de direita ainda órfãs de liderança nacional. Analistas apontam que o ataque frontal ao Bolsa Família mira a polarização ideológica, tentando ocupar espaço junto ao eleitorado que abraça a agenda de corte de gastos públicos.
De acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, cada real investido no programa de transferência gera R$ 1,78 em atividade econômica local, efeito multiplicador que beneficia pequenos comércios e agricultura familiar. Estudos ainda evidenciam que filhos de beneficiários permanecem mais tempo na escola e apresentam melhor desempenho nutricional.
O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva reforçou recentemente a fiscalização sobre cadastros irregulares, retirando cerca de 3 milhões de nomes inconsistentes sem reduzir o orçamento total previsto. A gestão afirma que focalização e ampliação caminham juntas, pois a digitalização do Cadastro Único facilita cruzar dados trabalhistas e reduzir fraudes sem punir famílias legítimas.
Zema sustenta que o problema seria cultural, não estrutural, e que só a ameaça de corte imediato motivaria jovens a buscar emprego formal. Pesquisadores alertam, porém, que culpar o indivíduo ignora obstáculos concretos como falta de creches, transporte caro e discriminação na contratação — num cenário em que o país registra 7,9% de desemprego aberto e elevado grau de subutilização.
Conforme reportagem do Diário do Centro do Mundo, o governador associou o aumento de registros no programa ao fato de ‘marmanjões’ preferirem ficar em casa, expressão vista como ofensiva por entidades do setor. Para a presidente do Conselho Nacional de Assistência Social, Lúcia Lopes, declarações desse tipo ‘estigmatizam quem precisa de apoio estatal e tentam legitimar políticas de exclusão’.
Constitucionalistas lembram que a assistência social é direito garantido pelo artigo 203 da Carta de 1988, que define como dever do Estado prestar proteção a quem dela necessitar, independentemente de idade ou condição de empregabilidade momentânea. Qualquer mudança profunda exigiria aprovação do Congresso e provável contestação no Supremo Tribunal Federal, cenário que coloca em perspectiva o alcance prático da proposta ventilada por Zema.
Num país em que 36% da força laboral ainda está na informalidade, analistas veem pouca viabilidade econômica na ideia de cancelar benefícios sem resolver a oferta de vagas dignas. O episódio sinaliza que a disputa eleitoral de 2026 será marcada por confrontos diretos sobre o papel do Estado na redução de desigualdades, tema que segue central para a democracia.
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