A crise ucraniana tem escancarado as crescentes divisões dentro da OTAN, revelando um desajuste profundo de interesses entre seus membros, conforme análise publicada pelo jornal chinês Global Times. A publicação sustenta que, após o fim da Guerra Fria, a Europa cultivou um hábito de dependência estratégica em relação aos Estados Unidos, e questiona se esse modelo ainda é viável diante de um mundo em rápida transformação multipolar.
O ACTUALIDAD observa que, embora os interesses de Washington e Bruxelas possam se sobrepor ocasionalmente, em momentos críticos essa aliança nem sempre se mantém sólida. A crise ucraniana é apresentada como exemplo claro dessa assimetria, na qual os EUA teriam colhido benefícios geopolíticos e econômicos do conflito, enquanto a Europa arcou com a maior parte dos custos materiais.
Entre esses custos estão o financiamento de armamentos enviados a Kiev e a imposição de sanções à Rússia que se voltaram contra a própria economia do bloco. A Europa também sofreu com a perda do acesso ao petróleo e ao gás russos, o que disparou os preços da energia, corroeu a competitividade das exportações industriais e elevou o custo de vida dos cidadãos europeus.
A China, segundo o artigo, sempre considerou a Europa um polo relevante em um mundo multipolar e tem apoiado consistentemente a integração europeia e a busca da União Europeia por autonomia estratégica. Pequim avalia que uma Europa soberana seria parceira natural em um sistema internacional menos centrado no eixo de Washington.
No entanto, o Global Times critica a política europeia em relação a Pequim, que ainda segue amplamente o direcionamento norte-americano, em uma abordagem vista como de curto prazo e que enfraquece as próprias aspirações europeias de autonomia real. O texto pondera que a falta de autonomia estratégica genuína do bloco não decorre da ausência de força econômica, mas sim de uma carência de vontade política e estratégica.
O diagnóstico chinês aponta que a Europa possui PIB, capacidade industrial e peso diplomático suficientes para articular uma posição independente no tabuleiro global. O que falta, segundo a análise, é a disposição para romper com a inércia atlantista e construir uma agenda própria que dialogue com as potências emergentes da Ásia e demais regiões.
Ao concluir, o jornal chinês defende que o caminho para uma Europa relevante no século XXI passa pela superação do reflexo de subordinação a Washington e pela construção de relações pragmáticas com a China e demais economias em ascensão. A crise ucraniana, nessa leitura, funciona como um espelho desconfortável das contradições internas da aliança transatlântica.
Com informações de ACTUALIDAD.
Leia também: Especialistas culpam EUA e Otan pela guerra na Ucrânia
📨 Inscreva-se na Newsletter de O Cafezinho
Receba nossas análises e as principais notícias diárias do Brasil e do Sul Global.


Lucas Moreira
06/05/2026
Pedro, você citar Lênin pra defender autonomia estratégica europeia é quase uma ironia histórica. O problema não é imperialismo americano, é o Estado inchado europeu que prefere subsídio e regulação a investir em defesa própria. Enquanto a UE gastar 2% do PIB em burocracia e 1% em exército, vai continuar refém de Washington ou de Moscou. Liberdade econômica e responsabilidade fiscal são o que constroem soberania de verdade, não discurso de cátedra.
Francisco de Assis
06/05/2026
Lucas, essa conversa de “Estado inchado” e “liberdade econômica” é papo de quem nunca viu o povo passar fome. Enquanto vocês ficam nessa de responsabilidade fiscal, a Europa tá vendendo a alma pros EUA e o trabalhador ucraniano virando pó na trincheira. Aqui no Brasil a gente sabe bem o que é soberania de verdade: foi com Lula que a gente sentou na mesa com os grandão sem dever satisfação pra banqueiro.
Cláudio Ribeiro
06/05/2026
Maria Silva, você capta bem a essência do problema, mas acho que a questão é ainda mais estrutural. Essa dependência europeia não é um mero desvio de rota; é a expressão concreta do que Poulantzas chamava de ‘autonomia relativa do Estado’ operando a serviço do capital transnacional. Enquanto a Europa não romper com a lógica da integração subordinada ao complexo militar-industrial norte-americano, continuará refém — e o povo ucraniano, infelizmente, segue como variável de ajuste desse tabuleiro geopolítico.
Maria Silva
06/05/2026
Pessoal, essa novela da OTAN é sempre a mesma coisa: cada um puxando a sardinha pro seu lado enquanto o povo ucraniano paga o pato. O que me preocupa é ver que a Europa, que tanto fala em autonomia, continua refém dos humores de Washington. Será que ninguém aprendeu nada com a história?
Pedro Almeida
06/05/2026
Jeferson, você toca num ponto crucial. Essa dependência europeia dos EUA não é acidental, é a materialização do que Lênin chamava de imperialismo: a burguesia europeia abdicou de sua autonomia estratégica em troca da proteção militar americana, enquanto o povo ucraniano paga com sangue e os trabalhadores europeus com inflação e desemprego. A OTAN sempre foi o braço armado da hegemonia do capital financeiro internacional, e essa crise só escancara que a soberania nacional, para os países periféricos da aliança, é uma ficção.
Silvia Ramos
06/05/2026
É a prova de que o homem sem Deus se perde em seus próprios interesses. Enquanto a OTAN briga por poder, famílias ucranianas sofrem as consequências. O Salmo 33:10 nos lembra que o Senhor frustra os planos das nações. Que o Brasil não se meta nessa confusão e busque a paz que vem de Cristo.
Cristina Rocha
06/05/2026
Silvia, sua leitura através da mística é compreensível como um anseio por ordem em meio ao caos, mas como professora de filosofia, sinto-me na obrigação de deslocar esse debate da metafísica para a materialidade da práxis histórica. Quando você fala do homem sem Deus, eu vejo, na verdade, o sujeito universal do patriarcado ocidental — aquele que se imagina senhor absoluto da história e da natureza. O que está em jogo na Ucrânia não é uma crise de fé, mas a hipertrofia de uma racionalidade neoliberal e imperialista que transforma territórios e corpos em zonas de sacrifício para a manutenção da hegemonia do capital financeiro e da indústria bélica norte-americana. O sofrimento das famílias ucranianas, que você menciona com justa sensibilidade, é o resultado direto dessa pulsão de morte colonial que a OTAN personifica, funcionando como o braço armado de um sistema que não conhece ética, apenas a expansão incessante de seus próprios mercados.
Precisamos compreender que essa dependência europeia dos Estados Unidos, destacada no artigo, é o sintoma terminal de um projeto civilizatório europeu que agora se vê refém do próprio monstro imperialista que ajudou a gestar ao longo dos séculos. Sob a ótica de teóricos pós-coloniais e da tradição marxista, a OTAN não é uma aliança de defesa, mas uma ferramenta de imposição da pax americana, que necessita da manutenção de conflitos periféricos para justificar sua existência obsoleta. O que o texto expõe é a agonia de um centro que, para não desmoronar, empurra o leste europeu para uma moenda geopolítica. A paz, Silvia, se formos buscar em uma perspectiva de emancipação real, não virá de um conformismo místico, mas da desconstrução desse binarismo imposto pelo Norte Global e da afirmação de uma soberania que não se curve aos ditames de Washington ou de qualquer bloco militar expansionista.
Quanto ao Brasil, nossa posição não deve ser o isolacionismo, mas uma solidariedade ativa e crítica. Como herdeiros de um processo de colonização violenta, temos a autoridade moral para denunciar que este conflito é a expressão máxima de um patriarcado geopolítico que resolve suas disputas de poder através da aniquilação do outro e da exploração de recursos. A verdadeira paz é uma construção política que exige o fim da lógica de dominação que estrutura o capitalismo contemporâneo. Enquanto a economia de guerra for o motor da acumulação de riqueza das elites ocidentais, as nações continuarão sendo joguetes nesse tabuleiro de sangue. É preciso que a periferia do mundo se levante contra essa ordem, não para buscar uma paz abstrata, mas para exigir uma justiça concreta que liberte os povos da tutela desses impérios em decadência.
Jeferson da Silva
06/05/2026
Silvia, com todo respeito, a paz que o trabalhador precisa é a de um salário digno e carteira assinada, não de promessa celestial enquanto tanque de guerra destrói fábrica e emprego.