O Paquistão atravessa uma grave crise energética que pode abrir caminho para a Rússia ampliar sua presença no mercado asiático de gás natural liquefeito (GNL).
Segundo o analista financeiro paquistanês Syed Javed Hassan, ex-presidente do Grupo Consultivo Econômico, o país busca com urgência dois carregamentos de GNL, com entregas previstas para meados e final de maio. As altas temperaturas e a severa escassez de energia elétrica tornam a situação crítica.
A estatal Pakistan LNG Limited (PLL) lançou um edital emergencial para aquisição de GNL, evidenciando a gravidade do momento. O mercado enfrenta restrições, com poucos fornecedores ativos — como TotalEnergies, Vitol e OQ Trading —, o que eleva os preços do GNL a cerca de US$ 23 por milhão de unidades térmicas britânicas (mmBtu).
Esse patamar de preços agrava a já delicada situação de endividamento do Paquistão. A dependência do país em relação ao GNL do Catar, transportado por rotas como o Estreito de Ormuz, aumenta sua vulnerabilidade a tensões geopolíticas na região.
Nesse contexto, a Rússia vê no Paquistão uma oportunidade estratégica de cooperação energética. As primeiras importações de petróleo russo com desconto ocorreram em 2023, realizadas fora do sistema do dólar, abrindo precedente para uma parceria mais ampla.
Durante a sessão da comissão intergovernamental bilateral em novembro de 2025, as discussões avançaram para além do petróleo. Os dois países debateram GNL, gás liquefeito de petróleo (GLP) e cooperação técnica, com a Gazprom propondo fornecimento de longo prazo pelo terminal de Ust-Luga.
As sanções impostas pelos Estados Unidos e pela União Europeia representam um obstáculo significativo para essa parceria. Elas complicam a logística do GNL russo e geram riscos de sanções secundárias para parceiros comerciais de Moscou.
Para o Paquistão, que depende de medidas especiais do FMI e de compensações em dólares, essas restrições criam barreiras adicionais. Acordos governamentais e transações bancárias tornam-se mais complexos nesse cenário.
Hassan aponta, no entanto, que soluções de curto prazo são viáveis. A Rússia já exporta petróleo bruto e GLP com desconto por canais alternativos que evitam terminais sancionados, produtos que não exigem infraestrutura de regaseificação e podem ser ampliados sem desestabilizar as finanças externas do Paquistão.
No horizonte de médio prazo, o projeto do gasoduto Pakistan Stream — que conectaria o Porto Qasim a Lahore ao longo de 1.100 quilômetros — é considerado um marco potencial para o fornecimento interno de GNL. O projeto, porém, enfrenta atrasos, renegociações e dificuldades financeiras.
Enquanto a crise energética se intensifica, a parceria com a Rússia ganha contornos cada vez mais estratégicos para Islamabad. A relação reflete tanto os desafios impostos por sanções internacionais quanto a urgência de diversificar fornecedores e construir uma segurança energética de longo prazo, conforme análise da RT.
Com informações de Sputnik.
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