O Telescópio Espacial James Webb produziu uma análise detalhada da composição da superfície de LHS 3844 b, exoplaneta rochoso a 48,5 anos-luz da Terra, aprofundando o que a ciência sabe sobre mundos sem atmosfera.
O planeta foi originalmente detectado pelo satélite TESS em 2019 e ganhou novo escrutínio em estudo publicado na Nature Astronomy, com dados coletados pelo instrumento MIRI a bordo do Webb. Os resultados foram repercutidos pelo Science Daily.
A pesquisa foi liderada por Sebastian Zieba, do Centro de Astrofísica Harvard & Smithsonian, em parceria com Laura Kreidberg, diretora do Instituto Max Planck para Astronomia. Os cientistas utilizaram a capacidade infravermelha do Webb para sondar a geologia de um planeta que orbita sua estrela anã vermelha em menos de 11 horas.
LHS 3844 b é 30% maior que a Terra e não possui atmosfera detectável, tornando-o um laboratório natural para o estudo de superfícies planetárias. As observações indicam que sua crosta é predominantemente composta por basalto, o mesmo material vulcânico que forma grande parte do fundo oceânico terrestre e da superfície lunar.
A ausência de uma crosta rica em silicatos — característica marcante da Terra continental — sugere que processos tectônicos semelhantes aos terrestres não ocorrem em LHS 3844 b. Na Terra, a formação desse tipo de crosta está ligada à presença de água e à dinâmica das placas tectônicas, dois elementos que parecem inexistir neste exoplaneta.
A análise também não encontrou sinais de atividade vulcânica recente, como a presença de dióxido de enxofre na superfície. Esse dado reforça a hipótese de que LHS 3844 b possui uma geologia inativa, tornando-o ainda mais parecido com Mercúrio.
A composição identificada aponta para rochas magmáticas ricas em magnésio e ferro, consistente com um planeta que nunca desenvolveu ciclos geoquímicos complexos. Os pesquisadores ressaltam que ainda há incerteza sobre a textura exata da superfície: ela pode ser formada por rocha sólida ou por material pulverulento, como o regolito lunar.
Novas rodadas de observação com o Webb estão previstas para resolver essa questão e refinar o mapeamento geológico do planeta. O caso de LHS 3844 b ilustra como exoplanetas rochosos próximos podem funcionar como espelhos para compreender a diversidade de caminhos que a evolução planetária pode tomar — e por que a Terra, com sua tectônica ativa e oceanos, é uma exceção tão rara no cosmos.
Leia também: Webb decifra superfície vulcânica de exoplaneta super-terra a 50 anos-luz
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João Santos
06/05/2026
Pô, gastam rios de dinheiro nesse telescópio pra ver pedra quente lá longe e aqui na Terra o Brasil tá cheio de buraco. Cadê o Webb pra fiscalizar obra superfaturada do governo? Bandido bom é bandido preso, gastassem essa grana com segurança pública.
Mariana Oliveira
06/05/2026
João, seu comentário toca num nervo que é muito real: a sensação de que o dinheiro público poderia ser usado para tapar buracos aqui embaixo enquanto a ciência olha para cima. E você tem razão em parte — o Brasil tem, sim, um déficit histórico em infraestrutura básica, saneamento e segurança pública. Mas aí que a gente precisa fazer uma análise mais cuidadosa sobre quem decide onde esse dinheiro vai parar. O orçamento do telescópio Webb é da NASA, uma agência dos EUA, não do governo brasileiro. A grana que financia ciência básica em países centrais não é a mesma que some em licitações superfaturadas de obras públicas no Brasil. O problema da corrupção não está na pesquisa espacial, está na falta de controle social e na impunidade estrutural que permite que recursos desviados nunca sejam recuperados. Kimberlé Crenshaw, quando fala de interseccionalidade, nos ensina a olhar para como diferentes sistemas de opressão se cruzam — e aqui a lógica de cortar investimento em ciência para “sobrar dinheiro” para segurança pública é uma falsa dicotomia. Quem decide cortar verba de universidades e pesquisa não é o mesmo grupo que vai usar esse dinheiro para asfaltar ruas na periferia. Muito pelo contrário: o desmonte da ciência no Brasil, especialmente nos governos recentes, veio acompanhado de aumento de gastos com armas e com a máquina repressiva, não com políticas públicas de bem-estar.
A segurança pública que você pede, João, se a gente for olhar com lentes feministas e antirracistas, não se resolve com mais prisões e com a lógica de “bandido bom é bandido preso”. bell hooks, no livro “Ensinando a Transgredir”, nos lembra que a verdadeira segurança coletiva passa por educação de qualidade, moradia digna, acesso à saúde e à cultura — coisas que o investimento em ciência, inclusive em astronomia, ajuda a construir indiretamente. Quando um país investe em pesquisa básica, ele forma professores, engenheiros, técnicos, e cria uma cadeia de conhecimento que gera inovação e desenvolvimento econômico. O Webb mapeando uma super-Terra escaldante não é só “ver pedra quente”: é entender a formação de planetas, a química atmosférica, e quem sabe no futuro entender melhor o próprio planeta onde a gente vive. O problema não é o telescópio, é a lógica que faz a gente achar que ciência e justiça social são concorrentes, quando na verdade são aliadas. Se a grana que some em obra superfaturada fosse investida em educação e pesquisa, talvez a gente não tivesse tanto buraco para tapar.
Julia Andrade
06/05/2026
João, seu comentário toca num nervo que é muito real: a sensação de que o dinheiro público poderia ser usado para tapar buracos aqui embaixo enquanto a ciência olha para cima. E você tem razão em parte — o Brasil tem, sim, um déficit histórico em infraestrutura básica, saneamento e segurança que é criminoso. Mas a armadilha aqui é achar que o problema é a ciência, e não a má gestão. O orçamento do James Webb é de cerca de 10 bilhões de dólares ao longo de décadas — isso equivale a menos de 0,5% do que o Brasil gasta por ano só com juros da dívida pública. O problema não é o telescópio; o problema é a priorização política que deixa a educação e a saúde em frangalhos enquanto financia bancos com dinheiro público. A ciência não é a inimiga da justiça social; ela é, historicamente, uma das poucas ferramentas que já tirou milhões da miséria — vacinas, energia, agricultura.
A sua provocação sobre o Webb fiscalizar obra superfaturada é boa, mas revela um equívoco de fundo: você está tratando a ciência como se ela fosse um balcão de obras públicas. O telescópio não existe para fazer auditoria de empreiteira; ele existe para expandir o que sabemos sobre o universo. E isso pode parecer fútil quando se olha para um buraco na rua, mas não é. O desenvolvimento tecnológico necessário para construir o Webb gerou inovações em sensores, óptica, materiais e processamento de dados que, cedo ou tarde, viram aplicações civis e industriais. A internet que você usa para reclamar no blog, o GPS do seu celular, os satélites que monitoram desmatamento na Amazônia — tudo isso veio de investimentos em pesquisa que, na época, foram chamados de “dinheiro jogado fora” por alguém.
E tem uma camada mais profunda aqui, que é a da identidade e da disputa de narrativa. Quando a gente diz “gastam rios de dinheiro nisso”, a gente tá comprando um discurso que coloca a ciência como inimiga do povo. Mas quem realmente sangra o orçamento público no Brasil não é a pesquisa espacial — é o sistema tributário regressivo, os supersalários do funcionalismo de elite, as isenções fiscais para agronegócio e mineração, e a dívida pública que engole 40% do orçamento federal. A ciência, na verdade, é uma das poucas áreas que devolve em desenvolvimento o que investe. O Webb não vai fiscalizar obra superfaturada, mas a educação que ele inspira pode formar o engenheiro que, um dia, vai criar um sistema de transparência que ninguém consegue corromper. O problema não é o telescópio; o problema é que a gente briga pela migalha enquanto o banquete é roubado na nossa frente.