Um estudo da Universidade da Colúmbia Britânica (UBC) concluiu que terras geridas por povos indígenas apresentam níveis de preservação de florestas, biodiversidade e estoques de carbono iguais ou superiores aos de áreas protegidas oficialmente designadas por governos.
Publicado na revista People and Nature, o trabalho é o maior já realizado sobre o tema. Foram analisados 111 artigos revisados por pares, abordando cobertura florestal, biodiversidade, armazenamento de carbono e outros indicadores em regiões como Amazônia, Ásia-Pacífico, África e Canadá.
Três quartos dos artigos apontaram relação positiva entre terras indígenas e resultados de conservação ambiental. O Dr. William Nikolakis, professor assistente de governança de terras e recursos naturais indígenas na UBC e autor principal do estudo, destacou que os povos indígenas estão entre os mais eficazes administradores de terras no mundo.
Nikolakis enfatizou que muitas comunidades ainda lutam pelo reconhecimento de seus direitos sobre territórios protegidos por gerações. Ele defende que a ciência mostra a urgência de avançar no apoio a essas populações.
Os dados revelam a eficácia das práticas indígenas em diversos ecossistemas globais. Na Amazônia, por exemplo, a perda de vegetação nativa entre 2005 e 2012 foi 17 vezes menor em terras indígenas do que em áreas não protegidas semelhantes.
Na Austrália, 60% das espécies ameaçadas do país foram encontradas em terras indígenas. Na Amazônia e no Panamá, os estoques de carbono nessas áreas se mostraram preservados em níveis iguais ou superiores aos de áreas protegidas oficiais.
Apesar das evidências, o estudo aponta que 60% das terras indígenas no mundo enfrentam ameaças como desenvolvimento industrial e mudanças climáticas. Muitas carecem de reconhecimento legal, ficando vulneráveis à exploração por indústrias extrativistas, agrícolas e madeireiras.
Outro problema identificado é a baixa inclusão de vozes indígenas na produção acadêmica, com apenas 7% dos artigos analisados contando com autores indígenas. Garry Merkel, coautor do estudo e diretor do Centro de Gestão de Terras Indígenas da UBC, criticou a dificuldade da ciência tradicional em aceitar o conhecimento indígena como legítimo.
Merkel, membro da Nação Tahltan, defendeu que a pesquisa acadêmica precisa ser mais inclusiva e respeitosa com os sistemas de conhecimento das comunidades. Grande parte desse saber está fora dos canais acadêmicos, transmitido por tradições orais e pesquisas comunitárias.
Com a meta global de proteger 30% das terras e águas até 2030, os pesquisadores listaram três prioridades políticas: garantir direitos formais de posse, financiar a gestão dessas terras e promover governança liderada por indígenas. Segundo Nikolakis, essas medidas funcionam melhor quando aplicadas em conjunto.
Merkel reforçou que a gestão indígena não é apenas uma ferramenta de conservação, mas um elemento essencial. Com autoridade e suporte adequados, os benefícios se estendem aos ecossistemas, ao clima e ao bem-estar das comunidades, oferecendo modelos práticos para outras regiões.
O artigo, intitulado The relationship between Indigenous Peoples’ lands and conservation: A systematic literature review, foi publicado na revista People and Nature. Mais informações estão disponíveis no portal Phys.org.
Leia também: Governo Federal lança chamada pública de R$ 150 milhões para restauração de terras indígenas
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