Os impressionantes recordes de abril

Contêineres empilhados formam um gráfico ascendente, simbolizando o aumento das exportações. (Foto: rt.com)

Por qualquer ângulo que se analise, o comércio exterior brasileiro bateu recordes impressionantes em abril de 2026. Não foi um recorde único, mas uma batelada deles, em todas as métricas relevantes que se possam construir.

No mês isolado, abril registrou o maior volume mensal de exportações de toda a série histórica brasileira, iniciada em 1989: US$ 34,15 bilhões. As importações do mês também bateram recorde para meses de abril, e o superávit alcançou US$ 10,54 bilhões — recorde para qualquer abril e o terceiro maior saldo mensal absoluto da história, atrás apenas de maio e março de 2023.

No acumulado dos quatro primeiros meses do ano, o quadro se repete com a mesma força. Os 21 anos de série histórica mostram que jamais o Brasil exportou tanto nesse recorte: US$ 116,55 bilhões, contra US$ 108,04 bilhões do recorde anterior, fixado em 2024.

A corrente de comércio do quadrimestre — soma de exportações e importações — também é a maior já registrada: US$ 208,32 bilhões, doze bilhões acima do recorde anterior. As importações do período igualmente bateram o pico anterior.

O único indicador do quadrimestre que não foi recorde absoluto foi o saldo da balança. Mesmo assim, os US$ 24,78 bilhões representam o segundo maior superávit já registrado num quadrimestre, atrás apenas do mesmo período de 2024.

E quando ampliamos a janela para o acumulado de doze meses encerrado em abril de 2026, o cenário continua extraordinário. A corrente de comércio chegou a US$ 593,86 bilhões, com superávit de US$ 57,14 bilhões — patamar entre os mais altos da série histórica.

Há ainda uma métrica adicional, talvez a mais robusta de todas. Trata-se da média mensal móvel em doze meses da corrente de comércio, que neutraliza os ruídos da sazonalidade: ela alcançou US$ 53,9 bilhões por mês em abril de 2026, o maior valor da série de 20 anos, superando o pico anterior de janeiro de 2023.

Os recordes desenhados no tempo

Comparar 2026 com o passado mais recente já impressiona. Mas olhar para o passado mais longínquo é o que revela a verdadeira escala da transformação.

Dez anos antes, no acumulado de doze meses encerrado em abril de 2016 — em meio à recessão mais dura da história recente do país — a corrente era de apenas US$ 340,25 bilhões e o superávit não passava de US$ 35,56 bilhões. Em uma década, portanto, o Brasil ampliou em 74% sua corrente de comércio com o mundo e em mais de 60% seu superávit anual.

Esses doze meses encerrados em abril atravessaram um período de turbulência global excepcional. Guerras na Ucrânia e no Oriente Médio, tarifaço de Trump, estagnação europeia, reorganização global das cadeias de suprimento — e, ainda assim, recordes.

O eixo do Sul: BRICS pleno e a locomotiva chinesa

O dado mais superlativo da nossa balança comercial atual é o peso do bloco BRICS. Hoje o grupo tem onze membros plenos: Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã.

Considerando os dez parceiros sem o Brasil, a corrente de comércio brasileira com o BRICS atingiu US$ 234,58 bilhões nos últimos doze meses, contra US$ 211,98 bilhões nos doze meses imediatamente anteriores — alta de 10,7%. Esse volume representa cerca de 39,5% de todo o comércio exterior brasileiro com o mundo no período.

O superávit acumulado do Brasil com os dez parceiros do BRICS quase dobrou: passou de US$ 21,23 bilhões para US$ 39,02 bilhões em um ano. O bloco se consolida como âncora do superávit brasileiro.

A China, naturalmente, é o centro gravitacional dessa relação. A corrente de comércio bilateral atingiu US$ 178,0 bilhões nos últimos 12 meses, contra US$ 159,3 bilhões no acumulado anterior — um salto de quase 12% e um peso de 76% dentro do BRICS.

O superávit com Pequim foi ainda mais impressionante: US$ 36,4 bilhões, ante US$ 21,5 bilhões do acumulado anterior, alta de 69%. Em apenas um ano, o saldo positivo com a China cresceu cerca de US$ 15 bilhões.

Para a China, o Brasil envia montanhas de commodities essenciais: soja, óleos brutos de petróleo, carnes bovinas congeladas, açúcar, celulose e ferro-gusa. O salto confirma que o Brasil é, hoje, o principal provedor estratégico de energia e proteína para Pequim.

Entre os outros parceiros do BRICS, a Índia se destacou com a maior alta percentual no comércio com o Brasil: 26,9%, chegando a US$ 16,4 bilhões de corrente nos últimos doze meses. Arábia Saudita, Indonésia, Egito, Emirados Árabes e África do Sul também avançaram, abrindo frentes promissoras em mercados estratégicos do Oriente Médio, África e Sudeste Asiático.

A Rússia foi a única exceção em queda no bloco, com corrente de US$ 11,1 bilhões, baixa de 12,6% sobre o acumulado anterior. O que torna a posição brasileira singular, porém, é o fato de que o avanço asiático e do BRICS como um todo não veio às custas dos demais mercados.

Uma pauta exportadora rica e múltipla

O Brasil não é uma Arábia Saudita nem uma Venezuela. Não somos um país-petróleo nem dependemos de uma única commodity.

Nossa pauta exportadora é uma das mais diversificadas do mundo em desenvolvimento. Esse é um patrimônio econômico que poucas nações conseguiram construir, e o seu mérito é em primeiro lugar do setor produtivo brasileiro — empresários, trabalhadores, técnicos, agricultores, exportadores que mantêm o país competitivo mesmo em ambiente global hostil.

Carne bovina, carne suína, alumina, veículos de carga, caminhões, café torrado, máquinas e aparelhos elétricos, ferramentas mecânicas, perfumaria, papel e celulose, suco de laranja, álcool combustível, açúcar refinado e aeronaves comerciais figuram entre os destaques recentes. São itens que vão da agropecuária à indústria pesada, da química fina à aviação.

E há ainda a quase invisível constelação dos chamados produtos “não tradicionais”, que mostram a capilaridade do agro brasileiro. Comparando o acumulado de doze meses encerrado em abril de 2026 com o acumulado dos doze meses anteriores, a pimenta teve alta de 81% no valor exportado, o óleo de amendoim saltou 147%, a castanha de caju subiu 72% e os melões frescos avançaram 25%.

São itens que parecem pequenos diante da soja ou do petróleo. Mas que, somados, representam centenas de milhões de dólares em divisas e empregam milhões de brasileiros em regiões frequentemente esquecidas pelas grandes cadeias produtivas.

Mercados variados — e o retorno da diplomacia Lula

A diversificação não é só de produtos. É também de destinos.

Mais de quarenta mercados registraram recorde histórico de compras brasileiras recentemente, com destaque para Canadá, Índia, Turquia, Paraguai, Uruguai, Suíça, Paquistão e Noruega. O Paquistão, sozinho, ampliou em 122% suas compras de produtos do agro brasileiro na comparação dos últimos doze meses contra os doze anteriores.

Esse alargamento, é preciso dizer, tem como base o talento e a competitividade do setor produtivo nacional — sem isso, nenhum acordo comercial e nenhuma viagem presidencial levaria a resultados como os que temos visto. Mas é também resultado de uma diplomacia comercial que voltou a funcionar.

Desde 2023, o agro brasileiro abriu 525 novos mercados no exterior, gerando aproximadamente US$ 4 bilhões em receitas cambiais adicionais, segundo dados do Ministério da Agricultura. No campo dos acordos, o Mercosul fechou tratado de livre comércio com Singapura em 2024 e com o EFTA (Noruega, Suíça, Islândia e Liechtenstein), além de encaminhar o tratado com a União Europeia.

Com os três acordos somados, o percentual de exportações brasileiras cobertas por preferências tarifárias subirá de 12,2% para 30%. É a paisagem de um país que voltou a costurar pontes onde outros desperdiçaram décadas.

É o velho instinto da diplomacia Lula em ação. O presidente, sempre que governou, viajou o mundo abrindo mercados, costurando acordos e visitando capitais que governos anteriores haviam abandonado.

Foi assim em 2003-2010, quando a expansão asiática abriu o ciclo virtuoso das commodities. E voltou a ser assim agora, num mundo fragmentado em que cada acordo bilateral, cada nova ponte tarifária e cada compra recorde importa.

Encontro com Trump e a injustiça do tarifaço

Em meio a esse panorama positivo, a relação Brasil-Estados Unidos ganha contornos particulares. Justamente quando a diplomacia brasileira se senta à mesa com Donald Trump, os números mostram um quadro que escancara a injustiça da política comercial americana em relação ao nosso país.

Nos últimos doze meses, o Brasil exportou US$ 35,50 bilhões para os EUA, mas importou US$ 43,31 bilhões — déficit de quase US$ 8 bilhões. No acumulado dos doze meses anteriores, o saldo havia sido um pequeno déficit de US$ 1,65 bilhão. Em apenas um ano, portanto, o rombo bilateral com os americanos se multiplicou por cinco.

A deterioração tem nome: tarifaço. As exportações para os EUA caíram 11,3% em abril de 2026 sobre o mesmo mês de 2025, na nona queda consecutiva após a sobretaxa de 50% imposta pelo governo Trump.

E aqui está a contradição grosseira da retórica trumpista. Trump justificou as tarifas dizendo que o Brasil se aproveitaria comercialmente dos Estados Unidos, supostamente cobrando tarifas altas dos produtos americanos.

É mentira. As tarifas brasileiras sobre importações dos EUA são, em média, irrisórias.

Mais ainda: quem tem superávit na relação são os Estados Unidos, não o Brasil. Quando se considera apenas o comércio de bens, os americanos vendem mais para o Brasil do que compram, e o nosso déficit com eles, no acumulado dos últimos doze meses, é justamente esses quase US$ 8 bilhões.

Quando se incorpora o comércio de serviços — onde os Estados Unidos vendem softwares, plataformas digitais, royalties, consultorias e remessas tecnológicas em larga escala —, esse desequilíbrio fica ainda mais expressivo.

A pauta também é reveladora. O Brasil vende para os Estados Unidos óleos brutos de petróleo, semimanufaturados de ferro/aço, café em grão e ferro fundido — uma cesta tipicamente colonial.

A única exceção honrosa de alta tecnologia são os aviões comerciais da Embraer. Em troca, o Brasil importa partes de turbinas e motores de aviação, óleo diesel e naftas petroquímicas.

A leitura é clara: nós enviamos petróleo cru e aço básico, e eles nos devolvem diesel refinado e turbinas de alto valor agregado. Trump cobra tarifas de quem já lhe é deficitário, e exporta para o Brasil produtos de muito maior valor agregado do que os que de cá importa.

O Brasil nos próximos capítulos

Mesmo diante do tarifaço e da reorganização global das cadeias de comércio, o Brasil consolida-se como uma das economias mais resilientes e ativas do mundo em desenvolvimento. O país tem hoje uma indústria farmacêutica, um setor de saúde e uma base tecnológica que ainda dependem fortemente de importações, e essas são agendas estratégicas em aberto que precisam continuar sendo enfrentadas com política industrial robusta.

Mas o que se vê no acumulado encerrado em abril de 2026 — coroado por recordes históricos em exportações, importações e corrente de comércio — é o desenho de um país resiliente, comercialmente ativo, diplomaticamente reativado e, sobretudo, sustentado por um setor produtivo competente e diversificado. Há muito o que comemorar nessas cifras, e há muito o que continuar construindo.

Miguel do Rosário: Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.
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