Por qualquer ângulo que se analise, o comércio exterior brasileiro bateu recordes impressionantes em abril de 2026. Não foi um recorde único, mas uma batelada deles, em todas as métricas relevantes que se possam construir.
No mês isolado, abril registrou o maior volume mensal de exportações de toda a série histórica brasileira, iniciada em 1989: US$ 34,15 bilhões. As importações do mês também bateram recorde para meses de abril, e o superávit alcançou US$ 10,54 bilhões — recorde para qualquer abril e o terceiro maior saldo mensal absoluto da história, atrás apenas de maio e março de 2023.
No acumulado dos quatro primeiros meses do ano, o quadro se repete com a mesma força. Os 21 anos de série histórica mostram que jamais o Brasil exportou tanto nesse recorte: US$ 116,55 bilhões, contra US$ 108,04 bilhões do recorde anterior, fixado em 2024.
A corrente de comércio do quadrimestre — soma de exportações e importações — também é a maior já registrada: US$ 208,32 bilhões, doze bilhões acima do recorde anterior. As importações do período igualmente bateram o pico anterior.
O único indicador do quadrimestre que não foi recorde absoluto foi o saldo da balança. Mesmo assim, os US$ 24,78 bilhões representam o segundo maior superávit já registrado num quadrimestre, atrás apenas do mesmo período de 2024.
E quando ampliamos a janela para o acumulado de doze meses encerrado em abril de 2026, o cenário continua extraordinário. A corrente de comércio chegou a US$ 593,86 bilhões, com superávit de US$ 57,14 bilhões — patamar entre os mais altos da série histórica.
Há ainda uma métrica adicional, talvez a mais robusta de todas. Trata-se da média mensal móvel em doze meses da corrente de comércio, que neutraliza os ruídos da sazonalidade: ela alcançou US$ 53,9 bilhões por mês em abril de 2026, o maior valor da série de 20 anos, superando o pico anterior de janeiro de 2023.
Os recordes desenhados no tempo
Comparar 2026 com o passado mais recente já impressiona. Mas olhar para o passado mais longínquo é o que revela a verdadeira escala da transformação.
Dez anos antes, no acumulado de doze meses encerrado em abril de 2016 — em meio à recessão mais dura da história recente do país — a corrente era de apenas US$ 340,25 bilhões e o superávit não passava de US$ 35,56 bilhões. Em uma década, portanto, o Brasil ampliou em 74% sua corrente de comércio com o mundo e em mais de 60% seu superávit anual.
Esses doze meses encerrados em abril atravessaram um período de turbulência global excepcional. Guerras na Ucrânia e no Oriente Médio, tarifaço de Trump, estagnação europeia, reorganização global das cadeias de suprimento — e, ainda assim, recordes.
O eixo do Sul: BRICS pleno e a locomotiva chinesa
O dado mais superlativo da nossa balança comercial atual é o peso do bloco BRICS. Hoje o grupo tem onze membros plenos: Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã.
Considerando os dez parceiros sem o Brasil, a corrente de comércio brasileira com o BRICS atingiu US$ 234,58 bilhões nos últimos doze meses, contra US$ 211,98 bilhões nos doze meses imediatamente anteriores — alta de 10,7%. Esse volume representa cerca de 39,5% de todo o comércio exterior brasileiro com o mundo no período.
O superávit acumulado do Brasil com os dez parceiros do BRICS quase dobrou: passou de US$ 21,23 bilhões para US$ 39,02 bilhões em um ano. O bloco se consolida como âncora do superávit brasileiro.
A China, naturalmente, é o centro gravitacional dessa relação. A corrente de comércio bilateral atingiu US$ 178,0 bilhões nos últimos 12 meses, contra US$ 159,3 bilhões no acumulado anterior — um salto de quase 12% e um peso de 76% dentro do BRICS.
O superávit com Pequim foi ainda mais impressionante: US$ 36,4 bilhões, ante US$ 21,5 bilhões do acumulado anterior, alta de 69%. Em apenas um ano, o saldo positivo com a China cresceu cerca de US$ 15 bilhões.
Para a China, o Brasil envia montanhas de commodities essenciais: soja, óleos brutos de petróleo, carnes bovinas congeladas, açúcar, celulose e ferro-gusa. O salto confirma que o Brasil é, hoje, o principal provedor estratégico de energia e proteína para Pequim.
Entre os outros parceiros do BRICS, a Índia se destacou com a maior alta percentual no comércio com o Brasil: 26,9%, chegando a US$ 16,4 bilhões de corrente nos últimos doze meses. Arábia Saudita, Indonésia, Egito, Emirados Árabes e África do Sul também avançaram, abrindo frentes promissoras em mercados estratégicos do Oriente Médio, África e Sudeste Asiático.
A Rússia foi a única exceção em queda no bloco, com corrente de US$ 11,1 bilhões, baixa de 12,6% sobre o acumulado anterior. O que torna a posição brasileira singular, porém, é o fato de que o avanço asiático e do BRICS como um todo não veio às custas dos demais mercados.
Uma pauta exportadora rica e múltipla
O Brasil não é uma Arábia Saudita nem uma Venezuela. Não somos um país-petróleo nem dependemos de uma única commodity.
Nossa pauta exportadora é uma das mais diversificadas do mundo em desenvolvimento. Esse é um patrimônio econômico que poucas nações conseguiram construir, e o seu mérito é em primeiro lugar do setor produtivo brasileiro — empresários, trabalhadores, técnicos, agricultores, exportadores que mantêm o país competitivo mesmo em ambiente global hostil.
Carne bovina, carne suína, alumina, veículos de carga, caminhões, café torrado, máquinas e aparelhos elétricos, ferramentas mecânicas, perfumaria, papel e celulose, suco de laranja, álcool combustível, açúcar refinado e aeronaves comerciais figuram entre os destaques recentes. São itens que vão da agropecuária à indústria pesada, da química fina à aviação.
E há ainda a quase invisível constelação dos chamados produtos “não tradicionais”, que mostram a capilaridade do agro brasileiro. Comparando o acumulado de doze meses encerrado em abril de 2026 com o acumulado dos doze meses anteriores, a pimenta teve alta de 81% no valor exportado, o óleo de amendoim saltou 147%, a castanha de caju subiu 72% e os melões frescos avançaram 25%.
São itens que parecem pequenos diante da soja ou do petróleo. Mas que, somados, representam centenas de milhões de dólares em divisas e empregam milhões de brasileiros em regiões frequentemente esquecidas pelas grandes cadeias produtivas.
Mercados variados — e o retorno da diplomacia Lula
A diversificação não é só de produtos. É também de destinos.
Mais de quarenta mercados registraram recorde histórico de compras brasileiras recentemente, com destaque para Canadá, Índia, Turquia, Paraguai, Uruguai, Suíça, Paquistão e Noruega. O Paquistão, sozinho, ampliou em 122% suas compras de produtos do agro brasileiro na comparação dos últimos doze meses contra os doze anteriores.
Esse alargamento, é preciso dizer, tem como base o talento e a competitividade do setor produtivo nacional — sem isso, nenhum acordo comercial e nenhuma viagem presidencial levaria a resultados como os que temos visto. Mas é também resultado de uma diplomacia comercial que voltou a funcionar.
Desde 2023, o agro brasileiro abriu 525 novos mercados no exterior, gerando aproximadamente US$ 4 bilhões em receitas cambiais adicionais, segundo dados do Ministério da Agricultura. No campo dos acordos, o Mercosul fechou tratado de livre comércio com Singapura em 2024 e com o EFTA (Noruega, Suíça, Islândia e Liechtenstein), além de encaminhar o tratado com a União Europeia.
Com os três acordos somados, o percentual de exportações brasileiras cobertas por preferências tarifárias subirá de 12,2% para 30%. É a paisagem de um país que voltou a costurar pontes onde outros desperdiçaram décadas.
É o velho instinto da diplomacia Lula em ação. O presidente, sempre que governou, viajou o mundo abrindo mercados, costurando acordos e visitando capitais que governos anteriores haviam abandonado.
Foi assim em 2003-2010, quando a expansão asiática abriu o ciclo virtuoso das commodities. E voltou a ser assim agora, num mundo fragmentado em que cada acordo bilateral, cada nova ponte tarifária e cada compra recorde importa.
Encontro com Trump e a injustiça do tarifaço
Em meio a esse panorama positivo, a relação Brasil-Estados Unidos ganha contornos particulares. Justamente quando a diplomacia brasileira se senta à mesa com Donald Trump, os números mostram um quadro que escancara a injustiça da política comercial americana em relação ao nosso país.
Nos últimos doze meses, o Brasil exportou US$ 35,50 bilhões para os EUA, mas importou US$ 43,31 bilhões — déficit de quase US$ 8 bilhões. No acumulado dos doze meses anteriores, o saldo havia sido um pequeno déficit de US$ 1,65 bilhão. Em apenas um ano, portanto, o rombo bilateral com os americanos se multiplicou por cinco.
A deterioração tem nome: tarifaço. As exportações para os EUA caíram 11,3% em abril de 2026 sobre o mesmo mês de 2025, na nona queda consecutiva após a sobretaxa de 50% imposta pelo governo Trump.
E aqui está a contradição grosseira da retórica trumpista. Trump justificou as tarifas dizendo que o Brasil se aproveitaria comercialmente dos Estados Unidos, supostamente cobrando tarifas altas dos produtos americanos.
É mentira. As tarifas brasileiras sobre importações dos EUA são, em média, irrisórias.
Mais ainda: quem tem superávit na relação são os Estados Unidos, não o Brasil. Quando se considera apenas o comércio de bens, os americanos vendem mais para o Brasil do que compram, e o nosso déficit com eles, no acumulado dos últimos doze meses, é justamente esses quase US$ 8 bilhões.
Quando se incorpora o comércio de serviços — onde os Estados Unidos vendem softwares, plataformas digitais, royalties, consultorias e remessas tecnológicas em larga escala —, esse desequilíbrio fica ainda mais expressivo.
A pauta também é reveladora. O Brasil vende para os Estados Unidos óleos brutos de petróleo, semimanufaturados de ferro/aço, café em grão e ferro fundido — uma cesta tipicamente colonial.
A única exceção honrosa de alta tecnologia são os aviões comerciais da Embraer. Em troca, o Brasil importa partes de turbinas e motores de aviação, óleo diesel e naftas petroquímicas.
A leitura é clara: nós enviamos petróleo cru e aço básico, e eles nos devolvem diesel refinado e turbinas de alto valor agregado. Trump cobra tarifas de quem já lhe é deficitário, e exporta para o Brasil produtos de muito maior valor agregado do que os que de cá importa.
O Brasil nos próximos capítulos
Mesmo diante do tarifaço e da reorganização global das cadeias de comércio, o Brasil consolida-se como uma das economias mais resilientes e ativas do mundo em desenvolvimento. O país tem hoje uma indústria farmacêutica, um setor de saúde e uma base tecnológica que ainda dependem fortemente de importações, e essas são agendas estratégicas em aberto que precisam continuar sendo enfrentadas com política industrial robusta.
Mas o que se vê no acumulado encerrado em abril de 2026 — coroado por recordes históricos em exportações, importações e corrente de comércio — é o desenho de um país resiliente, comercialmente ativo, diplomaticamente reativado e, sobretudo, sustentado por um setor produtivo competente e diversificado. Há muito o que comemorar nessas cifras, e há muito o que continuar construindo.








Cíntia Alves
11/05/2026
Que legal ver números positivos, mas é aquela coisa: comércio exterior batendo recorde enquanto a gente continua pagando o olho da cara no mercado. Cadê a contrapartida pra melhorar a vida de quem tá na ponta?
Pedro
11/05/2026
Cíntia, é isso mesmo. O agro e o minério tão bombando, mas eu quero ver esse recorde encher o tanque do meu carro mais barato ou baixar o preço do café na prateleira. A conta nunca fecha pra quem tá na batalha no dia a dia.
Rubens O Pescador
11/05/2026
Pois é, Pedro, na época do Lula o café não faltava na mesa do pobre e o tanque enchia sem pesar no bolso. Recorde de exportação não põe feijão no prato do povo, isso é cortina de fumaça.
Renato Professor
11/05/2026
Rubens, você comete o erro clássico de opor exportação a consumo interno, quando na verdade o superávit comercial é o que financia a estabilidade cambial e o poder de compra. Nostalgia não substitui teoria econômica: foi a combinação de recordes de exportação com distribuição de renda que encheu o tanque do pobre, não a ignorância sobre macroeconomia.
José dos Santos
11/05/2026
Pode até ser bonito na teoria, professor, mas na prática, enchendo o tanque do carro todo dia, a conta não fecha não. O povo tá comendo pão com ovo de novo.
Rick Ancap
11/05/2026
Recorde de exportação? Livre mercado, não estado. Imposto é roubo.
Francisco de Assis
11/05/2026
Livre mercado? O agro brasileiro só bate recorde porque o Estado financia pesquisa, cria política cambial e abre mercado internacional com diplomacia. Vocês pagam imposto até no ar que respiram, mas não querem pagar pra ter estrada?
Luiz Augusto
11/05/2026
Concordo que o mérito é do setor privado, meu caro, mas imposto não é roubo é a taxa da civilização. Sem o estado mínimo que garante contratos e segurança, o livre mercado vira terra de ninguém.
Paula Santos
11/05/2026
Que maravilha ver o Brasil colhendo frutos do trabalho honesto e da dedicação. Que Deus continue abençoando nossa nação para que esses recordes se traduzam em mais oportunidades e dignidade para todos, especialmente para os que mais precisam. Que possamos usar essa prosperidade com sabedoria e justiça, como ensina a Palavra.
Cecília Torres
11/05/2026
Paula, bonita oração, mas sugiro separarmos fé de análise de dados: esses recordes são resultados de políticas econômicas e conjuntura internacional, não de intervenção divina. Misturar devoção com indicadores objetivos só atrapalha o diagnóstico real dos problemas que ainda temos pela frente.
Carlos Mendes
11/05/2026
Cecília, gosto do seu pragmatismo, mas separar fé de economia é justamente o erro que nos trouxe ao Estado gigante que temos. Dados sem princípios éticos viram munição para estatistas maquiarem intervenções com roupagem técnica. Os recordes existem apesar das amarras, não por causa delas — e é bom lembrar que a maior parte da “conjuntura internacional” favorável foi construída por governos que respeitaram contratos e não trataram o mercado como inimigo.
Helton Barros
11/05/2026
Carlos, você acertou em cheio. Esse pragmatismo ateu é o que entrega o país nas mãos dos estatistas. Os recordes são fruto do trabalho e da bênção de Deus, não de intervenção estatal.
Paulo Ribeiro
11/05/2026
Camaradas, que tal pararmos um minuto para ir além da euforia dos números e fazer a pergunta que o editorial evitou: recordes para quem? Abril de 2026 nos brinda com uma enxurrada de estatísticas positivas – maior volume mensal de exportações desde 1989, saldo comercial estratosférico –, mas o discurso triunfalista esconde a estrutura de classe por trás desses dígitos. Como diria Mariátegui, não há economia que se sustente fora das relações sociais de produção. Se estamos exportando como nunca, precisamos indagar: o que estamos vendendo, em que condições e, sobretudo, quem está se apropriando dessa renda extraordinária? O agronegócio, que responde pela fatia majoritária desses embarques, opera com base na concentração fundiária, no trabalho análogo à escravidão e na destruição ambiental. Não me venham com o fetiche da balança comercial: recorde de exportação de soja e minério de ferro é a confirmação de nosso lugar subordinado na divisão internacional do trabalho, não um sinal de soberania.
Gramsci nos ensinou que a hegemonia se constrói também pela capacidade de fazer com que interesses particulares sejam vividos como universais. É exatamente o que ocorre aqui: a grande mídia e os porta-vozes do capital financeiro celebram os recordes como se fossem vitórias nacionais, quando, na verdade, traduzem a lucratividade de meia dúzia de conglomerados – Vale, JBS, Amaggi, Cargill – que remetem seus lucros para paraísos fiscais e deixam para o povo brasileiro o passivo ambiental e a precarização do trabalho. O superávit comercial, nesse contexto, funciona como uma cortina de fumaça para a desindustrialização acelerada que vivemos desde os anos 1990. Enquanto as exportações de commodities disparam, nossa pauta de importação se sofistica: máquinas, equipamentos, eletrônicos, insumos farmacêuticos. Trata-se da clássica síndrome de dependência que Althusser diagnosticaria como um efeito da estrutura do capitalismo periférico: quanto mais exportamos, mais nos tornamos reféns da tecnologia estrangeira e da volatilidade dos preços internacionais. Recorde não é sinônimo de desenvolvimento.
Outro aspecto que o artigo ignora solenemente é a base social que sustenta esses números. O recorde de exportação não se traduz em melhoria das condições de vida da classe trabalhadora. Pelo contrário: a reforma trabalhista de 2017, o teto de gastos e a política de juros elevados do Banco Corte (que mantém a Selic em dois dígitos para atrair capital especulativo) aprofundaram a desigualdade. O dinheiro que entra pelas exportações é esterilizado pelo sistema financeiro, que remunera títulos públicos a taxas escorchantes enquanto o Estado se desobriga de investir em saúde, educação e infraestrutura. Não é coincidência que as projeções de crescimento do PIB para 2026 fiquem na casa de 2%, muito aquém do que seria necessário para gerar empregos dignos. A euforia com os recordes de abril lembra a festa dos anos de chumbo do milagre econômico: crescimento concentrador, endividamento externo e arrocho salarial. Quem está comemorando não é o povo brasileiro, mas a fração da burguesia que sempre lucrou com a nossa condição de exportadores de natureza e importadores de civilização.
Faço minhas as palavras de Florestan Fernandes: o Brasil não será um país verdadeiramente desenvolvido enquanto não romper com o capitalismo dependente e associado que nos condena ao papel de celeiro do mundo. Recordes de exportação em abril são como fogos de artifício num navio à deriva. A pergunta central, que nenhum editorial ufanista ousa fazer, é outra: o que estamos produzindo, para quem e a que custo social e ambiental? Enquanto as pautas forem ditadas pelo mercado internacional e pelos interesses do rentismo, qualquer recorde será, no limite, a celebração do nosso atraso. É preciso disputar o sentido desses números. Não basta registrar o feito; urge desvendar a quem ele serve. E a resposta, infelizmente, é amarga: aos mesmos de sempre.
Laura Silva
11/05/2026
Paulo, concordo inteiramente com o cerne da sua análise. É raro encontrar em comentários de blog um manejo tão preciso da teoria da dependência e um olhar desfetichizado sobre os números macroeconômicos. Você acerta em cheio ao apontar que a euforia com o saldo comercial de abril é, na verdade, a celebração da nossa subordinação histórica na divisão internacional do trabalho. Não à toa, a chamada “vantagem comparativa” que nos condena ao papel de exportadores de natureza é, na verdade, a forma mais acabada da superexploração da força de trabalho e do saque dos nossos bens comuns. É sintomático que a grande imprensa omita que o tal recorde de exportações é puxado por minério de ferro e soja, cujas cadeias produtivas são marcadas por rompimentos de barragens, desmatamento ilegal e trabalho análogo à escravidão. O que o editorial chama de “vitória da balança” é, para usar um conceito caro a Ruy Mauro Marini, a transferência de valor das economias periféricas para o centro do capitalismo, mediada pela troca desigual. Cada tonelada de minério que sai do Pará carrega o sangue dos trabalhadores de Brumadinho e a água que falta à população local.
Contudo, permita-me tensionar um ponto que me parece crucial e que você, com toda a lucidez, apenas tangenciou: a materialidade da luta de classes nos poros desse recorde. Não basta denunciar o caráter dependente da nossa pauta exportadora se não desvendarmos como a burguesia interna brasileira, em aliança com o capital internacional, transformou o Estado em gestor da crise. O recorde de abril só foi possível porque, nos últimos anos, assistimos a uma ofensiva brutal contra os direitos trabalhistas e sindicais. A reforma de 2017 não foi um acidente de percurso; foi a condição política para que o agronegócio e a mineração pudessem comprimir os salários e flexibilizar as jornadas a ponto de tornar viável a extração do sobretrabalho que financia esses números. O “superávit” que você menciona é, na verdade, o resultado do arrocho salarial e da precarização. Enquanto a Vale e a JBS embolsam lucros recordes, o trabalhador rural continua sem acesso à terra, e o operário da indústria, desempregado. A desindustrialização que você denuncia não é um fenômeno externo, mas a escolha política deliberada de uma fração da burguesia que prefere o rentismo à produção nacional. O Banco Corte, ao manter os juros em dois dígitos, não está apenas atraindo capital especulativo; está drenando o fundo público para remunerar a dívida, enquanto corta investimentos em ciência e tecnologia. O resultado é que o Brasil se torna refém não apenas do preço das commodities, mas também da tecnologia importada que paga com o fruto do seu próprio saque.
Outro ponto que me incomoda na celebração rasa dos recordes é a completa ausência de uma perspectiva de classe na política econômica. O que o editorial chama de “crescimento” é, na prática, a reprodução ampliada da desigualdade. Dados recentes do IPEA mostram que a renda do trabalho caiu nos últimos meses, mesmo com o PIB crescendo puxado pelas exportações. Isso não é coincidência; é a essência do capitalismo dependente brasileiro, que Florestan Fernandes chamava de “capitalismo associado”. A burguesia local não tem projeto de nação; seu único projeto é se associar ao capital internacional e lucrar com a miséria alheia. Os recordes de abril são, portanto, o espelho da tragédia: mostram um país que produz riqueza, mas não distribui; que exporta alimentos, mas tem 33 milhões de pessoas em insegurança alimentar; que anuncia superávit, mas vê a dívida pública interna crescer. Enquanto a política econômica for pautada pelo tripé macroeconômico (superávit primário, câmbio flutuante e juros elevados), estaremos fadados a repetir o ciclo do “milagre” dos anos 1970: crescimento concentrador seguido de crise. A pergunta que fica, e que nenhum editorial ufanista ousa fazer, é: até quando a classe trabalhadora aceitará bancar com o próprio empobrecimento um recorde que não lhe pertence?
Por fim, acho importante resgatar o que você mencionou sobre Gramsci. A hegemonia do capital financeiro sobre o Estado brasileiro não é apenas econômica, é cultural e ideológica. O discurso do “orgulho de ser agro” e do “Brasil celeiro do mundo” é a forma mais grotesca de fetichismo da mercadoria. Ele transforma o latifúndio em símbolo de eficiência e o veneno químico em tecnologia. Disputar os números de abril é, antes de tudo, disputar o imaginário nacional. Enquanto a esquerda não for capaz de traduzir a crítica da economia política em uma narrativa que toque o cotidiano do trabalhador — que sente no preço do arroz o custo do recorde da soja —, os fogos de artifício continuarão encobrindo o navio à deriva. Sua intervenção, Paulo, é um passo importante nessa disputa, mas precisamos ir além da denúncia. Precisamos de organização política para romper com o ciclo da dependência. É o que Florestan nos legou como tarefa: construir um projeto de desenvolvimento que não seja o avesso do subdesenvolvimento, mas a superação do capitalismo que nos condena a ser eternamente o celeiro do mundo.
Lucas Gomes
11/05/2026
Laura, sua análise é cirúrgica e concordo plenamente: o recorde de abril não é vitória, é a fotografia do nosso atraso. Enquanto a esquerda não escancarar que o “crescimento” das exportações é, na verdade, o salário do trabalhador sendo comprimido e a terra sendo envenenada, continuaremos celebrando a própria miséria.
Beatriz Lima
11/05/2026
Laura, você escreveu um comentário que é, ao mesmo tempo, um primor de erudição e uma aula de como enterrar um debate debaixo de uma pilha de citações. Vamos combinar: ninguém aqui está discutindo se a teoria da dependência explica o Brasil melhor que um manual de economia da FGV. Sim, a pauta exportadora é um atestado de óbito do projeto de desenvolvimento nacional, sim, a reforma trabalhista de 2017 foi um presente para o patronato, e sim, o lucro da Vale não paga a conta de água de quem mora em Brumadinho. Isso tudo é verdade e é repetido em todo seminário de pós-graduação das ciências sociais desde 2015. O problema, minha cara, é que você escreve como se estivesse discursando para uma plateia de fantasmas de Florestan Fernandes — e o cidadão comum, que sente o preço do arroz subir, não está nem aí para a taxa de exploração da mais-valia. Ele quer saber por que o dinheiro não chega no fim do mês. E aí, nesse ponto, o seu arsenal teórico vira fogos de artifício: impressiona, ilumina, mas não esquenta ninguém.
Outra coisa: você joga um monte de conceitos pesados — hegemonia cultural, fetichismo da mercadoria, capitalismo dependente — mas pulou o essencial: a política concreta. Você diz que a burguesia brasileira não tem projeto de nação e que a esquerda precisa disputar o imaginário nacional. Beleza. Mas com qual candidatura? Com qual proposta de reforma tributária? Com qual estratégia para quebrar o monopólio do agronegócio na pauta exportadora sem fuzilar a arrecadação do Estado? Você crítica a euforia com o saldo comercial de abril, mas não oferece uma alternativa de curto prazo para o país pagar suas contas sem usar soja e minério. Porque, convenhamos, enquanto não houver um projeto de reindustrialização que saia do papel, a economia brasileira vai continuar exportando natureza e importando tecnologia — e nenhuma denúncia, por mais brilhante que seja, vai mudar isso sozinha.
Só que vou te dar um desconto, porque você fez o que a maioria não faz: saiu do lugar-comum dos comentários de blog e jogou o debate para um campo mais denso. Só não se esqueça de que a luta de classes não se vence com citação bem colocada. Ela se vence com organização, e organização não é sinônimo de mais um texto recheado de autores mortos. É sujar as mãos no jogo político real, com alianças contraditórias e concessões que nenhum manual do Marini ensina. Fora isso, seu comentário é um excelente material para o próximo seminário do mestrado. Para o blog, é leitura obrigatória — mas com uma pitada de sal no pé, porque o risco de virar autoajuda marxista é grande.
João Pereira
11/05/2026
Recordes de exportação sempre chamam atenção, mas é bom ir além dos números. Se esse volume recorde for puxado basicamente por commodities, o fôlego pode ser curto e a dependência externa continua alta. O importante agora é saber se a pauta exportadora está se diversificando ou se é só mais um pico de preços e quantidade de soja e minério.
Mariana Ambiental
11/05/2026
Exato, João. Recorde de soja e minério não é diversificação, é aposta no mesmo cavalo manco. Enquanto a pauta exportadora não incluir agroecologia, bioindústria e tecnologia limpa, estamos só trocando o pico de preço por mais dependência externa.
Nadia Petrova
11/05/2026
Perfeita observação, João. O ufanismo com recordes de commodities sempre me lembra aquela piada do bêbado que comemora ter achado a chave debaixo do poste, mesmo tendo perdido no escuro. Enquanto a pauta exportadora não se diversificar com reformas liberalizantes de verdade, continuaremos trocando soja por tecnologia chinesa.
Eduardo Teixeira
10/05/2026
Recordes de exportação são ótimos, mas cadê a contrapartida? Enquanto a gente bate recorde vendendo commodities, a carga tributária absurda e o custo Brasil continuam matando a indústria e o pequeno empresário. Menos imposto na cadeia produtiva e mais liberdade econômica, aí sim esses números refletiriam riqueza de verdade no bolso do trabalhador.
Tonho Patriota
10/05/2026
Ah, Eduardo, tá reclamando de imposto enquanto o PT enche o cu de dinheiro com esses recordes, vai tomar no cu e faz o L, seu comunista!
Mariana Oliveira
10/05/2026
Eduardo, você toca num ponto que é central para o debate econômico, mas sua análise ignora as camadas estruturais que determinam quem realmente se beneficia desses recordes. Quando você pede “menos imposto na cadeia produtiva e mais liberdade econômica”, está reproduzindo uma narrativa liberal clássica que trata o Estado como um mero entrave, sem considerar que a carga tributária brasileira é regressiva justamente porque recai desproporcionalmente sobre o consumo das classes trabalhadoras, enquanto o capital financeiro e o agronegócio exportador gozam de isenções e subsídios bilionários. A contradição é que esses mesmos recordes de exportação de commodities que você celebra são alimentados por uma estrutura fundiária concentrada, trabalho análogo à escravidão ainda presente em cadeias produtivas e um modelo extrativista que aprofunda desigualdades regionais e raciais. Kimberlé Crenshaw nos ensina que as opressões se interseccionam: o pequeno empresário que você menciona não é um sujeito universal — há uma diferença brutal entre o dono de uma microempresa periférica, sufocado por juros e burocracia, e o grande produtor rural que exporta soja com incentivos fiscais enquanto despeja agrotóxicos em comunidades quilombolas.
A noção de “liberdade econômica” que você defende, se não for acompanhada de uma crítica ao poder monopolista e à financeirização, acaba servindo como cortina de fumaça para a precarização do trabalho e a desregulamentação ambiental. bell hooks, em “Ensinando a Transgredir”, nos lembra que a verdadeira liberdade só é possível quando reconhecemos as interdependências e responsabilidades coletivas. O “custo Brasil” que você critica é, em grande parte, o custo de manter uma infraestrutura mínima de direitos — previdência, saúde, educação — que, por mais sucateada que esteja, ainda é o que impede que milhões caiam na miséria absoluta. O problema não é o tamanho do Estado, mas para quem ele serve: enquanto a reforma tributária patina no Congresso, os mais ricos continuam pagando proporcionalmente menos impostos do que a dona de casa que compra arroz e feijão. Você quer menos imposto na cadeia produtiva? Ótimo, desde que isso venha acompanhado de tributação sobre lucros e dividendos, heranças e grandes fortunas — aí sim teríamos um debate honesto sobre redistribuição.
Por fim, seu comentário revela uma armadilha discursiva comum: a ideia de que o trabalhador verá riqueza no bolso se simplesmente desregulamentarmos a economia. A história recente do Brasil mostra o contrário — durante o governo Temer e a reforma trabalhista, tivemos mais “liberdade econômica” e o resultado foi o aumento do trabalho intermitente, da informalidade e da rotatividade, sem qualquer ganho real de renda para a base da pirâmide. O recorde de exportações não reflete riqueza no bolso do trabalhador porque o modelo econômico brasileiro é colonial e dependente: vendemos barato o que a natureza nos dá e compramos caro tecnologia e manufaturados. Enquanto não enfrentarmos a concentração de terra, a desigualdade racial e de gênero no mercado de trabalho e a dívida pública que drena recursos para o rentismo, qualquer discussão sobre “custo Brasil” será apenas mais um capítulo da mesma história de exclusão. O pequeno empresário que você defende merece crédito, infraestrutura e educação de qualidade, não um Estado mínimo que o deixe à mercê dos monopólios e dos juros abusivos.
Cecília Ramos
10/05/2026
Que notícia maravilhosa! Mas esses recordes só vão fazer sentido se o dinheiro dessas exportações chegar na mesa do povo que mais precisa. Espero que o governo use esse superávit para fortalecer o SUS, a educação e os programas de combate à fome, e não apenas para engordar o agronegócio que destrói nossos biomas.
João Carlos da Silva
10/05/2026
Cecília, sua ponderação é precisa e necessária. Como diria Paulo Freire, não basta produzir riqueza; é preciso que ela sirva à humanização e à justiça social. O superávit não pode ser um fetiche contábil que escamoteie a concentração de renda e a devastação ambiental — ou estaremos apenas repetindo o ciclo de desenvolvimento excludente que Gramsci denunciou.
Gabriel Teen
10/05/2026
Ah, lá vem o João metido a intelectual de Twitter, citando Freire e Gramsci pra encher o saco de quem só queria ver os recordes de abril.
Carmem Souza
10/05/2026
Que bênção ver o Brasil colhendo frutos do trabalho e da providência divina. Esses recordes mostram que, com ética e responsabilidade, podemos crescer sem perder os valores. Que Deus continue abençoando nossa nação para que esse progresso chegue a todos, especialmente aos mais necessitados.
Fernanda Oliveira
10/05/2026
Carmem, agradeço pelo comentário, mas é bom lembrar que esses recordes também são fruto de políticas econômicas controversas e de um mercado global favorável, não apenas de virtudes. A fé é um conforto legítimo, mas a análise precisa separar o que é mérito da gestão do que é sorte ou contexto externo.
Maria Silva
10/05/2026
Amém, Carmem! É bonito ver que dá para conciliar crescimento econômico com princípios. Tomara que esses números realmente cheguem na ponta, onde o povo mais precisa.
João Carvalho
10/05/2026
O otimismo com esses números recordes é compreensível, mas precisamos ir além do ufanismo. O que realmente importa é saber se esse superávit está sendo acompanhado por uma distribuição mais justa da renda e por uma redução da desigualdade histórica. Do contrário, corremos o risco de celebrar um crescimento que beneficia apenas o agronegócio exportador e o setor financeiro, enquanto a maioria da população continua lutando contra a precarização do trabalho e o desmonte do Estado.
Eduardo Nogueira
10/05/2026
Distribuição de renda? Enquanto a esquerda chora, o agro paga suas contas. Desigualdade é o preço de não estudar e querer viver de bolsa família.
Letícia Fernandes
10/05/2026
Eduardo, seu comentário é um retrato quase didático do que Gramsci chamava de “consciência contraditória” — o trabalhador que repete os argumentos de seus algozes como se fossem seus. Você reduz a desigualdade a uma questão de mérito individual, como se o Brasil fosse uma planície de oportunidades iguais onde uns escolhem “não estudar” e outros, heroicamente, “pagam as contas com o agro”. Essa narrativa ignora que o agronegócio brasileiro é um dos setores mais concentrados e subsidiados pelo Estado burguês: segundo dados do IPEA, os 10% maiores produtores rurais detêm mais de 70% dos financiamentos públicos do Plano Safra, enquanto a agricultura familiar, que produz a maior parte dos alimentos que chegam à sua mesa, sobrevive com migalhas. O “mérito” do agro é, na verdade, uma herança colonial de latifúndio, trabalho análogo à escravidão e isenções fiscais que custam aos cofres públicos dezenas de bilhões por ano — dinheiro que poderia financiar educação, saúde e, sim, programas de transferência de renda que mantêm milhões de pessoas vivas enquanto a máquina de acumulação capitalista as descarta.
Você trata o Bolsa Família como se fosse um prêmio à preguiça, mas desconhece — ou prefere ignorar — que 70% dos beneficiários são mulheres, muitas delas chefes de família monoparental, que trabalham em empregos informais, precários e mal remunerados. O programa não é um “viver de”; é um piso mínimo de sobrevivência em um país onde o salário mínimo real, quando corrigido pela inflação dos pobres, mal cobre um mês de aluguel e cesta básica. A desigualdade não é “preço de não estudar”; é o resultado de um sistema que concentra renda e propriedade de forma violenta desde a formação social brasileira. Estudo não garante mobilidade quando o filho do trabalhador rural estuda em escola sem esgoto e o filho do latifundiário estuda em Harvard. A meritocracia é a teologia da classe dominante: ela serve para culpar o oprimido por sua própria opressão.
Por fim, sua fala revela uma pena patológica — não pelos que passam fome, mas pelos que lucram com a fome alheia. Você defende um modelo que, em abril, quebrou recordes de exportação de commodities enquanto 33 milhões de brasileiros não tinham o que comer. O agro “paga as contas” de quem? Dos bancos que financiam suas dívidas? Dos acionistas que embolsam dividendos recordes? Porque as contas da maioria da população — aluguel, luz, água, comida — estão cada vez mais impagáveis. Enquanto você repete o discurso do mérito, sugiro uma leitura de “Os Donos do Poder”, de Raymundo Faoro, ou, se preferir algo mais direto, “A Economia da Desigualdade”, de Thomas Piketty. A realidade é mais complexa do que o bordão de que “pobre é pobre porque quer”.
João Carlos Silva
10/05/2026
É impressionante esses números todos, mas a realidade aqui na rua é outra. O diesel continua nas alturas, o frete não sobe na mesma proporção e a gente vive no aperto. Enquanto o agro bate recorde, o custo de vida do trabalhador não dá trégua.
Marta Souza
10/05/2026
João, o problema não é o agro bater recorde, é o governo meter a mão no bolso do produtor e do transportador com imposto em cada etapa. Se o diesel sobe, é porque a carga tributária e a intervenção estatal não deixam o mercado respirar. O trabalhador só vai ter alívio quando deixarem a economia girar livre, sem esse Estado-pai que só sabe atrapalhar.
Ana Karine Xavante
10/05/2026
Impressionante como esses números são celebrados como vitória unânime, sem que se pergunte: vitória para quem? O recorde de exportações de abril é, sim, um feito estatístico, mas precisamos escavar o que está por trás dessa euforia de mercado. Estamos falando de um volume recorde de commodities — soja, minério de ferro, petróleo. Isso significa, na prática, mais áreas de monocultura avançando sobre o Cerrado e a Amazônia, mais pressão sobre os territórios indígenas, mais rios contaminados por defensivos agrícolas. O Brasil está queimando seu futuro para alimentar a balança comercial do agronegócio, e esse modelo extrativista é a continuidade do colonialismo: a metrópole (agora a China e a Europa) continua sugando nossos recursos naturais enquanto as comunidades locais arcam com os custos ambientais e sociais.
O discurso oficial trata esses recordes como prova de que o país está “crescendo”, mas é um crescimento concentrador e predatório. A pauta exportadora brasileira é cada vez mais primarizada, ou seja, estamos regredindo a uma economia de colônia, vendendo matéria-prima bruta e importando tecnologia e manufaturados com valor agregado. Cadê a política industrial? Cadê a transição energética real? Enquanto isso, as populações tradicionais — ribeirinhos, quilombolas, indígenas como eu — são empurradas para margens cada vez menores, com seus modos de vida destruídos em nome do PIB. O recorde de abril não é um feito a ser comemorado, é um sinal de alerta de que estamos aprofundando o modelo que nos condena à dependência e à devastação.
E não vamos nos enganar com o ufanismo do “Brasil celeiro do mundo”. Celeiro do mundo para quem? Para o mercado internacional de commodities, que se beneficia de preços altos e da desregulação ambiental. A política de câmbio desvalorizado e os incentivos fiscais ao agronegócio são escolhas deliberadas que privilegiam o grande capital exportador em detrimento da agricultura familiar, da reforma agrária e da soberania alimentar. Enquanto o país celebra recordes de exportação, milhões de brasileiros passam fome e não têm acesso a alimentos saudáveis. Esse é o verdadeiro custo do desenvolvimento que nos é vendido como sucesso.
Precisamos de um debate honesto sobre o que significa desenvolvimento. Não é sobre recordes de volume, mas sobre qualidade de vida, justiça climática e respeito aos direitos dos povos originários. O que abril nos mostrou foi a força de um modelo que precisa ser urgentemente superado. Não se trata de ser contra o comércio exterior, mas de exigir que ele sirva ao povo brasileiro e não apenas aos lucros de meia dúzia de multinacionais e latifundiários. Enquanto não houver reforma agrária, demarcação de terras indígenas e uma política industrial verde e soberana, esses recordes serão apenas a contabilidade do nosso próprio esgotamento.
Marta
10/05/2026
Ana Karine, minha filha, que aula primorosa você nos deu aqui! Sente aqui do lado da tia Marta, pega um café que eu vou te contar um segredo: você acertou em cheio no diagnóstico, mas deixou escapar um detalhe que faz toda a diferença. Esse modelo predatório que você descreveu com tanta lucidez não é invenção desse governo, não. É a continuidade do projeto de Brasil que os meninos mal-educados do mercado financeiro e seus lacaios na política vêm empurrando goela abaixo desde sempre. O que você vê nesses recordes de abril é o mesmo esqueleto do colonialismo que denunciou, mas agora com a roupa nova do “agronegócio eficiente” que a turma do “Brasil acima de tudo” adora vestir. A diferença, minha querida, é que enquanto os fascistas comemoram esses números como se fossem troféus de caça, o governo Lula, com todos os seus defeitos e contradições, ao menos colocou na mesa o debate que você está propondo: reforma agrária, demarcação de terras indígenas, política industrial verde. Não é perfeito, longe disso, mas é a primeira vez em seis anos que alguém no poder ousa chamar o modelo de exaustão pelo nome.
Você tem toda razão ao dizer que a pauta exportadora brasileira é primarizada e que estamos vendendo o futuro para alimentar a balança comercial. Mas me diga uma coisa: você acha que esse recorde de abril teria sido diferente se estivéssemos sob o governo anterior, que entregou o Ministério do Meio Ambiente para um madeireiro e a Funai para um ruralista? O que mudou, na prática, é que agora temos um arcabouço legal que tenta, ainda que de forma titubeante, colocar freios nessa sanha exportadora. O Plano Safra atual, por exemplo, tem linhas de crédito específicas para agricultura familiar e práticas agroecológicas. Não é o suficiente, claro, mas é o começo de uma briga que estava totalmente perdida. O problema, Ana Karine, não é o recorde em si, é a narrativa que tentam construir em cima dele. A direita quer vender esses números como prova de que o Brasil “funciona” sem regulação, enquanto a esquerda precisa aprender a usar esses mesmos números para exigir que o crescimento sirva ao povo, não ao capital. Você está certíssima em denunciar o ufanismo vazio, mas não podemos jogar o bebê fora junto com a água do banho.
E olha, minha filha, você tocou num ponto que me dói fundo: a fome no meio da fartura. Enquanto celebramos recordes de exportação de soja, o brasileiro médio paga cada vez mais caro pelo arroz e feijão. Isso não é coincidência, é projeto. O agronegócio não produz alimento, produz commodity. E commodity não enche barriga de pobre, enche o bolso de acionista. Mas aí eu te pergunto: quem foi que, nos últimos quatro anos, desmontou os estoques reguladores da Conab? Quem acabou com a política de preços mínimos? Quem entregou a política agrícola para o mercado? Não foi o Lula, não, foram os meninos mal-educados do governo anterior, que achavam que o Estado não devia interferir no “livre mercado”. Agora estamos tentando reconstruir o que desmontaram, e é um trabalho de formiguinha. O que você propõe no final do seu comentário — reforma agrária, demarcação de terras, política industrial verde — é exatamente o que está no horizonte desse governo, mas que enfrenta uma oposição feroz de quem lucra com o caos. Então, minha querida, não caia na armadilha de achar que criticar o modelo é criticar o governo que tenta mudá-lo. A crítica é necessária, sim, mas ela precisa vir acompanhada da compreensão de que estamos numa guerra de narrativas e de projetos de país. E nessa guerra, o seu texto é uma arma poderosa, mas não pode ser usada para atirar nos aliados.
Por fim, deixa a tia Marta dar um conselho de quem já viu muito menino mal-educado passar por aqui: não deixe que a perfeição seja inimiga do possível. O governo Lula não vai virar a mesa do dia para a noite, porque a mesa está ocupada por uma bancada ruralista fortíssima, um mercado financeiro que não dorme e uma mídia que adora celebrar recordes sem perguntar “para quem”. Mas o simples fato de você poder escrever esse texto num blog, sem ser perseguida, sem ter seu território invadido, sem ser calada, já é uma conquista que não existia há três anos. O que você denuncia é real, é urgente e precisa ser combatido. Mas o combate se faz na rua, na universidade, no Congresso e também na hora de votar. Porque, no fim das contas, a diferença entre um governo que tenta conter o monstro e um governo que alimenta o monstro é a diferença entre a vida e a morte para os povos originários e para o futuro do planeta. Continue escrevendo, continue lutando, mas não perca a noção de quem é o inimigo. E o inimigo, minha filha, não é o Lula. O inimigo é o mesmo de sempre: o capital que devora tudo e todos, e que adora ver a esquerda briguenta se digladiando enquanto ele continua sugando o Cerrado e a Amazônia. Um abraço apertado dessa professora que se orgulha de ter alunas como você.
Ahmed El-Sayed
10/05/2026
Ana Karine, seu discurso é o lamento típico de quem confunde progresso com pecado. O recorde de abril é vitória do trabalho e da capacidade produtiva do Brasil, não do “colonialismo” que você inventa. Enquanto você chora por “soberania alimentar”, o agro alimenta o mundo e gera divisas que sustentam o país; sem esse modelo, o que sobra é a miséria ideológica que prega o atraso.
Ana Souza
10/05/2026
Ana, você trouxe um contraponto necessário. Esses recordes realmente escancaram a contradição de um país que bate metas de exportação enquanto devasta biomas e ignora a fome interna. Mas será que o caminho é demonizar o agronegócio ou exigir regulação e políticas que redistribuam seus ganhos? O debate precisa mesmo sair do ufanismo, mas também evitar cair num maniqueísmo que jogue fora o bebê junto com a água.
Bandoleiro
10/05/2026
Ai o recorde: https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2026-05/rendimento-dos-mais-ricos-e-138-vezes-maior-que-o-dos-mais-pobres
Cláudio Ribeiro
10/05/2026
Meu caro Bandoleiro, que fineza citar a Agência Brasil, justamente o veículo que documenta o governo que você critica. O dado que você traz é real e preocupante, mas sua leitura é rasa: a desigualdade estrutural brasileira é uma ferida histórica, não uma invenção do governo Lula. Enquanto você se apega a um recorte, os recordes de abril mostram crescimento real da massa salarial, queda do desemprego e aumento do consumo popular — indicadores que, na dialética gramsciana, apontam para uma disputa de hegemonia que, aos poucos, começa a favorecer os de baixo.