Em conversa com o apresentador Daniel Davis, Alastair Crooke, ex-diplomata britânico e analista geopolítico, classificou como absurda a estratégia do presidente Donald Trump de pressionar o Irã para obter concessões no acordo nuclear. Segundo Crooke, a insistência de Washington em tratar o Irã como um ‘arcebispo do diabo’ e responsável pelo terrorismo mundial ignora a complexidade das negociações e pode inviabilizar qualquer avanço diplomático.
O analista detalhou que o memorando de entendimento atual limita o envolvimento da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) apenas ao urânio enriquecido a 60%, cerca de 430 quilos. Se houver um acordo final, esse material poderá ser diluído para 3,67%, mas a AIEA não terá um papel abrangente em todo o processo. ‘A questão nuclear ainda não está sendo discutida em detalhes’, afirmou Crooke, destacando que a estratégia de Trump de impor mais pressão sobre Teerã é um erro estratégico.
Além disso, Crooke apontou que o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, precisa do endosso de Trump para as próximas eleições e busca uma visita a Washington antes de setembro para assinar um acordo de segurança que, na prática, daria a Israel um controle sem precedentes sobre o Pentágono e as forças armadas dos EUA. Essa manobra, observou, é vista por muitos como uma tentativa de consolidar seu legado.
A conversa também mergulhou na guerra na Ucrânia, onde Crooke vê uma escalada muito perigosa. Relatórios indicam que Trump teria dado sinal verde para que o presidente Volodymyr Zelensky agisse de forma mais agressiva, incluindo ultimatos a Belarus e ataques dentro do território russo. ‘Estamos caminhando para uma escalada séria’, disse Crooke, que lembrou a declaração do porta-voz de Putin de que a Rússia abandonou as negociações e buscará a vitória militar.
O diplomata alertou que a Europa, liderada por países como Reino Unido, França e Alemanha, está produzindo mísseis de longo alcance e adotando uma retórica belicosa que ignora os riscos. ‘Os russos estão ouvindo essa linguagem e se preparando para a guerra’, afirmou. Crooke destacou que Moscou já divulgou listas de fábricas europeias que se tornaram alvos legítimos e não descarta o uso de armas nucleares táticas se os ataques com mísseis continuarem. ‘Não há estadistas na Europa que façam as perguntas básicas: por que uma guerra com a Rússia beneficiaria os europeus?’, questionou.
Por fim, Crooke lamentou a falta de debate público e o controle da mídia na Europa, que suprime vozes dissidentes. Ele acredita que a única mudança possível viria por meio de eleições, mas partidos como o AfD na Alemanha estão sob ameaça de banimento, apesar de serem os mais populares. ‘Todas as pontes para o futuro foram quebradas. Se não se pode mudar pelo voto, a violência se torna inevitável’, concluiu.

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