Líbano pede pressão dos EUA sobre Israel para cessar bombardeios

A situação no terreno contradiz a trégua anunciada pelo presidente dos EUA, Donald Trump, em 16 de abril / Reuters

Com 74 mortos em três dias e mais de 2.800 desde março, crise humanitária avança enquanto negociações diplomáticas seguem em curso

O presidente libanês Joseph Aoun pediu diretamente aos Estados Unidos que pressionem Israel a interromper os ataques militares e as demolições de casas no sul do Líbano. O apelo aconteceu nesta segunda-feira durante uma reunião com Michel Issa, embaixador americano em Beirute. Segundo nota divulgada pela presidência libanesa, Aoun “enfatizou a necessidade de pressionar Israel para que cesse os disparos e as operações militares, bem como a destruição e o arrasamento de casas”.

A situação no terreno contradiz a trégua anunciada pelo presidente dos EUA, Donald Trump, em 16 de abril. Desde então, os confrontos continuam, especialmente na faixa sul do Líbano, onde Israel mantém uma zona de segurança autodeclarada. O governo israelense afirma que a ocupação visa proteger o território contra novos ataques do grupo xiita Hezbollah.

O encontro entre Aoun e Issa também abordou a terceira rodada de negociações entre representantes libaneses e israelenses, prevista para ocorrer nos dias 14 e 15 de maio em Washington. O Departamento de Estado americano confirmou que facilitará o encontro. A delegação do Líbano terá à frente o ex-embaixador em Washington Simon Karam, indicado pelo próprio Aoun, que se reuniu com ele no sábado para repassar as diretrizes da missão.

O Ministério da Saúde do Líbano divulgou dados alarmantes: 74 pessoas morreram em ataques israelenses nos últimos três dias. Um dos episódios mais letais ocorreu na cidade de Saksakiyeh, no sul do país, onde pelo menos sete pessoas perderam a vida em um único bombardeio. Um porta-voz da pasta confirmou as informações.

Desde o recrudescimento do conflito em 2 de março — quando o Hezbollah voltou a atacar Israel em solidariedade ao Irã —, o número total de mortos chegou a 2.869, segundo o relatório. Entre as vítimas estão 584 profissionais de saúde, mulheres e menores de idade. O levantamento, no entanto, não distingue combatentes de civis.

Israel afirma que, desde março, o Hezbollah disparou centenas de foguetes e drones em direção ao território israelense. Por sua vez, o governo israelense contabiliza 17 soldados mortos no sul do Líbano e dois civis mortos no norte de Israel.

Além das baixas, o conflito deslocou cerca de 1,2 milhão de pessoas dentro do Líbano. Grande parte delas fugiu da região sul, hoje em disputa entre o exército israelense e as milícias do Hezbollah.

Israel justifica as demolições afirmando que combatentes do Hezbollah se infiltraram em áreas residenciais civis. As autoridades israelenses dizem agir contra essa presença armada, mas a prática gera forte reação do governo libanês e de organizações humanitárias.

Na semana passada, Israel realizou o primeiro ataque ao subúrbio sul de Beirute — território controlado pelo Hezbollah — desde a declaração do cessar-fogo em abril. Segundo o governo israelense, o strike eliminou o comandante da força de elite Radwan, do Hezbollah. O grupo não confirmou a morte do oficial.

O Hezbollah, por sua vez, se opõe às negociações diplomáticas entre Beirute e Tel Aviv. O grupo exigiu que o governo libanês cancele as conversações. A decisão de Beirute de manter o diálogo direto com Israel expõe uma divisão profunda dentro do Líbano: de um lado, setores que veem na diplomacia uma saída; de outro, críticos que acusam o Hezbollah de ter arrastado o país para uma guerra sem o consentimento popular.

O conflito no Líbano se insere em um quadro regional mais amplo. O Irã — que apoia e financia o Hezbollah — afirmou ter apresentado uma proposta aos EUA para encerrar o estado de guerra, incluindo garantias de segurança para o Líbano e a reabertura do Estreito de Ormuz, rota vital para o transporte de petróleo. Trump, porém, rejeitou a proposta iraniana.

Em Washington, o governo americano tenta equilibrar sua posição: mantém o apoio a Israel, mas ao mesmo tempo conduz rodadas de negociação diplomática e recebe pressão de aliados para conter a escalada militar. As conversações previstas para 14 e 15 de maio representam, por ora, o canal mais concreto de diálogo entre as partes.

Até lá, o Líbano segue enterrando seus mortos.

Com informações de Reuters* 

Rhyan de Meira: Rhyan de Meira é jornalista pela Universidade Federal Fluminense, escreve sobre política, economia e carnaval. É repórter, redator e editor dos site O Cafezinho e Rio Carta. / Contato: Redes: @rhyandemeira / Email: rhyandemeira@hotmail.com
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