A dívida externa do Senegal atingiu um nível que os próprios economistas do país descrevem como insustentável, paralisando qualquer política pública de investimento.
Diante desse quadro, uma conferência reuniu especialistas em Dakar para propor caminhos que fujam das receitas tradicionais das instituições financeiras internacionais. O alvo central das críticas foi o Fundo Monetário Internacional (FMI), com quem o governo senegalês negocia há mais de um ano sem chegar a um acordo sobre a retomada de um empréstimo.
O encontro foi organizado sob o patrocínio do primeiro-ministro Ousmane Sonko, que não compareceu à abertura por razões de saúde, segundo informou a ministra da Justiça, Yacine Fall. Em seu lugar, discursou o presidente do grupo parlamentar do Pastef — Patriotas Africanos do Senegal para o Trabalho, a Ética e a Fraternidade —, Ayib Daffé, que defendeu a urgência de ampliar perspectivas e sair do pensamento único.
A referência era direta ao impasse com o FMI, que propõe a reestruturação da dívida senegalesa diante da incapacidade de pagamento. Dakar rejeita essa saída, e a conferência, organizada pelo grupo de reflexão Ideas Africa Network, foi convocada para explorar o que os participantes chamam de alternativas reais ao modelo imposto pelas instituições de Bretton Woods.
O economista Souleymane Bah foi direto ao expor o nó fiscal do país: “As receitas do Estado atualmente não permitem pagar o principal e os juros. O que fazem normalmente é tomar emprestado para pagar — com as taxas de juros continuando a subir, isso não é solução alguma.” A lógica de endividamento em espiral é exatamente o ciclo que os participantes da conferência querem romper.
O pesquisador e economista Ndongo Samba Sylla, também do Ideas Africa Network, foi ainda mais contundente. Segundo ele, a abordagem do FMI é oposta à transformação econômica e funciona de forma puramente contábil e pró-credor, voltada a garantir que o país continue pagando credores — não a investir no desenvolvimento nacional.
Entre as propostas debatidas estão a reforma do sistema monetário regional e a saída do Franco CFA, moeda herdada do colonialismo francês e atrelada ao euro. Os participantes também defenderam o cancelamento de parte da dívida considerada ilegítima, por ter sido contraída de forma opaca pelo governo anterior sem declaração formal.
A conferência expôs uma tensão interna no próprio governo senegalês. Enquanto os especialistas debatiam em Dakar caminhos fora do FMI, o presidente Bassirou Diomaye Faye estava em Nairóbi, no Quênia, reunido com a diretora-geral do fundo, Kristalina Georgieva — sem que qualquer avanço concreto tenha sido anunciado. O duplo movimento revela a contradição entre o discurso soberanista do governo e a pressão real dos mercados e credores internacionais.
A agência de classificação de risco Standard & Poor’s já havia rebaixado a nota de crédito do Senegal, sinalizando risco de crescimento ainda maior da dívida pública, conforme reportou a Rádio França Internacional (RFI). O cenário coloca o governo diante de uma escolha cada vez mais difícil: aceitar as condições do FMI — com seus cortes e ajustes fiscais — ou apostar em alternativas soberanas que ainda carecem de financiamento concreto e articulação política regional para se tornarem viáveis.
Com informações de RFI.
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