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Economistas reunidos em Dakar rejeitam FMI e propõem alternativas soberanas para a crise da dívida do Senegal

5 Comentários🗣️🔥 Especialistas e economistas participam de conferência sobre a crise da dívida do Senegal. (Foto: © RFI/Léa-Lisa Westerhoff) A dívida externa do Senegal atingiu um nível que os próprios economistas do país descrevem como insustentável, paralisando qualquer política pública de investimento. Diante desse quadro, uma conferência reuniu especialistas em Dakar para propor caminhos que […]

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Especialistas e economistas participam de conferência sobre a crise da dívida do Senegal. (Foto: © RFI/Léa-Lisa Westerhoff)

A dívida externa do Senegal atingiu um nível que os próprios economistas do país descrevem como insustentável, paralisando qualquer política pública de investimento.

Diante desse quadro, uma conferência reuniu especialistas em Dakar para propor caminhos que fujam das receitas tradicionais das instituições financeiras internacionais. O alvo central das críticas foi o Fundo Monetário Internacional (FMI), com quem o governo senegalês negocia há mais de um ano sem chegar a um acordo sobre a retomada de um empréstimo.

O encontro foi organizado sob o patrocínio do primeiro-ministro Ousmane Sonko, que não compareceu à abertura por razões de saúde, segundo informou a ministra da Justiça, Yacine Fall. Em seu lugar, discursou o presidente do grupo parlamentar do Pastef — Patriotas Africanos do Senegal para o Trabalho, a Ética e a Fraternidade —, Ayib Daffé, que defendeu a urgência de ampliar perspectivas e sair do pensamento único.

A referência era direta ao impasse com o FMI, que propõe a reestruturação da dívida senegalesa diante da incapacidade de pagamento. Dakar rejeita essa saída, e a conferência, organizada pelo grupo de reflexão Ideas Africa Network, foi convocada para explorar o que os participantes chamam de alternativas reais ao modelo imposto pelas instituições de Bretton Woods.

O economista Souleymane Bah foi direto ao expor o nó fiscal do país: “As receitas do Estado atualmente não permitem pagar o principal e os juros. O que fazem normalmente é tomar emprestado para pagar — com as taxas de juros continuando a subir, isso não é solução alguma.” A lógica de endividamento em espiral é exatamente o ciclo que os participantes da conferência querem romper.

O pesquisador e economista Ndongo Samba Sylla, também do Ideas Africa Network, foi ainda mais contundente. Segundo ele, a abordagem do FMI é oposta à transformação econômica e funciona de forma puramente contábil e pró-credor, voltada a garantir que o país continue pagando credores — não a investir no desenvolvimento nacional.

Entre as propostas debatidas estão a reforma do sistema monetário regional e a saída do Franco CFA, moeda herdada do colonialismo francês e atrelada ao euro. Os participantes também defenderam o cancelamento de parte da dívida considerada ilegítima, por ter sido contraída de forma opaca pelo governo anterior sem declaração formal.

A conferência expôs uma tensão interna no próprio governo senegalês. Enquanto os especialistas debatiam em Dakar caminhos fora do FMI, o presidente Bassirou Diomaye Faye estava em Nairóbi, no Quênia, reunido com a diretora-geral do fundo, Kristalina Georgieva — sem que qualquer avanço concreto tenha sido anunciado. O duplo movimento revela a contradição entre o discurso soberanista do governo e a pressão real dos mercados e credores internacionais.

A agência de classificação de risco Standard & Poor’s já havia rebaixado a nota de crédito do Senegal, sinalizando risco de crescimento ainda maior da dívida pública, conforme reportou a Rádio França Internacional (RFI). O cenário coloca o governo diante de uma escolha cada vez mais difícil: aceitar as condições do FMI — com seus cortes e ajustes fiscais — ou apostar em alternativas soberanas que ainda carecem de financiamento concreto e articulação política regional para se tornarem viáveis.

Com informações de RFI.


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Cristina Rocha

12/05/2026

A conferência em Dakar me interessa menos pelo que diagnostica — a falência do modelo FMI, aliás, já está mais do que diagnosticada desde as crises das dívidas latino-americanas nos anos 1980 — e mais pelo que ela representa como ato de enunciação coletiva. Beatriz Lima, no comentário acima, trata o encontro como um “espetáculo acadêmico”, uma rejeição ritual que já virou clichê. Compreendo o cansaço, mas discordo frontalmente da conclusão. O fato de vozes do Sul Global repetirem, há décadas, que o endividamento externo é uma forma de colonialidade não enfraquece a denúncia; ao contrário, prova que o sistema se retroalimenta justamente porque ninguém no centro hegemônico está disposto a ouvir. A repetição, aqui, é sintoma da violência contínua, não da futilidade discursiva. A pergunta não é por que Dakar repete o diagnóstico, mas por que o Norte insiste em ignorá-lo.

É preciso enxergar a dívida como tecnologia de gênero, e esse é um ponto que os economistas reunidos precisariam incorporar com mais radicalidade. Quando o FMI impõe teto de gastos, quem paga a conta do ajuste fiscal não é o capital financeiro internacional, mas a mulher senegalesa que vê o posto de saúde fechar e a merenda escolar desaparecer. O marxismo clássico já nos ensinou que a acumulação primitiva não cessa no capitalismo tardio — ela se desloca para as esferas da reprodução social. Silvia Federici, lendo Marx a partir do corpo feminino, mostrou como a dívida soberana funciona como um novo cercamento dos comuns reprodutivos. Cada empréstimo condicionado do FMI ao Senegal privatiza água, terra, cuidados — e essa expropriação recai desproporcionalmente sobre as mulheres, que sustentam a vida sem remuneração. Portanto, qualquer alternativa soberana à crise da dívida que não enfrente o patriarcado financeiro será incompleta. Soberania que não é feminista é apenas uma troca de elite gerencial.

O comentário do Helton Barros, por sua vez, ilustra com perfeição a armadilha. Ele apoia a rejeição ao FMI, mas o faz em nome de uma suposta “família tradicional” ameaçada pelo globalismo. Ora, a família tradicional que ele defende é, em grande medida, a estrutura que o capitalismo financeiro utiliza para externalizar seus custos — o trabalho doméstico gratuito das mulheres é o subsídio invisível que permite ao Estado pagar juros enquanto corta creches. Não há como combater o FMI com o discurso da moral familiar; é o mesmo fundamentalismo que, no Ocidente, votou em Trump e Bolsonaro enquanto endeusava o deus-mercado. A direita religiosa quer soberania monetária, mas não quer soberania sobre o próprio corpo das mulheres. Isso é incoerência ética e política.

Ana Karine Xavante acerta ao nomear o FMI como “tentáculo do colonialismo financeiro”, e Cláudio Ribeiro traz a chave foucaultiana da biopolítica, que de fato ilumina o dispositivo da dívida como governamentalidade. Mas sinto falta, em ambos, de uma inflexão de classe que não se dilua na abstração pós-estruturalista. A dívida senegalesa não é apenas uma relação impessoal entre credores e devedores mediada por tecnologias de poder; ela é a expressão concreta da luta de classes em escala global. O capital portador de juros suga o excedente produzido por trabalhadoras e trabalhadores senegaleses — nas fábricas, nos campos, nos lares — e o transfere para bancos e fundos sediados em Paris e Nova York. Enquanto não se nomear o inimigo de classe, corremos o risco de reduzir a crítica a um seminário bem-intencionado.

Por isso, a conferência de Dakar não pode se contentar em propor “alternativas soberanas” apenas no plano macroeconômico. É preciso que a soberania almejada seja popular e feminista: auditoria cidadã da dívida com participação das organizações de mulheres, suspensão unilateral do pagamento enquanto se investigam os contratos leoninos, e construção de um orçamento público orientado pela reprodução da vida, não pela remuneração do rentismo. Qualquer caminho aquém disso continuará sendo, sim, um clichê acadêmico. Mas um clichê que mata — e mata, sobretudo, as mais pobres entre os pobres.

Beatriz Lima

12/05/2026

A conferência em Dakar tem todos os elementos de um bom espetáculo acadêmico: economistas reunidos, diagnósticos contundentes sobre a insustentabilidade da dívida, e uma rejeição ritual ao FMI que já virou clichê em qualquer encontro de pensamento econômico alternativo no Sul Global. O problema é que, até onde a notícia revela, as tais “alternativas soberanas” permanecem no terreno vago das boas intenções. Soberania econômica é um conceito empolgante em discursos, mas quando se traduz em números, geralmente significa substituir credores multilaterais por bilaterais — trocar Washington por Pequim, por exemplo —, o que raramente altera a lógica da dependência. Cadê os dados? Quais mecanismos concretos foram propostos para reestruturar a dívida sem repetir os mesmos ciclos de endividamento que levaram o Senegal a esse ponto? A matéria é econômica demais para se contentar com platitudes pós-coloniais.

Os comentários anteriores ilustram bem como esse tema atrai projeções ideológicas de todos os lados. Helton Barros vê no FMI uma ferramenta do “globalismo” que destrói a família tradicional — uma conexão causal que eu adoraria ver demonstrada com evidências empíricas, mas desconfio que não passaria por nenhum teste de correlação espúria. Cláudio Ribeiro mobiliza Foucault para explicar o dispositivo biopolítico do endividamento, e embora a análise tenha seu valor acadêmico, ela corre o risco de transformar o Senegal em mero objeto passivo de uma tecnologia de poder, apagando as escolhas — muitas vezes desastrosas — das elites políticas locais. Já Ana Karine Xavante fala em “colonialismo financeiro” e “ajustes fiscais que jamais tocam nos ricos”, o que contém meia verdade: o FMI realmente impõe condicionalidades regressivas, mas a pergunta incômoda que ninguém faz é quem, dentro do Senegal, se beneficiou do endividamento original que agora se tornou insustentável.

Falta, nesse debate, uma pitada de autocrítica que não seja apenas culpabilizar o FMI ou o “Norte Global”. O Senegal, como muitos países africanos, contraiu dívidas significativas na última década — inclusive com emissões de eurobônus em condições de mercado, aplaudidas na época como sinal de “maturidade financeira”. Onde estavam esses mesmos economistas quando o governo senegalês optava por se endividar em moeda estrangeira a taxas que qualquer analista de risco consideraria temerárias? A dívida externa senegalesa atingiu 76% do PIB em 2023, segundo o próprio Ministério das Finanças do país, e o serviço da dívida consome quase 30% das receitas fiscais. Isso não é apenas resultado de uma imposição externa malévola; é também fruto de decisões soberanas — a palavra que tanto agrada — tomadas por governos que agora buscam soluções fora do FMI, como se a instituição fosse a única responsável pelo buraco.

O que me inquieta, como cética incurável, é a facilidade com que se transita do diagnóstico correto — o FMI é uma instituição assimétrica que serve aos interesses dos credores — para a ilusão de que “alternativas soberanas” são automaticamente melhores ou mais justas. Soberania financeira sem mecanismos robustos de transparência, controle social e responsabilização das elites domésticas pode muito bem se tornar apenas uma nova fachada para velhas práticas de captura do Estado por interesses privados. Quem garante que os economistas reunidos em Dakar representam algo além de uma fração da elite intelectual senegalesa negociando seu próprio espaço no arranjo de poder? Se a conferência produziu propostas concretas — auditoria da dívida, mecanismos de reestruturação vinculados a indicadores sociais, criação de fundos regionais de financiamento —, ótimo: divulguem os documentos, os modelos, as projeções. Até lá, fico com a sensação de que o espetáculo da rejeição ao FMI é mais terapêutico do que transformador. Dados, por favor. Dados e menos retórica inflamada, seja ela vestida de verde-oliva patriótico ou de jargão foucaultiano.

Helton Barros

12/05/2026

Finalmente uma atitude de vergonha na cara! Esse FMI é uma ferramenta do globalismo para sufocar nações soberanas e destruir a família tradicional. Apoio total aos economistas senegaleses que buscam soluções próprias, sem amarras desses abutres internacionais. Deus abençoe quem luta pela pátria!

    Cláudio Ribeiro

    12/05/2026

    Helton, você toca num ponto crucial, mas o problema não se reduz a uma conspiração globalista. O FMI opera como um dispositivo biopolítico que disciplina economias periféricas via endividamento, como demonstrou Foucault ao analisar as tecnologias de governo. A iniciativa de Dakar é um ato de resistência contra uma racionalidade neoliberal que trata Estados como empresas.

    Ana Karine Xavante

    12/05/2026

    Helton, eu entendo o apelo emocional da sua indignação. É legítimo odiar o FMI – ele é de fato um instrumento de estrangulamento das economias periféricas, um tentáculo do colonialismo financeiro que sangra os povos do Sul Global em nome de ajustes fiscais que jamais tocam nos verdadeiros parasitas. Mas preciso cutucar essa sua construção de inimigo, porque ela beira uma perigosa miopia. Você fala em “globalismo” como uma força conspiratória que “destrói a família tradicional”, e é aí que o seu discurso escorrega para a armadilha que a mesma lógica colonialista nos plantou. Que família tradicional é essa, Helton? A família mononuclear cristã, europeia, imposta a ferro e fogo sobre as nossas estruturas comunitárias de parentesco, sobre as famílias extensas indígenas, sobre as redes de cuidado coletivo que o capitalismo se encarregou de aniquilar? O FMI não destrói a família tradicional; ele sequestrou a ideia de família para impor um modelo funcional ao mercado: a família como unidade de consumo e de controle moral, enquanto precariza a vida a ponto de tornar impossível qualquer cuidado genuíno. A soberania que eu defendo não cabe nesse saudosismo de um passado que nunca foi nosso como indígenas, porque ele vem carregado do mesmo patriarcado e da mesma teologia que justificaram a invasão das nossas terras.

    A alternativa soberana a que os economistas em Dakar se agarram precisa ser mais radical do que substituir a bota do FMI pela bota de uma elite nacional vestida de “pátria” e “Deus”. Eu sou esquerda, e não a esquerda bem-comportada que aceita a soberania como uma mera renegociação de contratos. A crise da dívida senegalesa é, na raiz, uma crise da dívida ecológica e epistêmica que o Norte acumulou com o Sul e com os povos originários. O FMI e o Banco Mundial sempre condicionaram empréstimos à abertura das nossas terras para a mineração, para o agronegócio, para as infraestruturas de escoamento de commodities – e isso não é um acidente, é o projeto. A família tradicional que você defende, muitas vezes, é a mesma que elege governantes que entregam a floresta para o capital transnacional. A luta pela pátria precisa incluir a luta pelo território como corpo de relações que não se encerram na fronteira do Estado-nação. O colonialismo estrutural não vai ser derrubado enquanto repetirmos suas ficções de pureza e de moralidade.

    A gente pode convergir na rejeição ao FMI, mas divergir profundamente no horizonte. A bênção divina que você invoca já foi usada para “abençoar” os canhões que exterminaram os meus ancestrais. A sacralidade que eu conheço não separa o solo da alma, não ergue muros contra o outro e não olha para o Senegal como um ente abstrato de “pátria”, mas como terra de famílias estendidas, redes de reciprocidade, culturas que o desenvolvimento capitalista insiste em atropelar. O que está em jogo não é apenas a soberania monetária de um país, mas a descolonização do próprio conceito de dívida: quem deve a quem, afinal? Nós, povos indígenas, temos séculos de extrativismo não-pago para cobrar – e essa dívida histórica não cabe no cofre de um Banco Central. Portanto, quando você saúda os economistas senegaleses, saúda também a quebra de todas as correntes que nos prendem à mesma máquina de moer corpos e ecossistemas, inclusive as correntes simbólicas da sua “família tradicional” que, para nós, sempre foi uma jaula colonial.


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