Estudo desafia décadas de ciência e sugere que Urano e Netuno são planetas rochosos

Os planetas Urano e Netuno, que podem ser ricos em rochas, segundo novo estudo. (Foto: space.com)

A classificação que a astronomia usa há décadas para descrever Urano e Netuno pode estar fundamentalmente errada. Um novo estudo publicado na revista Astronomy & Astrophysics sugere que os dois planetas, historicamente chamados de ‘gigantes de gelo’, têm suas camadas externas compostas principalmente de rochas — e não de gelo, como a ciência convencional sustentava.

A conclusão vem da astrônoma Yamila Miguel, do Instituto Holandês de Pesquisa Espacial, nos Países Baixos, que liderou a equipe responsável pela pesquisa. Segundo ela, a descoberta ‘contraria a crença comum de que são planetas de gelo’, abalando um dos pilares da planetologia moderna.

A visão tradicional descreve os dois planetas como corpos com núcleos rochosos internos envoltos por mantos gelados e uma espessa atmosfera de hidrogênio, hélio e metano. Em regiões de alta pressão, essa atmosfera gasosa se torna fluida — mas o novo estudo, conforme reportado pelo portal Space.com, indica que ela também pode estar repleta de material rochoso.

‘Descobrimos que tanto Urano quanto Netuno têm suas camadas externas compostas principalmente de rochas, além de hidrogênio e hélio gasosos’, afirmou Miguel. A declaração sintetiza o resultado de uma modelagem computacional detalhada que simulou os envelopes atmosféricos, os mantos e os núcleos de cada planeta.

Com base nas condições de temperatura ao longo das camadas atmosféricas, os pesquisadores identificaram que silicatos presentes nessas regiões se condensariam em material rochoso em determinadas zonas. A inspiração para o estudo veio de pesquisas recentes sobre a região trans-Netuniana, o cinturão gelado além de Netuno.

Estudos anteriores já haviam indicado que objetos como Plutão, cometas e corpos do Cinturão de Kuiper são mais rochosos do que gelados. ‘Pensamos: se esses objetos são compostos principalmente de rochas, talvez Urano e Netuno também sejam’, explicou Miguel, revelando o raciocínio que motivou a investigação.

A pesquisadora admite que os dois planetas ‘podem ter bastante gelo em seus interiores’, mas ressalta que ‘definitivamente não são completamente gelados como costumávamos acreditar’. A distinção tem implicações diretas para a forma como a ciência modela a formação e a evolução do sistema solar externo.

O impacto do estudo vai além da composição química: Miguel defende que os achados justificam uma revisão da própria classificação desses planetas. ‘Deveríamos de fato mudar sua classificação para não ser enganoso’, propõe a astrônoma, sugerindo o termo ‘gigantes menores’ como alternativa mais precisa.

O estudo não estabelece uma nova classificação oficial — isso dependeria de consenso mais amplo da comunidade astronômica internacional. Mas levanta questões fundamentais sobre o que mais pode estar equivocado nos modelos que descrevem os confins do sistema planetário.


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