Uma única nuvem radioativa, carregada pelo vento em 15 de março de 2011, foi responsável por grande parte da contaminação por micropartículas de césio registrada na Prefeitura de Fukushima após o acidente na usina nuclear Daiichi. É o que mostra um novo estudo internacional publicado no Journal of Hazardous Materials, que reescreve a compreensão científica sobre como os materiais radioativos se dispersaram naquele desastre.
A pesquisa analisou 100 amostras ambientais coletadas nos meses seguintes ao acidente de 11 de março de 2011. Os cientistas descobriram que as chamadas micropartículas ricas em césio — conhecidas pela sigla CsMPs — não seguem o mesmo padrão de distribuição do restante da contaminação radioativa, que se espalhou de forma mais uniforme ao redor da usina.
Ao contrário do que se supunha, as CsMPs foram transportadas por uma única rajada de vento, concentrada em uma data específica. Isso significa que a distribuição dessas partículas reflete um evento isolado de liberação, e não uma dispersão contínua ao longo dos dias de crise.
‘Este estudo mostra que grande parte da contaminação particulada em Fukushima pode ser rastreada até um único evento de liberação’, afirmou o professor Satoshi Utsunomiya, da Universidade de Kyushu, no Japão. ‘Isso muda fundamentalmente a forma como entendemos a dispersão de materiais radioativos após o acidente na usina Daiichi de Fukushima.’
Além do vento, a chuva teve papel decisivo na forma como as partículas se depositaram no território. O professor Gareth Law, da Universidade de Manchester, no Reino Unido, explicou que quando a pluma carregada de partículas encontrou precipitação, as CsMPs foram rapidamente removidas da atmosfera e depositadas no solo. ‘A distribuição dessas partículas reflete as condições meteorológicas tanto quanto o próprio momento da liberação’, disse Law.
O aspecto mais preocupante da descoberta está na natureza física dessas micropartículas. Ao contrário do césio dissolvido, que se liga ao solo de forma mais homogênea, as CsMPs são insolúveis e carregam altíssima radioatividade por unidade de massa. Isso as torna potencialmente mais perigosas quando inaladas ou ingeridas, pois podem concentrar doses de radiação em pontos específicos do organismo.
Bernd Grambow, pesquisador do IMT Atlantique, na França, destacou a urgência de compreender onde essas partículas estão. ‘Elas persistem no ambiente e têm o potencial de entregar doses de radiação altamente localizadas se consumidas ou inaladas’, alertou. ‘Entender sua distribuição é essencial para a avaliação de riscos a longo prazo e para os esforços de remediação.’
A equipe internacional, que reúne cientistas da Universidade de Kyushu, da Universidade de Manchester e da Universidade de Nantes em parceria com o IMT Atlantique e o CNRS, já avança para a próxima etapa da pesquisa. O foco agora recai sobre os impactos à saúde causados pela inalação dessas partículas, com base em evidências de que elas podem provocar danos biológicos mais intensos do que as formas iônicas difusas de contaminação por césio radioativo.
O estudo, assinado pela pesquisadora Kanako Miyazaki e colaboradores, foi publicado sob o identificador DOI 10.1016/j.jhazmat.2026.142180. A conclusão central é que o mapa da contaminação por micropartículas em Fukushima é, na prática, um mapa do clima daquele dia de março de 2011 — e não apenas da magnitude do acidente.
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