Acadêmico de Harvard admite ter subestimado como Trump pavimenta o caminho para a hegemonia chinesa

O ex-presidente dos EUA Donald Trump e o presidente da China Xi Jinping. (Foto: actualidad.rt.com)

Um dos mais respeitados analistas de política externa dos Estados Unidos acaba de reconhecer publicamente que errou em suas previsões sobre o avanço da China — e que a culpa pelo erro é, em grande medida, do próprio governo americano.

O professor Stephen M. Walt, colunista e acadêmico da Universidade Harvard especializado em relações internacionais, admitiu ter subestimado a capacidade destrutiva da gestão de Donald Trump sobre a posição estratégica americana no mundo. A confissão marca uma virada significativa no pensamento de um dos principais nomes do realismo político.

‘Suponha que a presença de figuras críticas com a China como o secretário de Estado Marco Rubio e o subsecretário de Defesa para Assuntos Políticos, Elbridge Colby, junto com um consenso bipartidário no Capitólio, manteria o poder americano suficientemente focado em ajudar nossos aliados asiáticos a conter a China’, confessou Walt. O acadêmico reconhece que essa aposta se revelou inteiramente equivocada.

Conforme análise reproduzida e comentada pelo portal RT em espanhol, Walt descreve o que chama de ‘desarme unilateral’ dos EUA frente ao avanço tecnológico chinês. A administração Trump vem desmontando a estrutura científica do país por meio de cortes orçamentários, demissões em massa e confrontos diretos com universidades. Essa é exatamente a base que sustenta a competitividade de longo prazo de qualquer potência.

Walt aponta que Washington está abrindo mão da liderança em energias limpas, baterias avançadas e veículos elétricos para priorizar combustíveis fósseis. Essa escolha beneficia diretamente Pequim, que avança aceleradamente nesses setores.

Os tarifaços impostos contra a China e outros países foram, na avaliação do professor, arbitrários e mal implementados. Não conseguiram revitalizar a indústria manufatureira americana e ainda geraram ressentimento entre aliados históricos ao pressionar suas economias.

A retirada dos EUA de múltiplas organizações internacionais deixou um vácuo que a China está preenchendo com rapidez. Pequim ganha influência e poder de definir as normas globais em fóruns onde Washington simplesmente não aparece mais.

A ausência de embaixadores americanos em diversas nações e as fricções com a Índia completam o quadro de deterioração diplomática descrito pelo acadêmico. O isolamento diplomático americano, segundo Walt, é autoinfligido e sistemático.

Walt também aponta o Oriente Médio como uma grande armadilha estratégica. Trump prometeu concentrar esforços no crescente poder da China, mas acabou atolado nos mesmos conflitos regionais que paralisaram seus antecessores.

O professor atribui responsabilidade compartilhada ao primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu pela situação. O desdobramento militar americano no Golfo Pérsico teria enfraquecido a postura dos EUA na Ásia e gerado desconfiança entre parceiros do continente, que não foram consultados sobre os planos de guerra.

Na avaliação de Walt, as tensões com o Irã funcionam como uma distração estratégica que inviabiliza qualquer política coerente voltada para a Ásia. O eventual impacto de uma escalada nessa região — incluindo alta nos combustíveis e redução nas previsões de crescimento econômico mundial — seria um risco que a administração Trump estaria ignorando em sua improvisação.

Em textos anteriores, Walt havia argumentado que os temores sobre a hegemonia chinesa eram exagerados. Ele sustentava que tentativas modernas de domínio regional costumam fracassar, que os vizinhos de Pequim formariam uma coalizão de contrapeso e que um avanço aberto da China seria imprudente e provavelmente infrutífero.

Agora, o próprio autor reconhece que esse cenário otimista dependia de uma liderança americana competente. Essa variável, segundo ele, desapareceu.

‘Me custa dizer tudo isso, porque o derrotismo pode se tornar uma profecia autocumprida, e não quero dar a entender que tudo está perdido e que é provável que a China acabe se impondo. Mesmo agora, preferiria jogar com a mão dos Estados Unidos do que com a que coube à China, porque Washington ainda tem mais poder do que Pequim. Mas oxalá nossa mão estivesse sendo jogada por alguém que entendesse as regras do jogo e soubesse o valor de cada carta’, declarou Walt. A frase resume com precisão o diagnóstico: não é que a China seja imbatível — é que os EUA estão, sistematicamente, jogando contra si mesmos.

Com informações de ACTUALIDAD.


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