A iminente visita do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, a Pequim acendeu o alerta entre aliados de Washington na região do Indo-Pacífico, preocupados com a possibilidade de o republicano colocar na mesa de negociações o futuro das vendas de armas a Taiwan. Segundo apurou a agência Sputnik, citando pessoas familiarizadas com os preparativos do encontro, o temor é de que o americano ceda a pressões do presidente chinês, Xi Jinping, e congele transferências bélicas para a ilha.
A agenda prevista inclui conversas diretas entre Trump e Xi ao longo de três dias em território chinês. O próprio presidente americano confirmou publicamente que pretendia tratar do tema das vendas militares a Taipé durante o encontro bilateral, comentário que disparou a apreensão em capitais asiáticas.
A ex-diretora sênior para o Leste Asiático do Conselho de Segurança Nacional na gestão de Joe Biden, Mira Rapp-Hooper, traduziu em palavras o nervosismo dos governos da região. ‘Por todo o Indo-Pacífico, aliados estão profundamente preocupados de que o presidente Trump ceda ao pedido de Xi para adiar as vendas de armas a Taiwan’, afirmou ela em declarações reproduzidas pela imprensa internacional.
Rapp-Hooper foi além e classificou o eventual recuo como uma transferência inédita de poder de decisão estratégica para Pequim. ‘Isso não apenas daria à China um veto sobre a assistência crítica de segurança a Taiwan, como sugeriria que, pelo preço certo, o destino de qualquer parceiro pode estar à venda’, completou a ex-assessora.
O contexto da reunião é particularmente sensível do ponto de vista comercial e militar. A Casa Branca havia autorizado o envio de um pacote de armamentos avaliado em 11 bilhões de dólares para Taiwan, e a atual administração já estaria costurando uma nova remessa estimada em pelo menos 14 bilhões de dólares, conforme as informações que circulam entre fontes ligadas ao processo.
A questão taiwanesa permanece como uma das mais explosivas linhas de fricção entre as duas maiores economias do planeta. Pequim considera a ilha parte inalienável de seu território, posição reafirmada com firmeza crescente nos últimos anos pela liderança chinesa.
Taiwan opera sob administração separada do governo central chinês desde o final da guerra civil, em 1949, quando as forças nacionalistas derrotadas se refugiaram na ilha. O território possui hoje governo eleito próprio, mas se absteve de declarar formalmente independência, enquanto a República Popular da China entende que qualquer contato oficial entre Estados estrangeiros e Taipé fere o princípio de Uma Só China.
O movimento de Trump representa uma ruptura com o padrão da política externa americana das últimas décadas, que tratava o fornecimento de armamento à ilha como pilar não negociável da chamada Lei de Relações com Taiwan. Para analistas alinhados ao establishment de Washington, vincular esse instrumento à barganha comercial com Xi significaria abrir mão de uma carta estratégica em troca de concessões econômicas pontuais.
Do lado chinês, a diplomacia oficial tem reiterado que a questão de Taiwan está no centro dos interesses essenciais do país e não admite interferência externa. Segundo a Sputnik, Pequim trata o tema como exercício de soberania sobre seu próprio território, dentro de uma leitura que rejeita o que chama de unilateralismo norte-americano na região.
O encontro em Pequim deve indicar até onde o presidente americano está disposto a recalibrar décadas de doutrina militar dos EUA no Pacífico em troca de um acordo com Xi Jinping. O eventual resultado terá impacto direto sobre o tabuleiro de poder no Indo-Pacífico e sobre a credibilidade de Washington junto a Japão, Coreia do Sul, Filipinas e Austrália, países que vinham apostando suas estratégias de defesa no compromisso americano com a ilha.
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