Uma descoberta publicada na revista Cell Stem Cell pode mudar radicalmente o que a ciência entende sobre envelhecimento celular. Pesquisadores da Escola de Medicina Icahn, do Mount Sinai, em Nova York, conseguiram reverter o envelhecimento de células-tronco do sangue em camundongos ao reparar estruturas internas chamadas lisossomos — e os resultados abriram perspectivas concretas para terapias regenerativas em humanos.
As células-tronco hematopoiéticas (HSCs) são responsáveis por gerar todas as células do sangue e do sistema imunológico ao longo da vida. Elas residem na medula óssea e são raras, mas essenciais. Quando envelhecem e perdem eficiência, o organismo inteiro paga o preço — com imunidade enfraquecida, maior vulnerabilidade a infecções e risco elevado de cânceres do sangue.
O estudo, liderado pela professora Saghi Ghaffari, do Mount Sinai, identificou que os lisossomos — estruturas que funcionam como centros de reciclagem interna das células — ficam excessivamente ácidos, danificados e hiperativados com o envelhecimento. Essa disfunção desestabiliza tanto o metabolismo quanto os padrões epigenéticos das células-tronco, comprometendo sua capacidade de se regenerar.
Usando uma técnica chamada transcriptômica de célula única, a equipe mapeou com precisão esse processo degenerativo. Em seguida, testou o bloqueio da hiperatividade lisossomal com um inibidor da ATPase vacuolar — uma molécula capaz de reduzir a acidez excessiva dos lisossomos e restaurar seu funcionamento saudável.
Os resultados foram expressivos. Após o tratamento, as células-tronco envelhecidas voltaram a se comportar como células jovens: regeneraram-se com eficiência e produziram células sanguíneas e imunológicas de forma equilibrada. O metabolismo melhorou, o desempenho mitocondrial se recuperou, os padrões epigenéticos se normalizaram e os sinais inflamatórios prejudiciais caíram significativamente.
“Nossos achados revelam que o envelhecimento das células-tronco do sangue não é um destino irreversível. Células-tronco velhas têm a capacidade de reverter para um estado jovem; elas podem se recuperar”, afirmou Ghaffari, conforme divulgado pelo Science Daily. “Ao desacelerar os lisossomos e reduzir sua acidez, as células-tronco ficaram mais saudáveis e puderam produzir novas células sanguíneas equilibradas e novas células-tronco com muito mais eficácia.”
O experimento foi além do laboratório. Em testes ex vivo — nos quais as células são retiradas do organismo, tratadas e reintroduzidas — a capacidade de formação sanguínea das células-tronco velhas aumentou em mais de oito vezes em animais vivos. O mecanismo envolve a melhora no processamento do DNA mitocondrial pelos lisossomos restaurados, o que reduziu a ativação da via de sinalização imune cGAS-STING, associada à inflamação crônica e ao envelhecimento celular acelerado.
As implicações clínicas são amplas. A pesquisa pode abrir caminho para tratamentos que previnam ou revertam distúrbios sanguíneos relacionados à idade e melhorem os resultados de transplantes de células-tronco em pacientes mais velhos. Ghaffari destacou que a disfunção lisossomal “emerge como um motor central do envelhecimento das células-tronco” e que atacar essa via pode ajudar a manter sistemas sanguíneos e imunológicos saudáveis em idosos.
A equipe investiga agora se a mesma disfunção lisossomal em células-tronco envelhecidas contribui para o surgimento de células-tronco leucêmicas — o que conectaria o envelhecimento celular normal ao desenvolvimento do câncer. A pesquisa contou com colaboração do imunologista Mickaël Ménager, do Instituto Imagine e da INSERM UMR 1163, da Universidade de Paris Cité, na França, e foi financiada pelos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA, pelo programa New York State Stem Cell Science, pela INSERM e pela Agência Nacional de Pesquisa francesa.
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