A tese repetida pelo Grupo dos Sete e pelo Fundo Monetário Internacional de que a China deveria poupar menos e consumir mais para reequilibrar a economia global está sendo contestada por análise publicada no jornal de Hong Kong South China Morning Post. O argumento central é que o elevado nível de poupança chinês não representa um desequilíbrio a ser corrigido, mas uma fonte estratégica de financiamento para os países em desenvolvimento.
Segundo a análise publicada pelo South China Morning Post, o diagnóstico ocidental sobre a poupança chinesa parte de premissas equivocadas. O texto sustenta que o superávit em conta corrente da China, longe de constituir um problema, representa uma exportação de capital essencial para o Sul Global.
O raciocínio econômico parte de uma definição técnica fundamental, segundo a qual o superávit em conta corrente equivale ao excesso da poupança nacional sobre o investimento doméstico. Essa poupança não é perdida nem desperdiçada, mas exportada na forma de fluxos líquidos de capital, com aumento equivalente dos créditos financeiros chineses sobre o resto do mundo.
Tais créditos se somam à riqueza acumulada da China e ampliam sua renda nacional futura, num movimento que beneficia tanto Pequim quanto os países receptores desses investimentos. A questão economicamente relevante, segundo o texto, não é se esse superávit deveria existir, mas se os fluxos líquidos de capital estão financiando investimentos que valham a pena para a economia global.
O G7 e o FMI partem do pressuposto de que a China poupa demais e deveria consumir mais, visão que a análise classifica como arbitrária e descolada da realidade material. Na prática, o consumo chinês cresce continuamente ao longo do tempo, acompanhando o ritmo de elevação da renda nacional do país.
A pergunta verdadeira, segundo o autor, seria se a China deveria poupar menos, crescer menos rapidamente e reduzir simultaneamente poupança e investimento. A resposta é categoricamente negativa, pois isso significaria abdicar do papel chinês como motor do desenvolvimento global e como financiador do Sul Global.
O FMI fala em crescimento liderado pelo consumo na China em oposição ao crescimento puxado por poupança e investimento, fórmula que a análise classifica como ingênua e teoricamente frágil. A crítica recorre ao paradoxo da poupança formulado pelo economista britânico John Maynard Keynes, que demonstrou que uma taxa de poupança mais alta numa economia fechada pode, sob certas condições, reduzir a produção e, com isso, a própria poupança agregada.
O ponto crucial ignorado pelos organismos multilaterais ocidentais é que a economia chinesa não é fechada e opera num contexto global de carência crônica de capital para infraestrutura sustentável. Bilhões de pessoas na Ásia, África e América Latina dependem de financiamento externo para construir redes elétricas, sistemas ferroviários, parques de energia renovável e infraestrutura urbana compatível com a transição climática.
É justamente nesse vácuo que a poupança chinesa cumpre papel insubstituível, irrigando projetos de envergadura por meio de iniciativas como o Cinturão e Rota e os bancos de desenvolvimento ligados ao BRICS. Reduzir essa poupança, como pretendem o G7 e o FMI, equivaleria a estrangular uma das poucas fontes globais de capital paciente disponíveis para os países em desenvolvimento.
A discussão expõe, portanto, uma disputa geopolítica de fundo travestida de debate técnico sobre desequilíbrios macroeconômicos. Por trás da exigência de que Pequim consuma mais e poupe menos está o incômodo ocidental com a ascensão de uma alternativa concreta de financiamento ao desenvolvimento, que escapa ao controle das instituições de Bretton Woods e ao tradicional eixo dólar-euro.
Com informações de SCMP.
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