Um dente molar perfurado encontrado em uma caverna na Sibéria acaba de reescrever a história da medicina.
Publicado na revista científica PLOS One, um novo estudo demonstra que neandertais realizavam tratamentos dentários intencionais há aproximadamente 60 mil anos. O caso é a evidência mais antiga de odontologia invasiva já registrada pela ciência.
O dente inferior pertencia a um adulto neandertal e foi escavado em 2016 na Caverna Chagyrskaya, na Sibéria. Por anos, a origem do orifício profundo em sua superfície permaneceu sem explicação, até que experimentos detalhados indicaram que a cavidade foi produzida por uma pequena broca de pedra usada para remover tecido dentário severamente deteriorado, conforme reportagem do portal Live Science.
A cavidade mede 4,2 milímetros de comprimento, 2,8 milímetros de largura e 2,6 milímetros de profundidade. Análises microscópicas revelaram duas áreas de desmineralização profunda no molar — sinal inequívoco de cárie severa — e marcas características ao longo da borda superior do orifício.
Essas marcas só poderiam ser produzidas pelo movimento giratório de ferramentas de pedra pontiagudas. A equipe testou três dentes humanos modernos para reproduzir os padrões encontrados no fóssil.
Os experimentos mostraram que as estrias eram compatíveis com instrumentos de jaspe — rocha disponível localmente na região — com pontas longas e finas. Múltiplos exemplares desse tipo de ferramenta já haviam sido encontrados anteriormente na própria Caverna Chagyrskaya.
“O fato de que esse tratamento invasivo ocorreu e a pessoa sobreviveu me leva a crer que este é mais um exemplo da compreensão muito sofisticada que os neandertais tinham da biologia humana e de quando era necessário intervir”, afirmou John W. Olsen, professor emérito de antropologia da Universidade do Arizona e coautor do estudo. Olsen destacou ainda que marcas de mastigação sobrepostas às estrias indicam que o indivíduo sobreviveu ao procedimento e viveu por um período significativo depois.
A descoberta empurra o registro da odontologia intencional 45 mil anos para trás. Até então, a evidência mais antiga de tratamento de cárie em Homo sapiens datava de cerca de 14 mil anos atrás, em sítios no atual território da Itália.
Gregorio Oxilia, antropólogo dental da Universidade Mediterrânea Livre da Itália e primeiro autor daquele estudo anterior, classificou o novo achado como “excepcional precisamente porque mostra que eles eram capazes de reagir a uma patologia incomum com uma resposta altamente direcionada e tecnicamente complexa.” Oxilia, que não participou da pesquisa atual, afirmou ainda que a descoberta “remodela fundamentalmente nossa compreensão da evolução dos cuidados de saúde humanos”.
Para o pesquisador, as raízes da medicina invasiva e da cirurgia “não pertencem exclusivamente ao Homo sapiens, mas fazem parte de um legado mais amplo compartilhado com nossos parentes mais próximos.” Os neandertais viveram entre aproximadamente 400 mil e 40 mil anos atrás.
O caso se soma a um conjunto crescente de evidências sobre a sofisticação de seus cuidados de saúde. Sítios arqueológicos na Espanha já haviam indicado que neandertais cuidaram de uma criança com síndrome de Down e consumiam plantas medicinais.
A arqueóloga Rebecca Wragg Sykes, da Universidade de Cambridge e autora do livro ‘Kindred: Neandertal Life, Love, Death and Art’, acredita que o procedimento foi provavelmente um autotratamento. “Escavar esse dente poderia não precisar de nenhuma ajuda”, disse Sykes, acrescentando que outros primatas são capazes de sobreviver a condições sérias sem assistência do grupo.
Marina Lozano Ruiz, bioarqueóloga especializada em dentes neandertais da Universidade Rovira i Virgili, na Catalunha, reforçou que as marcas altamente localizadas tornam a hipótese da broca de pedra mais plausível do que explicações alternativas, como danos pós-morte. A pesquisa foi publicada sob o título ‘Earliest evidence for invasive mitigation of dental caries by Neanderthals’ no periódico PLOS One.
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