Maricá mira data center do BTG e tenta transformar royalties do petróleo em potência tecnológica

Maricá quer dar um salto para além dos royalties do petróleo e entrar na disputa por investimentos de alta tecnologia.

O prefeito Washington Quaquá iniciou conversas com André Esteves, controlador do BTG Pactual, sobre a possível instalação de um grande data center no município fluminense. O diálogo ocorreu durante um evento promovido pelo Financial Times e pela revista Veja, em Nova York, segundo informações divulgadas pelo Agenda do Poder.

A proposta faz parte de uma estratégia maior: usar a força financeira de Maricá para diversificar a economia local, historicamente impulsionada pelos royalties do petróleo. Nos últimos anos, a cidade passou a buscar investimentos em tecnologia, inovação, infraestrutura e novos setores produtivos para reduzir a dependência de receitas petrolíferas.

Em publicação nas redes sociais, Quaquá afirmou que Maricá já desperta interesse de grandes investidores internacionais. “Maricá está no radar do mundo”, disse o prefeito, ao comentar a participação do município no evento em Nova York. A frase resume a tentativa da administração municipal de apresentar a cidade não apenas como beneficiária do petróleo, mas como plataforma de desenvolvimento.

O possível investimento do BTG teria peso simbólico e econômico. Data centers são estruturas essenciais para a economia digital. Eles armazenam, processam e distribuem dados usados por bancos, plataformas digitais, inteligência artificial, sistemas públicos, empresas de tecnologia, serviços financeiros e redes de comunicação.

Na prática, um empreendimento desse tipo pode atrair infraestrutura elétrica, conectividade, segurança de dados, empregos especializados e fornecedores de tecnologia. Para uma cidade que tenta mudar sua matriz econômica, esse tipo de projeto representa mais do que uma obra: representa entrada em uma nova cadeia de valor.

Maricá tem recursos para tentar esse movimento. Em 2026, segundo levantamento do Maricá Info com base em balancete oficial da prefeitura, o município já havia arrecadado mais de R$ 1,068 bilhão em receitas ligadas ao petróleo até 7 de maio. O valor inclui R$ 743,3 milhões em royalties, R$ 279,5 milhões em participação especial e R$ 45,1 milhões em compensações previstas na Lei 7.990/89.

Essa escala financeira colocou Maricá entre os municípios mais ricos do Brasil. Reportagens baseadas em dados do IBGE apontam que a cidade alcançou PIB de R$ 134,1 bilhões em 2023, resultado que a levou à quarta posição entre as maiores economias municipais do país.

O desafio é transformar essa riqueza em base permanente de desenvolvimento. Royalties são receitas fortes, mas vulneráveis à oscilação do petróleo, à produção dos campos, às regras de distribuição e às mudanças da transição energética global. Por isso, a diversificação deixou de ser opção e virou necessidade estratégica.

A possível chegada de um data center dialoga com esse cenário. O setor cresce com a expansão da inteligência artificial, da computação em nuvem, dos serviços financeiros digitais e da demanda por soberania de dados. Bancos, governos e empresas precisam de estruturas robustas para armazenar informações com segurança, velocidade e estabilidade.

O BTG Pactual, por sua vez, é um dos maiores bancos de investimento da América Latina. A presença de André Esteves nas conversas eleva o peso político do movimento, porque indica que Maricá tenta falar diretamente com o núcleo de decisão de grandes grupos privados.

Ainda não há confirmação de investimento fechado, valor definido ou cronograma oficial para o data center. O que existe, neste momento, é uma conversa inicial em torno de um projeto de grande porte. Essa distinção é importante para evitar exageros: o anúncio indica articulação, não obra contratada.

Mesmo assim, o movimento já tem relevância política. Maricá tenta se vender como uma cidade capaz de usar recursos do petróleo para criar uma economia pós-petróleo. É uma narrativa poderosa, especialmente em um país onde muitos municípios ricos em royalties não conseguiram transformar receita temporária em infraestrutura duradoura.

A cidade também ganhou projeção por experiências de política pública próprias, como o Banco Mumbuca e a moeda social municipal. Estudo do Ipea analisou o caso de Maricá como experiência de banco comunitário e moeda social criada por legislação municipal, dentro de uma estratégia local de desenvolvimento.

Esse histórico ajuda a explicar por que o município tenta se posicionar como laboratório de políticas públicas e inovação econômica. A aposta agora é mais ambiciosa: atrair capital privado de grande porte para setores tecnológicos.

Para Quaquá, a conversa com André Esteves pode funcionar como vitrine. Mesmo antes de qualquer contrato, a aproximação com o BTG reforça a imagem de Maricá como município com caixa, projeto político e apetite para disputar investimentos que normalmente ficam concentrados em capitais e grandes polos empresariais.

O impacto potencial também seria regional. Um data center em Maricá poderia fortalecer a infraestrutura tecnológica do estado do Rio de Janeiro, criar empregos qualificados e estimular serviços associados em energia, fibra óptica, segurança, manutenção, engenharia e construção.

Mas o sucesso dependerá de fatores concretos: disponibilidade de energia, licenciamento, conectividade, segurança jurídica, incentivos, infraestrutura urbana e capacidade de integrar o projeto a uma política de formação profissional. Sem isso, o risco é transformar uma boa manchete em expectativa frustrada.

A conversa entre Quaquá e André Esteves mostra que Maricá quer disputar outro patamar. A cidade que enriqueceu com o petróleo tenta agora usar essa vantagem para entrar na economia dos dados.

Se o projeto avançar, Maricá poderá se tornar exemplo de como royalties podem financiar uma transição produtiva. Se ficar apenas no discurso, será mais uma promessa de diversificação em uma economia ainda presa ao petróleo. O ponto decisivo é que a janela está aberta — e poucos municípios brasileiros têm dinheiro, localização e ambição política para tentar atravessá-la.

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