Múmia egípcia de 1.600 anos é encontrada com fragmento da Ilíada de Homero no abdômen

Detalhe de uma múmia egípcia, tema de uma descoberta arqueológica recente. (Foto: phys.org)

Arqueólogos fizeram uma descoberta incomum dentro de uma múmia egípcia da era romana com cerca de 1.600 anos de idade: um fragmento do poema épico A Ilíada, de Homero, inserido não ao lado do corpo, mas dentro da cavidade abdominal do morto.

A múmia foi encontrada em Oxirrinco, uma das mais importantes cidades gregas do Egito romano. O achado levantou questões fascinantes sobre como a literatura circulava — e era descartada — no mundo antigo.

A explicação mais reveladora, conforme aponta o portal científico Phys.org, não é a mais romântica. Papiros danificados ou descartados eram frequentemente reutilizados como material barato de enchimento, inseridos na cavidade do corpo sem qualquer consideração pelo conteúdo literário.

Esse reaproveitamento, paradoxalmente, diz muito sobre o quanto Homero havia penetrado no cotidiano do Egito romano. O poema havia se tornado tão comum que podia ser tratado como material descartável — onipresente a ponto de perder qualquer aura de raridade.

A Ilíada é um poema moldado no século 8 a.C. e atribuído a Homero, que narra a guerra de Troia sem triunfo ou redenção. O poema termina na beira do colapso, com Troia reduzida a uma paisagem de ruínas heroicas.

Séculos depois, a tradição romana reconfigurou esse passado. Eneias, filho de Anquises e da deusa Afrodite, teria escapado da cidade em chamas carregando o pai nos ombros e os deuses domésticos nas mãos, tornando-se o ancestral mítico de Roma.

Essa narrativa foi imortalizada na Eneida, de Virgílio, e transformou a derrota troiana em mito fundador de um império. Para as elites romanas, conhecer a Ilíada era uma forma de capital cultural — um senador em Roma, um professor na Ásia Menor ou um estudante no Egito podiam todos recorrer aos mesmos personagens, genealogias e batalhas como referência comum.

No Egito romano, Homero era um dos autores mais copiados, lido e ensinado como marcador de educação e pertencimento cultural, especialmente entre a elite grega de cidades como Oxirrinco. O Egito era também uma sociedade profundamente híbrida, onde tradições egípcias, gregas e romanas interagiam de formas complexas.

Outras versões da guerra de Troia — que enfatizavam a estadia de Páris e Helena no próprio Egito, conforme relatado pelo historiador grego Heródoto com base em relatos de sacerdotes egípcios — eram provavelmente mais difundidas entre a população mais ampla. Esse pluralismo cultural torna o achado ainda mais significativo.

A trajetória do poema no mundo romano também passou pelos monumentos. O sítio arqueológico da antiga Troia, localizado na atual Turquia, tornou-se destino de visitantes durante o período imperial, e o imperador Augusto incorporou Troia à linguagem política do império.

O imperador Adriano transformou o local em parte de uma cultura mais ampla de viagem, memória e patrimônio. Um visitante do século 2 d.C. encontraria banhos, hospedagens, espaços para apresentações e um pequeno teatro, o Odeion, construído diretamente sobre a cidadela antiga.

O que a múmia de Oxirrinco revela, portanto, não é apenas uma curiosidade arqueológica, mas um retrato do modo como o mundo romano transformava o passado em recurso flexível. A Ilíada sobreviveu não apenas como texto canônico, mas através de manuscritos copiados, passados adiante e, às vezes, reaproveitados para fins completamente diferentes — inclusive como recheio de cadáveres.


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