A sede da Delegacia de Investigações Sobre Entorpecentes (Dise) de Carapicuíba, na Grande São Paulo, foi transformada em cativeiro improvisado por agentes da própria Polícia Civil paulista. O esquema veio à tona após denúncia à Corregedoria e resultou na prisão de quatro servidores em operação que apura extorsão qualificada e associação criminosa armada.
A vítima, Fábio Oliveira Silva, relatou ter sido mantida sequestrada por cerca de dez horas em uma sala no andar superior da unidade policial. Segundo apurou o portal Metrópoles, durante o cativeiro os agentes negociaram o pagamento de uma extorsão inicialmente fixada em R$ 1 milhão, exigência apresentada a parentes do sequestrado enquanto ele permanecia trancado na repartição pública.
Foram presos o escrivão João Ruper Rodrigues, lotado no 1º Distrito Policial de Taboão da Serra, além dos investigadores Tiago Henrique Sousa Carvalho e Roberto Castelano, ambos da Dise de Carapicuíba, e o agente policial Diogo Prieto Júnior, também vinculado à especializada. A defesa dos quatro não foi localizada até o fechamento da reportagem original, e o espaço segue aberto para manifestações.
A invasão sem mandado
Conforme a denúncia apresentada à Corregedoria, Fábio foi arrebatado dentro de casa, em um condomínio fechado na Grande São Paulo, por ao menos oito homens que se apresentaram como policiais civis. O grupo invadiu a residência sem qualquer mandado judicial e o conduziu até a delegacia, onde a abordagem se transformou rapidamente em negociação financeira.
O policial que aparentava liderar a ação foi descrito pela vítima como um homem idoso, obeso, de barba e cabelos brancos, conhecido pelos apelidos de Bateria ou Véio. Ao entrar no imóvel, ele teria anunciado a frase ‘a casa caiu’, jargão tradicional de operações policiais, antes de conduzir o morador para fora algemado.
Vale registrar que Fábio já havia sido preso anteriormente por suposto envolvimento no sequestro da mãe do ex-jogador Robinho, episódio que ganhou repercussão nacional. Durante o trajeto até Carapicuíba, segundo a apuração, os agentes abandonaram o discurso de prisão formal e passaram a exigir dinheiro para não incriminá-lo, ameaçando forjar um flagrante com ‘um quilo de drogas’ que diziam ter em mãos.
O carnê manuscrito da propina
Enquanto Fábio era mantido na sala da Dise por cerca de dez horas, o primo dele, Eder Silva, era acionado para reunir o dinheiro. Em depoimento, Eder relatou ter recebido ligações de um agente identificado como João, que cobrava R$ 1 milhão pela libertação, valor posteriormente ajustado para R$ 303 mil reunidos às pressas.
A entrega foi orientada para ocorrer em uma padaria de Barueri, onde dois policiais em uma caminhonete branca abordaram o primo e o conduziram até a própria delegacia. Já dentro da unidade, Eder foi levado até a sala onde estava o sequestrado, e o dinheiro foi contado diante de Fábio antes que ambos fossem liberados.
Mesmo após o pagamento, os agentes mantiveram as cobranças e chegaram a elaborar um carnê manuscrito com parcelas que completariam o valor original de R$ 1 milhão. Dias depois, o investigador Tiago Henrique Sousa Carvalho, conhecido como Japa, assumiu o papel de intermediador e reduziu a exigência para R$ 500 mil, segundo registros da Corregedoria.
Estrutura pública a serviço do crime
A investigação aponta que a quadrilha utilizou viaturas oficiais, delegacias e salas internas das unidades policiais como infraestrutura para a prática dos crimes investigados. A pressão sobre as vítimas continuou até que elas retornassem à Corregedoria, desencadeando a operação que culminou nas prisões.
Na ação foram cumpridos quatro mandados de prisão temporária, com prazo de 30 dias, além de buscas e apreensões que resultaram na recuperação de dinheiro em reais e dólares, armas, documentos e equipamentos eletrônicos. As investigações seguem sob sigilo, e o material recolhido deve permitir aprofundamento sobre os bastidores do grupo policial agora detido por extorsão qualificada e associação criminosa armada.
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