O avanço dos chamados sionistas religiosos sobre as estruturas de poder em Israel atingiu um novo patamar e preocupa setores liberais e seculares do país. Reportagem do portal alemão Tagesschau revela como esse grupo, que combina fundamentalismo religioso e expansionismo territorial, consolidou posições estratégicas nas Forças Armadas, no serviço secreto Shin Bet, no Mossad e no aparato civil do Estado.
O movimento defende a fusão entre Torá e Estado e tem como meta declarada a colonização judaica da Cisjordânia ocupada e, para parte de seus quadros, também da Faixa de Gaza. A imagem de um tenente-coronel da reserva, identificado como Yoel Rechel, filmando-se de quipá nas praias de Gaza pouco depois do início da guerra em 2023, enquanto recitava versículos sobre a expansão territorial de Israel, virou símbolo dessa nova fase.
Os números expõem a profundidade da mudança em curso nas instituições. Segundo estudo da organização Ne’emanei Torah Va’Avodah (Fiéis à Torá e ao Trabalho, em tradução livre), o número de oficiais sionistas religiosos no Exército israelense multiplicou-se por quinze entre 1990 e 2015.
Já o Instituto Israelense de Democracia aponta que cerca de 25% dos reservistas mobilizados na atual guerra em Gaza pertencem a esse campo, percentual muito acima da fatia que o grupo representa na população total. Parte significativa desses combatentes vem do movimento de colonos da Cisjordânia, território cuja ocupação é considerada ilegal pela Corte Internacional de Justiça e por sucessivas resoluções da ONU.
O jurista e autor Yair Nehorai, que documenta o fenômeno em vídeos, explica que a estratégia foi desenhada ainda nos anos 1980. Segundo ele, estudantes nacionalistas religiosos concluíram que a forma de impor uma revolução religiosa ao Estado de Israel passava pela conquista do aparato militar, visto como trampolim para os altos cargos do poder civil.
O resultado desse plano de longo prazo aparece de forma evidente nos territórios palestinos ocupados. Ziv Stahl, da organização de direitos humanos Yesh Din, afirma que o Exército recrutou colonos como unidades regionais de defesa após 7 de outubro de 2023, entregando-lhes armas, uniformes e poder estatal.
Essa estrutura, segundo a entidade, vem sendo usada não apenas para proteger assentamentos, mas para atacar palestinos, blindar colonos violentos e perpetrar agressões com respaldo militar. A discriminação foi admitida pelo próprio general Avi Bluth, responsável pela Cisjordânia e ele mesmo um sionista religioso, ao reconhecer que o Exército atira para matar contra palestinos que arremessam pedras, mas poupa colonos judeus que praticam o mesmo ato.
O respaldo político vem do atual governo de Israel, instalado em 2022 sob o comando do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, considerado o mais à direita da história do país. Em vez de punir colonos violentos, a coalizão premia assentamentos ilegais com infraestrutura e investimento público, enquanto a chefia do serviço de segurança interna Shin Bet passou às mãos de David Zini, outro nome do campo nacional-religioso.
O jornal israelense Haaretz noticiou que Zini teria rebaixado dentro da estrutura do Shin Bet justamente o departamento encarregado de combater o terrorismo judaico. O movimento avança em todas as frentes do Estado.
O rabino Eli Sadan, fundador do primeiro programa pré-militar religioso na colônia de Eli, nos anos 1980, comemora ter hoje entre 5 mil e 6 mil quadros adultos espalhados pelo Exército, pelo Shin Bet, pelo Mossad, pelo serviço público, em prefeituras e nos assentamentos. Em discurso disponível na internet, Sadan declara que a missão do movimento é unir povo, Torá e Estado de Israel em uma só entidade, projeto no qual não haveria espaço para não judeus, sejam muçulmanos, cristãos ou ateus.
Sadan não é figura marginal e recebeu em 2016 o Prêmio Israel, a mais alta honraria cultural do país. Para Nehorai, esse foi um ponto de inflexão simbólico, pois o Estado condecorou alguém cuja instituição prega abertamente o fim do Israel laico, das pautas de mulheres, das minorias, dos direitos LGBTQ e da liberdade de expressão.
O jurista conclui que a vida secular e liberal em Israel está sob ameaça concreta diante do crescimento contínuo desse bloco fundamentalista. Os democratas liberais do país, segundo ele, enfrentam dificuldade crescente para conter um projeto que ainda não venceu, mas se aproxima perigosamente de seus objetivos finais.
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