Uma das manobras mais ousadas da exploração espacial recente está prestes a se consumar a milhões de quilômetros da Terra. A sonda Psyche, da NASA, realizará no dia 15 de maio de 2026 um sobrevoo rasante por Marte, passando a apenas 4.500 quilômetros da superfície marciana enquanto viaja a cerca de 19.848 km/h — o equivalente a mais de 12.333 milhas por hora.
A manobra, conhecida como assistência gravitacional, não é mero espetáculo cósmico: ela é o motor silencioso que empurrará a sonda em direção ao seu destino final, o asteroide metálico Psyche, localizado no cinturão de asteroides entre Marte e Júpiter. Ao se aproximar de Marte, a gravidade do planeta curvará a trajetória da nave e aumentará sua velocidade, economizando quantidades significativas de propelente que seriam necessárias para percorrer o longo caminho restante até 2029.
Lançada em 13 de outubro de 2023, a sonda opera com um sistema de propulsão solar-elétrico alimentado por gás xenônio — uma tecnologia que troca a bruta queima química pela elegância da ionização. Em vez de depender exclusivamente de seus propulsores, os planejadores da missão decidiram explorar a física gravitacional de Marte como aliada estratégica, numa demonstração de que a engenharia espacial de ponta sabe tirar proveito até do invisível.
Para garantir que a sonda chegasse ao ponto exato de encontro com o planeta vermelho, a equipe de operações executou uma correção de trajetória em 23 de fevereiro de 2026. Durante aquele ajuste, a Psyche disparou seus propulsores por 12 horas contínuas para refinar o curso e incrementar ligeiramente sua velocidade antes da aproximação marciana.
‘Estamos agora exatamente na rota para o sobrevoo, e programamos o computador de voo com tudo o que a nave fará ao longo de maio’, declarou Sarah Bairstow, líder de planejamento de missão da Psyche no Laboratório de Propulsão a Jato da NASA (JPL), em Pasadena, na Califórnia. Bairstow acrescentou que esta é a primeira oportunidade em voo para calibrar o imageador da sonda com algo maior do que alguns pixels.
O sobrevoo também oferece uma janela científica rara e inesperada. A sonda utilizará seu imageador multiespectral para coletar milhares de observações de Marte, refinando técnicas de imageamento que serão cruciais quando a nave entrar em órbita do asteroide Psyche anos mais tarde.
A perspectiva visual de Marte durante o encontro será radicalmente diferente das imagens brilhantes e familiares captadas por orbitadores e telescópios. Como a sonda se aproxima pelo lado noturno do planeta, Marte aparecerá inicialmente como um fino crescente iluminado por uma estreita faixa de luz solar — uma visão que os cientistas descrevem como ao mesmo tempo desafiadora e esteticamente deslumbrante.
‘Estamos nos aproximando de Marte em um ângulo de fase muito elevado, o que significa que o alcançamos pelo seu lado noturno com apenas uma lasca de luz solar criando um fino crescente’, explicou Jim Bell, líder do instrumento imageador da Psyche na Universidade Estadual do Arizona, em Tempe. Bell ressaltou que tanto a visão do crescente na aproximação quanto a visão de ‘Marte cheio’ após o sobrevoo criam oportunidades únicas para calibração e para imagens simplesmente belas.
Além da câmera, outros instrumentos a bordo da sonda entrarão em ação durante a passagem. O magnetômetro da Psyche poderá observar o campo magnético de Marte interagindo com partículas carregadas provenientes do Sol, enquanto o espectrômetro de raios gama e nêutrons estudará variações nos raios cósmicos — partículas subatômicas de altíssima energia oriundas do espaço interestelar — conforme a nave cruza o entorno do planeta.
Cientistas também nutrem esperanças de detectar um tênue anel de poeira ao redor de Marte, às vezes chamado de toro, que poderia ter sido gerado por micrometeoritos atingindo as luas marcianas Phobos e Deimos e lançando partículas no espaço. Dependendo do alinhamento da luz solar durante o sobrevoo, parte dessa poeira poderia se tornar visível nas observações da Psyche — uma descoberta que, se confirmada, enriqueceria o conhecimento sobre a dinâmica do sistema marciano.
Como detalhou o portal ScienceDaily em sua cobertura da missão, a equipe científica planeja ainda realizar observações de ‘busca de satélites’ ao redor de Marte, preparando procedimentos que serão usados futuramente para procurar possíveis luas em torno do próprio asteroide Psyche. Essa dupla utilidade — calibração e descoberta — transforma o sobrevoo em um laboratório científico em movimento.
Os controladores de missão acompanharão o evento de perto por meio dos sinais de rádio trocados entre a Psyche e a Rede de Espaço Profundo da NASA (Deep Space Network, ou DSN). Variações na velocidade da sonda serão detectadas no desvio Doppler desses sinais, permitindo que engenheiros determinem rapidamente a trajetória atualizada da nave após ela deixar Marte para trás.
A operação conta ainda com um notável esforço colaborativo internacional. A NASA mobilizou o Mars Reconnaissance Orbiter, o Mars Odyssey, o rover Curiosity e o rover Perseverance para contribuir com observações e suporte de navegação durante o evento. A Agência Espacial Europeia (ESA) também participará com o Mars Express e o ExoMars Trace Gas Orbiter, num exemplo raro de coordenação científica entre múltiplas missões ativas ao redor de um mesmo planeta.
‘Em última análise, a única razão para este sobrevoo é obter uma pequena ajuda de Marte para nos acelerar e inclinar nossa trajetória na direção do asteroide Psyche’, sintetizou Lindy Elkins-Tanton, investigadora principal da missão Psyche na Universidade Estadual do Arizona, em Tempe. Ela acrescentou que, se todos os instrumentos estiverem ligados e for possível realizar testes e calibrações importantes, isso seria o ponto alto da missão.
O asteroide Psyche, destino final da sonda homônima, é um dos objetos mais intrigantes do sistema solar: acredita-se que seja o núcleo metálico exposto de um protoplaneta que sofreu violentas colisões bilhões de anos atrás. Estudá-lo de perto pode revelar segredos sobre a formação dos planetas rochosos — incluindo a própria Terra — e sobre os processos que moldaram o interior metálico dos mundos que habitamos.
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