O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, desembarcou em Pequim para uma cúpula amplamente aguardada com seu homólogo chinês, Xi Jinping. O encontro ocorre após meses de guerra comercial, tensões tecnológicas e do agravamento do conflito militar com o Irã, fatores que alteraram profundamente o equilíbrio entre as duas maiores economias do planeta.
Oficialmente, a pauta gira em torno da estabilização da relação bilateral, sempre frágil. Na prática, porém, a agenda se ampliou e agora inclui Taiwan, terras raras, inteligência artificial e o confronto em curso com o Irã, segundo a correspondência publicada pela RFI em Pequim.
Para a maioria dos observadores ouvidos, é a China quem chega à mesa em posição dominante. Pequim resistiu à escalada tarifária americana, mantém alavancagem decisiva sobre minerais críticos e sabe que Washington hoje precisa de sua cooperação em múltiplos dossiês simultaneamente.
Um Trump que chega pedindo
Trump não aterrissa em Pequim apenas com exigências comerciais. Ele chega também com uma lista de pedidos concretos, entre eles ampliar as compras chinesas de produtos agrícolas americanos, garantir encomendas de aeronaves Boeing e, sobretudo, preservar a frágil trégua comercial alcançada nos últimos meses.
Mais delicado ainda, o presidente americano quer convencer Xi Jinping a usar sua influência sobre Teerã. A China, por sua vez, dispõe de trunfos consideráveis, das terras raras essenciais à indústria e à defesa ao papel central nas cadeias globais de suprimento, passando pelos laços estratégicos consolidados com o Irã.
Comércio no centro, sem ruptura à vista
O comércio segue como eixo das discussões, embora ninguém espere uma resolução de fundo. O cenário mais provável é o prolongamento da trégua tarifária ou anúncios pontuais, como compras de soja, encomendas da Boeing e a criação de novos mecanismos de diálogo econômico.
Os desacordos estruturais, contudo, permanecem intactos. Tarifas, restrições tecnológicas, disputa em torno dos semicondutores avançados e, principalmente, o controle chinês sobre as terras raras seguem sem qualquer perspectiva real de solução no curto prazo.
Taiwan, o ponto mais sensível
Taiwan emerge como o tema mais inflamável do encontro. Pequim quer testar até onde Trump está disposto a recuar, num momento em que a China há tempos exige que Washington reduza as vendas de armas à ilha e adote uma linguagem mais alinhada à política de uma só China.
O chanceler chinês Wang Yi qualificou recentemente Taiwan como o maior risco da relação sino-americana. O próprio Trump confirmou que pretende discutir as vendas de armamento à ilha com Xi Jinping, declaração que provocou forte preocupação em Taipé e expôs o desconforto da elite política taiwanesa diante de eventuais concessões.
O fator Irã muda o jogo
O confronto militar contra o Irã altera de modo decisivo o equilíbrio da cúpula. A crise coloca Trump em posição incomum, dependente de Pequim, principal comprador do petróleo iraniano e ator com peso real junto ao governo da República Islâmica.
A China, no entanto, não tem interesse em socorrer gratuitamente os Estados Unidos numa crise que ela própria atribui à agressividade de Washington. Esse dossiê tende a se converter em barganha implícita, com Pequim cobrando contrapartidas em tarifas, tecnologia e na questão taiwanesa antes de qualquer gesto em relação a Teerã.
Estabilizar é a palavra de ordem
Nenhuma grande virada está prevista no encontro. O objetivo declarado é mais modesto e consiste em estabilizar a relação, com alguns anúncios comerciais, possível continuidade do diálogo sobre inteligência artificial e um esforço para conter nova escalada de tensões.
Por trás dessa cortina protocolar, porém, a correlação de forças se movimenta. Washington busca resultados rápidos e politicamente vendáveis, enquanto Pequim joga para ganhar tempo, consolidar suas posições industriais e impor o reconhecimento de suas prioridades estratégicas, com destaque absoluto para Taiwan e o controle das cadeias tecnológicas globais.
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