Cientistas descobrem laje vulcânica de 30 milhões de anos sob Bermudas e reacendem mistério do Triângulo

Ilustração editorial sobre Cientistas descobrem laje vulcânica de 30 milhões de anos sob Bermudas e reacendem mistério do Triângulo. (Ilustração: Cafezinho / Flux Pro)

Sob as águas que alimentaram décadas de lendas sobre aviões desaparecidos, bússolas enlouquecidas e portais submarinos, uma descoberta geológica acaba de reescrever a biografia secreta do arquipélago das Bermudas. Pesquisadores da Universidade Yale e da Carnegie Institution for Science identificaram uma colossal estrutura rochosa antiga, escondida nas profundezas, que sustenta a ilha como uma balsa invisível no meio do Atlântico.

O estudo, publicado no fim de 2025 no periódico Geophysical Research Letters, revela que Bermudas repousa sobre uma laje vulcânica formada há aproximadamente 30 a 35 milhões de anos. Trata-se de um corpo rochoso de cerca de 19 quilômetros de espessura, comprimido entre o assoalho oceânico e o manto terrestre, em uma configuração que desafia os modelos clássicos de formação de ilhas vulcânicas.

A peculiaridade não termina aí, pois essa camada oculta é cerca de 1,5% menos densa do que a rocha do manto que a circunda. Essa diferença sutil de densidade permite que a estrutura ‘flutue’ silenciosamente, empurrando Bermudas para quase 600 metros acima do fundo oceânico vizinho, como se um continente em miniatura insistisse em respirar à superfície.

O líder da pesquisa, William D. Frazer, explicou que o arquipélago segue intrigando geólogos justamente por não se comportar como cadeias vulcânicas tradicionais, a exemplo do Havaí. ‘Bermudas é um lugar empolgante para se estudar porque uma série de suas feições geológicas não se encaixa no modelo de pluma do manto’, afirmou Frazer, sinalizando que a Terra ainda guarda mecanismos profundos pouco compreendidos pela ciência contemporânea.

A metodologia da equipe dispensou perfurações invasivas no leito marinho. Em vez disso, os cientistas mergulharam em mais de duas décadas de registros sísmicos coletados por uma estação instalada na própria Bermudas, transformando tremores distantes em uma espécie de raio-X subterrâneo.

Foram analisadas vibrações de cerca de 400 terremotos remotos, observando como cada onda sísmica se deformava ao atravessar as camadas ocultas. A partir dessas distorções, os pesquisadores construíram um mapa detalhado de estruturas enterradas a mais de 40 quilômetros abaixo da ilha, conforme revelou a reportagem do IBTimes UK sobre a investigação.

O que emergiu desse mosaico de dados foi uma camada ‘subplacada’ de material vulcânico antigo com espessura quase duas vezes maior que formações semelhantes encontradas sob outras ilhas oceânicas. Para os autores, a descoberta pode redesenhar o entendimento científico sobre vulcanismo intraplaca e sobre processos misteriosos que ocorrem nas entranhas do planeta.

Mais instigante ainda é o modo como esse achado dialoga com o folclore que cerca a região há gerações. A rocha mais leve sob Bermudas enfraquece sutilmente a gravidade local, gerando o que os geofísicos chamam de ‘anomalia do geoide’, uma protuberância quase imperceptível no nível do mar provocada por variações na atração gravitacional terrestre.

A ilha também repousa sobre rochas vulcânicas ricas em ferro, que produzem campos magnéticos anormalmente intensos. Essas variações naturais alimentaram, ao longo de décadas, relatos de bússolas desorientadas e falhas de navegação inexplicáveis, atribuídas pelo imaginário popular ao famigerado Triângulo das Bermudas.

Os cientistas, contudo, fazem questão de delimitar o terreno entre geologia e lenda. A nova camada rochosa não explica desaparecimentos de embarcações ou aeronaves, e nem pretende substituir as causas mais prosaicas já apontadas por agências como a NOAA e a Guarda Costeira dos Estados Unidos.

O mito do Triângulo das Bermudas ganhou tração nas décadas de 1960 e 1970, impulsionado por livros e especiais de televisão que romantizaram naufrágios e sumiços aéreos. O caso mais célebre permanece sendo o do Voo 19, quando cinco bombardeiros da Marinha dos Estados Unidos desapareceram durante uma missão de treinamento em 1945, levando consigo até mesmo a aeronave de resgate enviada em sua busca.

Ao longo do tempo, as hipóteses para esses sumiços flertaram com o impossível, indo de extraterrestres e a perdida cidade de Atlântida até portais submarinos, erupções de gás metano, ondas anômalas e perturbações eletromagnéticas. Estudos sérios, porém, demonstram que a área não registra mais desaparecimentos do que outras regiões oceânicas de tráfego intenso, sendo a maioria dos incidentes atribuída a tempestades, erros de navegação, correntes fortes ou falhas mecânicas.

Ainda assim, a geologia singular do arquipélago funcionou, durante décadas, como um combustível silencioso para a mitologia. A descoberta da laje vulcânica oculta acrescenta agora uma nova camada científica, literal e metafórica, a um dos enigmas mais persistentes do planeta.

Frazer e seu colega Jeffrey Park devem retornar a Bermudas ainda neste mês para uma nova rodada de trabalhos de campo, desta vez utilizando sismômetros portáteis. A expectativa é refinar o mapa subterrâneo e, quem sabe, arrancar mais segredos daquela balsa fantasmagórica de rocha antiga que sustenta, há 30 milhões de anos, uma das porções mais enigmáticas do Atlântico.


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